
Maizum apresenta leituras encenadas de Gil Vicente. Foto © Carlota Mantero.
Sem verbas suficientes para uma encenação, o Teatro Maizum apresenta a leitura encenada de uma trilogia vicentina — com as obras Tragicomédia de Dom Duardos, Farsa de Inês Pereira e o Auto Pastoril Português — que durante uma semana (desta segunda-feira, 27, até domingo, dia 3) ocupará o espaço da Galeria Sá da Costa, no Chiado, em Lisboa.
Trata-se da oitava edição do programa “Clássicos em cena”, uma iniciativa que pretende divulgar os clássicos teatrais portugueses. Numa nota de divulgação do programa, o Teatro Maizum sublinha que este é um “projeto interdisciplinar, que cruza investigação com a prática cénica”, celebrando a efeméride da passagem de meio milénio sobre a estreia destas obras em 1523, para a corte de D. João III. Durante a semana de residência na Galeria Sá da Costa, haverá as leituras encenadas, tertúlias com o público e a presença de investigadores convidados.
Num texto sobre o “repertório a descobrir” do “teatro clássico português”, assinado por Silvina Pereira, fundadora, diretora artística do Maizum, atriz e encenadora, nota-se que “a apresentação da trilogia vicentina Tragicomédia de Dom Duardos, Farsa de Inês Pereira e Auto Pastoril Português decorre de estas três obras terem sido apresentadas na corte no ano de 1523, assim como da novidade que cada uma delas manifesta”. Afinal, escreve a dramaturgista, “Gil Vicente é o ponto de chegada de uma tradição dramática medieval portuguesa que, sem perder a sua identidade, foi sensível aos alvores do Renascimento no teatro”, “deixando com a sua obra, “vinho novo em odres velhos””.
Silvina Pereira traça brevemente o retrato desta trilogia. “Em Dom Duardos, Gil Vicente traz pela primeira vez para o palco a novela de cavalaria, combinando alta poesia com a retórica petrarquista, em que o valor da pessoa está no ser, e não no ter. Na Inês Pereira, diz o dramaturgo que “certos homens de bom saber”, porém, invejosos e de má-fé, o acusavam de não criar, mas sim copiar as suas obras. Assim nasce o desafio de escrever a partir do mote “mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube”, constituindo a resposta de Gil Vicente uma das criações mais perfeitas em matéria de teatro cómico e uma das mais intrigantes do dramaturgo quinhentista. No Pastoril Português oferece-nos uma deliciosa comédia pastoril de amores desencontrados, com espaço para o teatro falar de si próprio, representado por um Gil “que faz os autos a el-rei”.”
“A ideia de Gil Vicente retratista do seu tempo deve ser revisitada”, defende Silvina Pereira, “apresentando-o” antes “como um dramaturgo intemporal e moderno, que tem muito a dizer à nossa contemporaneidade”. 1523, diz-nos a diretora do Maizum, é o ano “glorioso” que “confirma Gil Vicente — então com cerca de sessenta anos — como dramaturgo e permite-nos, com todo o sentido e propriedade, celebrar a efeméride da passagem de meio milénio sobre a estreia destas obras”.
Programa
Dia 27/11 — 19h00: Leitura encenada de Tragicomédia de Dom Duardos.
Dia 27/11 — 20h00: Tertúlia em torno da obra e do autor.
Dia 29/11 — 19h00: Leitura encenada da Farsa de Inês Pereira.
Dia 29/11 — 20h00: Tertúlia em torno da obra e do autor.
Dia 1/12 — 19h00: Leitura encenada do Auto Pastoril Português.
Dia 1/12 — 20h00: Tertúlia em torno da obra e do autor, com Márcio Muniz.
Dia 3/12 — Festa dos Clássicos – Leitura encenada das três peças:
17h00 Tragicomédia de Dom Duardos.
18h00 Farsa de Inês Pereira.
19h00 Auto Pastoril Português Castro.
20h00 Tertúlia e iguarias com os atores e espectadores.










