Que frágil e gozoso é o instante
(Luísa Villalta)
En soneto que soan sendo
A melodia do que eu son na esencia [1]”
(Luísa Villalta)

Luísa Villalta. Foto © Arquivo da Asociación de Escritores e Escritoras en Lingua Galega (AELG)
A 6 de março de 2004 morre repentinamente a poeta galega “dos quatro costados” Luísa Villalta. Uma meningite fulminante – que ela tomara como uma simples gripe –, ceifou-a, bem cedo, aos 46 anos. Uma vida pujante, criadora, comprometida é interrompida de uma forma absurda e incompreensível. Nascida na Corunha, Luísa Villalta é conhecida como uma das grandes defensoras e promotoras da língua galega em Espanha: foi escritora, filóloga e violinista, tendo escrito narrativa, ficção, ensaio, poesia; foi ainda colunista em jornais e, simultaneamente, uma grande tradutora. Foi professora do ensino secundário, iniciando os seus alunos na língua e cultura galegas. Ao longo de 20 anos foi casada com Paulino Pereira, pianista. Mulher de uma imensa criatividade, “completa”, tocando “sete instrumentos”, é difícil falar em todas as dimensões da sua vida.
Foi na visita a um museu em Santiago de Compostela que descobri uma exposição temporária de homenagem a Luísa Villalta. Seduziu-me constatar a multiplicidade dos seus empenhamentos. Habituada a viajar pela obra de Rosalía de Castro, descobrir Luísa Villalta foi altamente estimulante porque foi uma surpresa. Tentarei viajar pelo seu fascinante percurso, bordando as diferentes secções deste texto com fragmentos de poemas de Luísa:
Basta esta musica interior sentida
no mundo em que se investe o movimento,
danza orixe do ser, convencimento
de viver sem saber o que é a vida
(Música Reservada, 1987)
Porque o son é o momento único da vida,
que brota para o ar, e do ar ao eterno,
o saber é recordar, e recoddar é tempo
transgredido do seu único sentido
(Música Reservada, 1987)
Luísa – música, instrumentista, intérprete

Luísa Villalta. Silencio me chaman. Fotografia de vídeo da Deputación Provincial A Coruña
Luísa foi desde criança iniciada na música. Filha de pais melómanos que desde cedo se preocuparam com a educação musical das suas duas filhas, cedo Luísa aprendeu a difícil arte de tocar violino. A música perpassa toda a sua obra, nomeadamente a poética. Começou a sua formação no Conservatório Superior de Música da Corunha e, depois, no de Ourense. Tocou em duas orquestras: Xove Orquestra de Galicia (Corunha) e de Santiago de Compostela, em diversos grupos de câmara, intervindo em saraus e tertúlias em toda a Galiza. Era também uma exímia cantora. Segundo vários autores, a sua poesia nasce da sua experiência musical, dada a sua atenção à harmonia e cuidado com os sons. Passada a sua juventude, Luísa dedicou-se sobretudo às artes das letras, mas o violino manteve-se em pano de fundo. Luísa nunca deixou de tocar, mas fazia-o mais em privado.
Um pásaro voando cara ao lume,
tan só que canta a só a sua elexia
de sombra e violoncelo, a voz afia
no grito vexetal que rompe o fume.
(Luísa Villalta, Ruídos)
Luísa – escritora, autora teatral, ensaísta, linguista e filóloga

Luísa Villalta em Portugal Foto © Arquivo familiar / CIRP
Ficamos perplexos/as com uma dimensão tão ampla e polivalente da sua atividade literária. Desenvolveu uma intensa intervenção cultural em seminários, recitais de poesia e palestras, entre outros. O seus artigos publicados entre 2002 e 2004 no conhecido jornal Nosa Terra deram origem ao Libro das Colunas (2005) que posteriormente foi premiado com o XII Prémio Maior de Poesia.
Escreveu peças de teatro – algumas foram à cena. Segundo alguns autores, o teatro de Villalta caracteriza-se “entre outros traços, pela funda pegada na música”, “com uma temática existencial e de grande profundidade” (Manuel Lourenzo). A sua obra dramática está reunida no volume Sinfonia de Escenas. Luísa afirma que “todo o acontecimento teatral se repercute ética, estética e politicamente na sociedade. Quanto à narrativa Luísa escreveu vários romances; entre outros: Teoría de Xogos, As Afinidades Electivas, Silencio: Ensaiamos. Traduziu, por exemplo o Manifesto por un novo teatro, de Pier Paolo Pasolini (1994) publicado em Cadernos da Escola Dramática Galega, nº 105.
Dotada de um humor inquisitivo Luísa era radical porque tinha uma grande capacidade de análise e fazia constantemente a sua auto-avaliação. “Gostava da provocação intelectual”, afirmava um amigo.
Foi uma militante da língua e cultura galegas criticando a subserviência de muitos à língua dominante, a castelhana:
(…) a ira de non servir
A ira de ser non ser
A ira de ser por fin
A ira de pronunciar
a terra coa boca chea de terra
A ira de ser GALIZA a ira de non deixar
A ira da ira
Luísa amava Portugal e muitas vezes se deslocou ao nosso país quer para férias quer para tertúlias. Mas Portugal ignorou-a: apenas um dos seus livros está traduzido. No entanto contribuiu amplamente para o conhecido “Poemário” publicado pela Assírio e Alvim em 2013.
Villalta foi um grande suporte e estímulo para as mulheres mais novas (geração de 80). Nunca experimentou qualquer competição com a “novíssima” geração de escritoras, antes estimulou, incentivou, ajudando com o seu exigente olhar crítico: “empatia, cumplicidade e horizontalidade” (Dopico, 2024, p.138). Segundo Dopico, “o que escreve é como um debate entre a música, a filosofia e a poesia” (2024, p.139).
Luísa – militante política e cultural, militante da causa das mulheres
Eu nunca souben quen dos dous botou a chave
Qui pechou tras de min a porta do mundo
E me obrigou a saír
Sem encontrar a saída
(Luísa Villalta, Papagaio)
Muito cedo Luísa afirmou: “Se não te revoltas contra um caminho pré-fixado, se não te rebelas contra essa predeterminação, que é social, familiar, política, não podes ser dona da tua vida”.
Assim a arte era para Luísa Villalta o seu projeto de “compreensão” e “intervenção” no mundo. Dela emergiam os seus compromissos sociais, cívicos e políticos. Entendia a prática cultural como inerente ao ativismo social e político, era uma intelectual comprometida. Autodenominando-se nacionalista – nacionalismo de esquerda – , Luísa esteve sempre presente às grandes causas galegas: a luta pela autonomia em contraponto ao centralismo (ainda no tempo de Franco) a militância na causa do Prestige, que destruiu uma grande parte do ecossistema da costa galega, a defesa da causa palestiniana, a criação de um movimento de apoio aos habitantes do bairro “O Papagaio”, um bairro pobre habitado maioritariamente por prostitutas, seus chulos e crianças, que a autarquia pretendia arrasar para construir um condomínio privado. Escreveu um livro muito duro, “numa alegação feminista tão radical como humana… um livro que só poderia ser escrito por uma mulher” (Dopico, p.143).
Delicioso é, perder perdendo,
despoxar-se do real
que non compreende a sua verdade
vitalmente irreal, desabitar-se
(Luisa Villalta Musica reservada, 1987)
Para Luísa, “cultura é qualidade e forma de vida”.
Foi ainda militante da causa das mulheres, denunciando a sua invisibilidade enquanto escritoras, afirmando que os homens não mostravam qualquer interesse em conhecer a escrita das mulheres. Afirmava que “sem feminismo não há salvação”: “pergunto-me outra vez, a cada um que passa, se de verdade sou uma mulher, o que é isso”. No entanto, demarcou-se de um feminismo radical – “mulleres sí, pero” – que afastava a presença dos homens na vida das mulheres: ”todos os que se cruzam comigo não [me] acertam. Sem dúvida aquilo que sou. Uma mulher, é ao cabo o que sei de mim no espelho em que me levas” (in Ruído). Critica “uma feminidade que se afoga no seu próprio cordão umbilical”. Era a favor da inclusão dos homens na luta feminista. Trabalhou em ambientes marcadamente masculinos, afirmando-se desassombradamente enquanto mulher. Diz: “Mas o triunfo verdadeiro é mirar o céu e ver a imensidade do espaço que as mulheres têm para voar. Chame-se a isso pós-feminismo ou o que quiserem – um feminismo libertador de homens e mulheres”.
Luísa – poeta, contemplativa e inquieta

Pormenor da capa do livro Ruídos, Editado pela Espiral Maior.
Cando todo falla,
o que mais e mellor resiste
é a poesia
(Villalta, 2004)
“Por suposto, nalgures permanecen os temas. Pero os temas son o máis impersoal do traballo poético. Os temas son moi poucos. A vida e a morte. Talvez só a vida (ou só a morte). Sexan os que foren, nas súas infinitas variacións poden encontrarse (…) na información diaria que nos fai deglutir a realidade, en cada ocasión en que se ten a certeza de estar vivendo.”
(Luísa Villalta, Sobre un certo estado de conciencia)
Luísa quer que “a poesia afete quem a leia”.
Partindo de um formato mais tradicional (começou por escrever sonetos), Luísa ampliou-se e corajosamente ousou escrever haikus, poesia em que se foi libertando da rima, invocando temas simultaneamente íntimos e socialmente relevantes.
Afirmava que “música e palavra surgiam juntas, nos rituais e liturgias” (in Musica Reservada).
Os seus amigos reconheciam que ela era uma mulher “bela” por dentro e por fora. O seu lado mais contemplativo e espiritualmente inquieto foi emergindo. Era uma desassossegada. Dopico (2024) refere “o amor na sua dimensão erótica e também no transcendente, o passar do tempo, a morte, a reflexão metaliterária” (p. 141), Admiradora de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Craveirinha, Herberto Hélder, Daniel Filipe, Luísa sentia-se bem próxima da poesia portuguesa. Mas também da cultura.
Quando lhe perguntaram um dia como se preparava para fazer o Caminho de Santiago, Luísa responde: “ponho as sapatilhas e danço”.
Em 2023 é republicada a sua obra poética: Pensar é Escuro: Poesia Reunida (1991-2004).
Sen embargo sei que digo rosa
e nada florece baixo o nome
como tampoco se pronúncian
as Chagas dos teus dedos
(Luísa Villalta, Ruídos)
Ser só ser, ser corpo
unidade simple e infinita
que limita a densidade do vacio,
Sentir só a vida
que fusiona o siléncio co siléncio
dando así o seu pulso ao infinito.
(Luísa Villalta, O Oco da Palabra)
Em 2024, vinte anos depois da sua morte, o Dia das Letras Galegas é-lhe dedicado. Finalmente um justo reconhecimento.
Numa das homenagens póstumas a Luísa Villalta, um seu amigo, conhecedor do seu percurso de vida e da sua obra e, simultaneamente, responsável pela compilação de alguma da sua poesia, profere estas palavras:
Celebrámos-te desde ti, desde o teu pensar, lúcida e comprometida, sempre na construción dun pobo, dese pobo que foxe de si mesmo, dunha literatura, dunha lingua, no foro da cultura. Ti, na liberdade, da contra-ética do poder (Armando Requeixo).
Luísa, este escrito é uma pequena homenagem de alguém que te conhece tardiamente:
Levas-me. Para onde?
Para o alto.
[1] Optei por não tentar traduzir a poesia de Luísa Villalta para português. Os seus poemas são facilmente compreensíveis e traduzir um poema é sempre uma ousadia.
Referências bibliográficas
. Dia das Letras Galegas 2024: Escribir para quen: Relecturas posibles de Luísa Villalta (2024). Universidade de Santiago de Compostela.
. Dopico, Montse (2024). Abonda con Vivir: Luisa Villalta. Edicións Xerais de Galicia.
. Requeixo, Antonio (ed.)(2023), Luísa Villalta: Pensar é Escuro. Poesia reunida (1991-2024). A Coruña: Editorial Galaxia.
. Villalta, L. (2021). O Outro lado da Música: A Poesia. A Coruña: Galaxia.
. Villalta, L.(2006). Papagaio. Amens: Edicións Leiovento.
. Villalta, L. (2004). Libro das Coluna (compilação da sua obra jornalística) Vigo: A Nosa Terra.
. Villalta, L. (1995). Ruído. A Coruña: Espiral Maior.
. Villalta, L (1991). Siléncio. Ensaiamos. A Coruña: Via Láctea.
Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e integra o movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com








