É fundador, diretor e guia espiritual da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã [ver 7MARGENS]. É beneditino, autor de vários livros, quatro deles traduzidos em Portugal. Vive na comunidade de Bonnevaux, na Borgonha (França), quando não está a viajar pelo mundo visitando comunidades locais de meditação e pregando retiros sobre os ensinamentos do monge beneditino John Main [1926-1982] que foi o seu mestre espiritual.
Tem 74 anos, fala de modo pausado, usando palavras que parece escolher com os olhos, tal é a sua concentração naquilo que quer dizer. Gesticula pouco, sorri de vez em quando e respira serenidade. Para ele, que dedicou grande parte da sua vida à meditação cristã, esta não é nenhuma “pílula mágica” que permita resolver “todos os problemas que enfrentamos”. Mas é “a oração do coração” que nos aproxima do “silêncio de Deus”, “cria comunidade” e faz toda a diferença porque “muda-nos a nós” e “muda o modo como encaramos e lidamos com os problemas que criamos”.
Estará em Portugal na próxima semana, mas antes disso concedeu-nos esta entrevista através de videoconferência.
7MARGENS – O que mudou na meditação cristã que hoje pratica em relação àquela que aprendeu com o padre John Main?
LAURENCE FREEMAN – O melhor modo de responder a essa pergunta é com a imagem de um rio. As águas de um rio nunca passam duas vezes, mas é sempre o mesmo rio. Hoje percebo-o melhor, entendo-o de um modo mais completo e ele corre em mim de forma mais fácil, mais profunda.
Mas o ‘ensinamento essencial’ – de que falamos na Comunidade Mundial para a Meditação Cristã – e que aprendi com John Main, é o ensinamento espiritual de oração com o coração que ele foi beber à tradição dos padres e das mães do deserto [teólogos e eremitas dos primeiros séculos do cristianismo] e que reapresentou ao mundo moderno, usando em simultâneo a linguagem tradicional e uma linguagem contemporânea.
Penso que o ‘ensinamento essencial’ continua a ser o mesmo do início, quer no seu fundamento teológico quer na sua prática. O ensinamento diz-nos como e quando meditar e a sua prática é muito simples. O seu primeiro elemento é a simplicidade e estamos desde sempre comprometidos com este princípio.
A grande vantagem é que as pessoas, agora, estão à procura de algo que seja ao mesmo tempo prático e simples. Contudo, hoje, tal como há 40, 50 anos, a simplicidade não é algo fácil, mas ela é ainda mais necessária do que era naqueles tempos. Deste ponto de vista, John Main teve uma visão profética do futuro: percebeu, muito antes da era digital e de tudo o que ela trouxe, a importância da simplicidade, quer em teoria quer na prática.
O segundo elemento do seu ensinamento é a quietude. Quietude interior e exterior. Com a nossa cabeça sempre a saltar mais rapidamente do que nunca, a quietude interior é cada vez mais importante. Ela deve levar-nos a um abrandamento do nosso estilo de vida, da nossa vida.
O silêncio é o terceiro elemento. Silêncio que não é apenas ficar quieto. É a ausência de pensamentos, a suspensão da dualidade ou da consciência dividida (…).

Retiro em Bonnevaux. “Há cada vez mais gente desejosa de escutar e aprender esta antiga sabedoria da oração contemplativa. ” Foto © WCCM
7M – Exato! Muitas pessoas procuram a meditação apenas como meio de alcançar tranquilidade e relaxamento…
Sim, para muita gente a essência da meditação é conseguir abrandar o ritmo de vida, relaxar. E é verdade, essa é uma consequência da meditação, um subproduto. Mas o objetivo da meditação é entrar no silêncio de Deus. Mestre Eckhart dizia que “não há nada mais parecido com Deus do que o silêncio”. Então, na meditação o que fazemos é o trabalho do silêncio, afastando os nossos pensamentos e agradecendo esse imenso dom que é o silêncio.
Temos consciência de que a meditação cristã é hoje mais desafiante, mas, por outro lado, mais necessária. Há cada vez mais gente desejosa de escutar e aprender esta antiga sabedoria da oração contemplativa. Há 30, 40 anos, muitos cristãos diriam que a meditação nada tinha a ver com o cristianismo. Graças ao trabalho que fizemos, ajudámos a Igreja a perceber que esta sabedoria tinha sido esquecida, mas deveria ser recuperada. Esta é uma enorme diferença, entre o ontem e o hoje.
Estive há muito pouco tempo na Austrália a convite de um bispo que introduziu a meditação em todas as escolas católicas da sua diocese. Ele próprio apresenta-se como um homem da meditação. “Sou homem duas vezes por dia, Laurence!”, disse-me, glosando a ideia de que se deve parar para meditar duas vezes por dia.
O simples prazer da verdade
7M – Contudo, apesar desse renovado interesse pela meditação cristã, o tipo de vida que caracteriza as nossas sociedades ocidentais não é nada favorável à vida contemplativa…
Sim, é verdade que os desafios são maiores do que nunca, mas também é maior a consciência da necessidade de contemplação… então: para onde estamos a ir? Nenhum de nós o pode prever. Mas sabemos que cada um de nós pode fazer a diferença quanto à direção em que nos estamos a mover.

Vista a partir da casa da Comunidade de Meditação em Bonnevaux. “Os desafios são maiores do que nunca, mas também é maior a consciência da necessidade de contemplação.” Foto © WCCM
7M – Sendo mais específico: que pode a meditação cristã oferecer à sociedade e à Igreja Católica, hoje e amanhã?
Pode oferecer o que a contemplação oferece. Como dizia São Tomás de Aquino, a contemplação, a meditação, oferece o “simples prazer da verdade”. A meditação não consegue resolver todos os problemas que enfrentamos. A Administração Trump não mudará só porque nós meditamos. Nem daremos conta das questões emergentes da inteligência artificial nem terminaremos com as guerras, apenas meditando.
Não, a meditação não é um meio mágico que muda tudo isso. Contudo, ela provoca uma alteração, faz a diferença. Faz a diferença porque nos muda a nós. É certo que não resolve os problemas, mas muda o modo como os encaramos e lidamos com eles.
A meditação é apenas um caminho muito simples para regressar ao normal. Não estou a falar de grandes visões sobrenaturais, de epifanias. Falo da meditação enquanto meio para nos fazer regressar à humanidade, a uma humanidade saudável, a uma mente sã e a um espírito saudável. O que traz consigo a experiência de Deus, da transcendência, e a consciência de que nós podemos aceder ao controlo da nossa condição humana e resolver os problemas que nós próprios criámos.
Isto é o que posso dizer que a meditação é capaz. Ela traz paz e alegria a qualquer um que a pratique com regularidade. Nos retiros de silêncio experimentamos uma acalmia da mente que a torna mais nítida e a faz entrar numa melhor relação com o coração. E é disso que precisamos para lidar com os problemas que criamos. Veja o caso da inteligência artificial (IA): ela pode ser vista como algo de sinistro que vai tomar conta do mundo, relegando os seres humanos para uma posição de inferioridade. Mas se usarmos a totalidade das capacidades da inteligência humana, incluindo a inteligência espiritual, a sabedoria e a intuição, então saberemos como usar as ferramentas que criamos.
Esta é a mensagem que devemos ampliar: diante da polarização, da permanente catástrofe anunciada pelos media, uma voz de razoabilidade e de proporcionalidade é necessária. E ela só pode vir de uma visão contemplativa do mundo.
Ser, antes de fazer

Laurence Freeman durante uma aula de meditação cristã. Foto: Direitos reservados
7M – A Igreja Católica está envolvida desde há cinco anos num processo de sinodalidade. Como conjuga este processo com a meditação cristã?
Sinodalidade e contemplação estão intimamente ligadas por um fio: a escuta; a qualidade da escuta. Nos Evangelhos, Maria mãe de Jesus é-nos oferecida como um grande símbolo e um exemplo de contemplação da presença do mistério de Jesus Cristo. Repare, de acordo com os Evangelhos, ela não fala muito, mas escuta. Medita, reflete e guarda esse mistério no seu coração.
Isto não significa que devemos fugir do mundo ou da ação. Pelo contrário. Devemos recuperar o justo balanço entre ação e contemplação. Tal como Marta e Maria [irmãs de Lázaro]. Interpretamos de forma errada aquela passagem em que Jesus diz “Maria escolheu a melhor parte”, como querendo dizer que quem escolhe a vida contemplativa se situa a um nível superior ao daqueles que, como Marta, escolheram a vida ativa. Mas não é isto que o episódio significa. É preciso colocá-lo em contexto. O que Jesus quer dizer é que o ser vem antes do fazer.
Se perdermos a conexão com a experiência de sermos – conexão que a contemplação permite –, então a nossa ação fica prejudicada. Entramos em burnout, ficamos, tal como Marta, consumidos pelo stress, pela ansiedade e pela confusão. A mensagem de Jesus é cristalina: temos de manter o equilíbrio entre estes dois aspetos da nossa humanidade.
A ciência mostrou que há dois hemisférios no cérebro que têm de trabalhar juntos e em simultâneo. Cada um representa modos muito diferentes de olhar e de interagir com o mundo. Podemos aproveitar esta descrição para encontrar o significado da história de Marta e Maria.
É por isso que Karl Rahner, um dos grandes teólogos do século XX, disse: “O cristianismo do futuro será místico, ou não haverá cristãos”. Que queria ele dizer com tal afirmação? Penso que o que queria dizer era que a Igreja, em particular a Igreja nos países de cultura ocidental, foi-se desligando da sua tradição contemplativa. A sua oração tornou-se uma oração mental, uma oração devocional. A meditação é a oração do coração. Não substitui as outras formas de oração. Contudo, permite-nos encontrar o equilíbrio e a integração das nossas principais necessidades.
7M – A meditação cristã é uma proposta individual ou é caminho para criar comunidade?
Karl Rahner foi profético ao afirmar: “O cristianismo do futuro será místico, ou não será”. Creio que John Main foi igualmente profético quando afirmou que a meditação cristã cria comunidade, ou, dito de outro modo, a meditação revela a comunhão que já vivemos uns com os outros. Estamos ligados uns aos outros. Pela meditação conseguimos atingir uma consciência mais profunda dessa comunhão.
Hoje em dia, muitas pessoas procuram duas coisas: uma experiência interior mais autêntica de Deus; e comunhão, relações verdadeiras, partilha do sentido da vida. A meditação, volto a dizê-lo, não é a pílula mágica que permite que tudo isto aconteça, mas digo – isso sim! – que precisamos de aprofundar o espírito contemplativo na Igreja… e na cultura, se queremos que isso aconteça.
A partir de uma perspetiva cristã, podemos oferecer uma explicação de porque a meditação cria comunidade. Jesus disse “quando dois ou três de vós se reunirem em meu nome, Eu estarei convosco”. E esta presença de Cristo torna-se mais patente quando se ingressa, juntos, no silêncio fundo da fé. Assim tomamos consciência do significado daquilo que designamos como o corpo de Cristo. E esta experiência transforma o que pensamos acerca da Igreja e da religião.

Eucaristia contemplativa durante um retiro. “A meditação revela a comunhão que já vivemos uns com os outros.” Foto © WCCM
Sem meditação não há diálogo
7M – Até agora tem abordado a experiência da meditação cristã no contexto da cultura dita ocidental. Mas que lugar pode ela ter em países e continentes como a Ásia, em cuja tradição cultural a meditação detém, ao longo dos séculos, um lugar central?
Essa é uma questão muito interessante… Quando há vários anos estava a preparar uma visita à Tailândia, encontrei-me com um antigo delegado apostólico naquele país que me disse: “Estou muito contente por saber que vai difundir a meditação cristã junto da Igreja na Ásia. É isso que nos falta. Durante séculos construímos grandes igrejas, hospitais, escolas, grandes instituições, mas não comunicámos a sério o espírito do Evangelho às culturas asiáticas. E não o faremos enquanto não formos ao encontro das pessoas daquele continente pela via contemplativa.”
Outro encontro: no mês passado, a caminho da Austrália, parei na Indonésia, o maior país muçulmano, no qual temos 250 grupos de meditação cristã muito ativos. Tinha audiência marcada com o ministro para os Assuntos Religiosos, que é também o Imã principal da comunidade islâmica. Esperava encontrar um burocrata, um político muito diplomático. Puro engano! Encontrei um contemplativo de enorme espiritualidade e grande sabedoria. Questionei-o sobre o futuro da religião. Respondeu-me de forma muito clara: “O futuro da religião tem de incluir o diálogo entre as religiões ao mais profundo nível. Sem meditação não haverá diálogo.” Ele tinha e transmitia uma consciência muito funda da espiritualidade contemporânea e dos desafios quanto ao futuro da religião.
7M – A propósito de viagens, no final de abril, princípios de maio, vai estar em Portugal. Quais são as suas expectativas?
Bom vinho, boa comida e encontros com gente boa… [risos]
Na verdade, espero usufruir dos frutos da meditação cristã levada a cabo pelas diversas comunidades que se reúnem em Portugal. Sei que muito tem sido feito para procurar novos modos de partilhar com outros os dons que a meditação nos traz. É dentro desse caminho de diálogo e de partilha que vou estar em Portugal.










