Nos primeiros dias de Janeiro soubemos, por António Marujo, da disponibilização da «nova tradução experimental do livro de Job, no âmbito do projecto dinamizado pela Conferência Episcopal Portuguesa»[1]. O director do 7MARGENS expõe, de forma infinitamente mais competente do que poderia pretender o autor das presentes linhas, algumas das mais importantes vias de aproximação ao texto, nomeadamente as relativas à temática da retribuição.
Permita-se-me, contudo, acrescentar uma abordagem que se situa na fronteira entre distintas disciplinas da razão, no caso, a teologia, a história e a antropologia, pela mão do filósofo e antropólogo católico René Girard (1923-2015).
No discurso de recepção que proferiu por ocasião do ingresso de Girard na Academia Francesa (Dezembro de 2005), o filósofo Michel Serres fez ampla referência a uma dimensão central do seu trabalho: o funcionamento do mecanismo vitimário assente na imitação, na rivalidade mimética.
A actualidade de Girard, cujas teses fundamentais haviam sido popularizadas, em 1978, sob o título Des choses cachées depuis la fondation du monde[2], parecia, a Serres, indiscutível, desde logo porque o devir histórico das sociedades contemporâneas confirmaria a intuição original do antropólogo. Assim, por exemplo, as manifestações do sagrado em contexto, que Serres entende regressivo, de retorno às religiões arcaicas e ao politeísmo. E como os deuses são sempre locais e o sacrifício humano é uma constante nas tradições que antecedem o cristianismo, a superação do mecanismo vitimário fica a dever-se à resistência da vítima inocente no processo que, precisamente, evidencia a sua inocência. A hóstia pelo Corpo, em Jesus, mas já antes, o cordeiro por Isaac ou o resgate final de Job, até aí cercado pelos ‘amigos’ que o querem fazer confessar uma culpa que justificaria o castigo, por sua vez representado pela sucessão de infortúnios.
Ora análise da mimesis mítica e da sua superação, na Bíblia e, mais particularmente, no Novo Testamento, prolonga-se, na obra de Girard, especificamente no relativo ao Livro de Job, em ensaio circunstanciado com um título extraído de Job 22:15, La route antique des hommes pervers[3], publicado há exactamente 40 anos.
Job mostra exuberantemente que o deus dos ‘amigos’ não ama e não perdoa, só julga e castiga. Que a condição desse deus é a de um juíz implacável, ciente das faltas dos homens, mesmo, se não sobretudo, as que eles não conhecem nem cometem. Esse deus-espelho é o ponto de fixação do mecanismo da imitação, da rivalidade agónica que conduz à eleição da vítima sacrificial em que se concentra a violência da sociedade, violência que irá consagrar/expiar/sublimar pela morte.
Em Job, a culpabilidade é ‘verificada’ pela perda do património, da família, do prestígio, pela doença, pelo ostracismo a que é votado. E – culpa suprema, como o revela a insistência dos ‘amigos’ – pela dificuldade em aceitar, com a culpabilidade que não reconhece, o ‘castigo’ a que terá sido votado.

René Girard, O mecanismo vitimário canaliza a violência e assegura, assim, a coesão social. Foto © HUB, Johns Hopkins University.
É essa recusa que interessa a Girard, pois se trata de compreender a indissociabilidade entre a violência e o sagrado. Não apenas a dimensão sacrificial propriamente dita, com o seu auge no homicídio ritual, mas a vertente multitudinária, feita de desejo, inveja, ressentimento. Como explica Michel Serres na mesma ocasião, trazendo-nos, de novo, para o século XXI, «os media de hoje retomam o sacrifício humano, representam-no e multiplicam-no com um frenesi tal que estas repetições recobrem a nossa civilização de barbárie melancólica e fazem […] recuar as nossas culturas às eras arcaicas do politeísmo sacrificial»[4].
Georg Simmel (1858-1918), no capítulo de Soziologie (1908) dedicado ao conflito já assinalara a dualidade/duplicidade real do comportamento social dos indivíduos, comportamento fundado originariamente na hostilidade que se transmuta em interesse ou, diria Girard, na rivalidade que advém da identidade dos desejos, de querermos todos o mesmo objecto: «A força espantosa do interesse que o homem tem o costume de revelar pelo sofrimento dos outros, por exemplo, só pode explicar-se por uma mistura destas duas motivações»[5].
Hostilidade e simpatia vêm juntas, o que se observa regularmente nos fenómenos de piedade colectiva subsequentes à mobilização dos recursos de violência que conduziram ao desenlace nefasto. Algo que gera, nos mais sensíveis, expressões curiosas de compaixão penitente: pena da vítima e de si mesmo, da própria culpa pressentida?! Será o caso dos ‘amigos’? Nem isso:
«Maldizer Job todos juntos, é fazer obra divina porque é reforçar a harmonia do grupo, aplicar um lenitivo eficaz nas feridas da comunidade. Os três amigos não fazem outra coisa», e é assim que se comportam sempre as «pessoas de bem»[6].
E se Deus não intervém na miséria de Job? Se as desgraças que o atormentam não resultam do arbítrio divino? Questão de teodiceia cuja centralidade é evidente desde as primeiras linhas do poema, mas que não dirige a análise de Girard, embora esta também proponha uma solução, na qual se faz um paralelo entre os «universos primitivos» e os «universos totalitários».
Job está sozinho, mas o notável é que não aceita a censura, não acolhe resignado o veredicto dos ‘amigos’ nem suporta a ideia de que não merece uma explicação. Isto é, dirá Girard, a sua insistência releva a função social do mecanismo pelo qual se cria a culpa e a vítima emissária, o bode expiatório no qual se concentra e para o qual se dirige a violência da sociedade.
O desenlace do Livro de Job pode resumir o conflito entre a santidade e o sagrado, a religião e a cultura, de que nos fala, ainda ele, Michel Serres:
«Há dois tipos de religião. Quase naturalmente, as culturas engendram as do sagrado, que se distinguem daquelas que estes colectivos dificilmente toleram porque, santas, proíbem o assassínio. Raro e difícil de viver devido à sua insuportável excepção, o monoteísmo constitui a crítica mais devastadora dos politeísmos comuns, que regressam sempre fatalmente. O santo critica o sagrado, tal como o monoteísmo critica a idolatria.»[7]
É também neste sentido que o cristianismo é, para Girard, religião verdadeira, pois só Jesus é Deus[8], ou, como diz o teólogo protestante Paul Tillich, prolongando aquela certeza, Jesus é aquele quer «tirar de cima de nós o fardo da religião […], o jugo da lei»[9].

«Cristo quer que os homens reconheçam o seu papel de fazedores de vítimas, de perseguidores.» Pintura: Josefa d’ Óbidos, Agnus Dei. Museu Regional de Évora. / Wikimedia Commons.
Com efeito, ambas as formulações podem ser interpretadas, no quadro do pensamento de Girard, como significando uma mutação essencial, que a Páscoa cristã vem celebrar:
«Graças à Paixão, Cristo quer que os homens reconheçam o seu papel de fazedores de vítimas, de perseguidores. É porque proclama as regras do reino e renuncia totalmente à violência sacrificial que o próprio Cristo é sacrificado.»[10]
Esta mutação essencial, consagrada no Novo Testamento, mostra algo que se esconde nas religiões idolátricas: a imanência da culpa e da retribuição à ordem histórica, a causa, acidental ou bem humana, do mal e da punição. O Deus que desaprovou os ‘amigos’ «apontou triunfalmente», a Job, «a inexplorável grandeza da natureza, que não pode ser medida de acordo com a medida da rectidão humana»[11].
[1] https://conferenciaepiscopal.pt/biblia/prov/22_Jb.pdf
[2] Cf. ed. Grasset, Le Livre de Poche, biblio essais, 1978.
[3] Segue-se a edição Grasset, Le Livre de Poche, biblio essais, 2015. Cf. tradução da Conf.ª Episcopal ad experimentum: «Será que desejas seguir pelo caminho antigo, / por onde caminharam os homens iníquos?». A tradução de Frederico Lourenço, Bíblia, Vol. IV, tomo 1, Quetzal, 2018, é como segue: «Não será que guardarás um caminho eterno, /Que homens injustos pisaram». Girard segue o texto da Bíblia de Jerusalém, que, na edição brasileira, tem a seguinte redacção: «Queres seguir os velhos caminhos / por onde andaram os homens perversos?». Na mesma obra, pronunciando-se sobre diferentes traduções, justifica a sua opção pela Bíblia de Jerusalém, justificando-a «em razão do seu carácter paradoxal e subversivo, da sua oposição a todas as ideias feitas» (p.87).
[4] Cf. https://www.academie-francaise.fr/reponse-au-discours-de-reception-de-m-rene-girard
[5] Le conflit, Circé/Poche, 1998, p. 38.
[6] Girard, 2015, p. 85.
[7] Cf. nota 4.
[8] René Girard, O Bode Expiatório e Deus, LusoSofia:press, Covilhã, 2009, p. 12: «Não existe outro Deus senão em Cristo. Os outros deuses são deuses falsos».
[9] Paul Tillich, The Shaking of the Foundations, Penguin Books, 1949, p. 101.
[10] René Girard, 2009, p.9.
[11] Tillich, 1949, p. 30.
João Santos é professor.
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