
aproxima a dança / sombra aquém da sombra / − eleva-te, abismo! Foto © Joaquim Félix]
- Entram as réstias do sol pelas janelas altas,
talvez a esperançar quem, no coro desta igreja,
se afasta da desejada proximidade por cinco dias de Covid-19.
É a mão do seu adeus, quase horizontal. Que delicadeza solar!
Varre os telhados à cidade poente para segredá-lo neste refúgio.
Lentamente o crepúsculo dará a sombra que resta,
na semelhança daquela outra sombra, como uma sonata em trio,
que Rui Chafes, Paulo Nozolino e Pedro Costa
ofereceram aos olhos deste verão, no Centro Pompidou, em Paris.
Desde há dois dias, o equinócio de outono a todos reconduz
a paisagens e a ritmos de transumância.
Os alunos deslocam-se para as escolas,
alguns à espera de professores, a escassear cada vez mais.
Os ramos das árvores e as ervas inclinam-se
de frutos e sementes maduras para manjares suculentos de aves.
Das uvas colhidas fermenta o mosto. E o vinho já é doce!
As folhas iniciam-se nos ritos das variações da cor e da queda.
Há aves que partem, há aves que chegam:
andorinhas e andorinhões negros dão lugar a felosas e chapins.
- Contemplar com atenção este animado trânsito devolve-nos
não só a certas alegrias, mas também a questionamentos.
Se as sementes se descolam na sua história secreta de aviação (cf. Manuel Zimbro),
se os pássaros e os ganços em suas formações cruzam as fronteiras,
porque se erguem tantas barreias às migrações humanas?
Porque se fazem dos mares fossos e portões para territórios e mansões?
- Celebramos hoje o “Dia Mundial do Migrante e do Refugiado”.
Alguém estima o número de migrantes e de refugiados no mundo?
Segundo os dados da Organização das Nações Unidas,
que emitiu, na quarta-feira passada, o relatório de 2022,
atualmente, haverá no mundo cerca de 281 milhões de migrantes,
ou seja, 3,6 % da população existente.
É uma cifra que tem vindo a crescer,
não obstante o impacto sobre as movimentações causado pela covid-19.
Quanto a refugiados, o ACNUR, agência da ONU para eles,
estima que, entre este ano e o próximo,
o seu aumento se cifrará em 36%,
de tal forma que, em 2023, mais de 2 milhões de pessoas
precisarão de serem acolhidas noutros lugares.
Para este aumento têm contribuído o impacto económico da pandemia
e o aumento das guerras, como a da Rússia contra a Ucrânia.
Só a ofensiva militar, dita ‘especial’ por Putin,
causou a fuga de mais de 13 milhões de pessoas,
dos quais 6 milhões para outras localidades ucranianas
e 7,4 milhões para outros países europeus.
Destes, Braga acolheu perto de duas centenas,
conforme foi referido, no sábado passado,
por ocasião de uma sessão de solidariedade
para com a cidade ucraniana de Ivano-Frakivisk, com a qual está geminada.
É a maior crise de refugiados na Europa desde a II Guerra Mundial.
- A denúncia que o profeta Amós faz,
preanunciando a deportação dos Israelitas para a Babilónia,
e a parábola de Jesus, dita aos fariseus e a cada um de nós,
alertam-nos para as consequências da gritante injustiça social,
que, outrora como em nossos dias, cava abismos na terra e nos céus.
São ‘sem nome’, como os ricos apresentados pelos seus bens
e estilos burgueses de vida atentatórios,
aqueles que hoje assaltam os direitos, as casas e os territórios dos pobres.
A desenfreada busca pelo lucro, segundo o regime do liberalismo económico,
está a conduzir-nos à implosão social, a guerras, que poderão vir a ser justas,
e a fazer com que os pobres saltem muros e mares, como aliás já o fazem.
Será justo que os ricos se banqueteiem esplendidamente todos os dias
e registem as suas exorbitantes riquezas, com códigos ‘anónimos’,
em sociedades de paraísos fiscais?
- Amós e Jesus acabam por nos colocar a zumbir nos ouvidos
situações socioeconómicas, que, em nossos dias,
cada um de nós saberá atualizar
com idêntico sentido de detalhe e de duro desconforto.
Desreguladas, as leis de mercado estão a sufocar-nos.
Os bens de primeira necessidade, como o pão e o leite e a água,
e, bem assim, da energia, como o gás, a eletricidade e os combustíveis,
podem escalar preços que deixarão muitos a tiritar de frio e de fome.
A crescente inflação faz com que tantos percam capacidade de compra.
Custa, não custa, saber que há empresas e ricos a aumentar os lucros
sobretudo neste tempo de penúrias agravadas?
Que medidas políticas têm sido tomadas,
para evitar esta escandalosa injustiça?
Não somos todos irmãos?
Eis porque fazem sentido os apelos à radical fraternidade,
laçados pelo Papa Francisco na Carta Encíclica Fratelli Tutti.
Onde estão e como vivem os teus irmãos? – pergunta-nos Deus.
- Quem irá hoje, não amanhã, até junto do portão?
Que ‘Lázaros’ famintos estarão lá? Que chagas são lambidas por cães?
O ‘Lázaro deste Evangelho’ é mais pobre do que os cachorrinhos (cf. Mt 15,21-28),
mencionados quando a mulher cananeia solicitou a Jesus que curasse a sua filha.
Porque nem às migalhas da mesa do homem rico ele tem acesso.
O portão está fechado. O coração do rico está cheio de vinho.
Com a púrpura e o linho fino,
assim se prepara para a morte, como um faraó a colocar no sarcófago.
Meu irmão mais novo, que chegou em agosto de mais uma missão na “Frontex”
(Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira),
numa das ilhas da Grécia, a terceira missão dele nesta fronteira europeia,
narrou-nos quanto este portão está repleto de tantos ‘Lázaros’.
Que, diga-se, são na sua maioria refugiados e migrantes.
Por vezes, só Deus o sabe, só Deus os ajuda.
Lázaro significa isso mesmo: «Deus ajuda».
Para Deus, os pobres contam.
Mais, os pobres têm nome, recebido por divina atenção,
nem que seja junto de um portão, do lado de fora…
O salmista canta esta justiça divina aos oprimidos,
esfomeados, cativos, cegos, abatidos… (cf. Sl,145, 7-10).
- A ausência de gestos fraternais dilata abismos nos céus.
Imagino que nos tenham surpreendido certos detalhes narrados no Evangelho:
a geografia do paraíso, com o «grande abismo» de separação,
e o diálogo, de carinho familiar, entre o Pai Abraão e o rico.
Como que a dizer-nos que, em última instância, nisto repousa a nossa fé,
há um derradeiro reduto para a justiça reparadora,
quando ela não for inteiramente colocada em prática na terra.
Quem é que, hoje, por exemplo,
poderá fazer justiça às crianças exploradas e vendidas,
como, neste fim de semana de Programação, vimos no filme Cafarnaum,
da cineasta libanesa Nadine Labaki,
que denuncia os dramas das crianças e dos refugiados no Líbano?
Quem poderá fazer ainda justiça a todos os ucranianos,
vítimas da barbárie praticada pelos soldados russos,
que têm sido exumados, apresentando sinais de tortura?
- O rico que não pedia muito – o refrescar da língua com um dedo molhado –
lembrou-se de que tinha cinco irmãos.
E fez um pedido mais exigente:
enviar Lázaro à sua casa paterna, a fim de avisá-los do futuro.
A sua preocupação não era ainda a de Zain Al Rafeea,
que, além de cuidar dos seus muitos irmãos,
‘adotou’ o filho da refugiada etíope, sem visto para residir no Líbano.
Zain não procede como o rico, que só pensou nos seus irmãos de sangue.
Pois, a este, faltava-lhe, ainda, sentir o sangue dos ‘Lázaros da história’,
segundo a fraternidade universal, a fraternidade radical.
- Senhor Jesus, ressuscitado de entre os mortos,
enviado pelo Pai, nesta tarde misturada de sol e súplicas:
o nosso arrependimento é para Ti e para Lázaro.
Que os portais da indiferença cedam à fome e às feridas dos irmãos.
Que tua Palavra derrube as paredes dos ouvidos e aplane os fossos.
Seja o nosso «bom combate da fé» (1 Tim 6,12, et cf. vv. ss)
praticar a justiça, a piedade, a perseverança e a mansidão.
Sem mancha, em todo o cuidado pela fraternidade visceral,
a nossa língua será humidificada no teu Cálice
e a nossa fome será libertada no mesmo Pão.
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Triságia; este texto corresponde à homilia na liturgia católica do passado domingo, em que se assinalava o Dia Mundial do Migrante e Refugiado.










