Mahakumbh Mela foi uma experiência tão intensa e espiritual que não tenho palavras que consigam descrever tudo o que senti. É uma mistura de devoção, energia, tradição e algo que só quem esteve lá pode realmente entender.
Ir ao Mahakumbh Mela para mim foi uma oportunidade única, uma chamada do deus Shiva pois penso que nem todos têm a oportunidade de vivenciar esta experiência única na vida; e eu tive esta bênção rara.
Estar cercada por milhões de devotos, santos (sadhus) e líderes espirituais cria uma atmosfera intensa de fé e conexão divina.
A imensidão do evento e a simplicidade da vida durante a peregrinação lembram os valores da humildade e desapego material.
O banho no rio foi uma experiência indescritível. Aquele momento em que se entra na água sagrada, cercada por milhões de devotos, sentindo a energia do lugar… Foi algo que vai além do físico, algo profundamente espiritual. Enquanto mergulhava, senti uma paz, uma renovação, uma conexão mais forte com o divino.
O contacto com a devoção intensa de milhões de pessoas traz uma calma profunda, gratidão pela vida e pelas pequenas bênçãos diárias que muitas vezes negligenciamos. Estar cercada por tanta devoção inspira humildade.
Cansaço físico, mas com um sentido de realização. A imensa multidão, a movimentação constante e a intensidade do evento foram fisicamente exaustivas. No entanto, essa fadiga vem acompanhada de um sentimento de missão cumprida e plenitude; de tal modo que ainda hoje não consigo explicar como consegui andar tanto (50 quilómetros) em dois dias. Algo que para mim era impossível.
O que significa Kumbh Mela?

Peregrinação Mahakumbh Mela Em Prayagraj, na confluência dos rios Ganges, Yamuna e do mítico Sarasvati: Kumbh refere-se ao jarro ou pote que continha o néctar da imortalidade na mitologia hindu, enquanto Mela significa feira ou reunião. Foto © Kina Deuchand
O nome Kumbh Mela significa “Festival do Jarro” em sânscrito.
Kumbh refere-se ao jarro ou pote que continha o néctar da imortalidade na mitologia hindu, enquanto Mela significa feira ou reunião.
As escrituras hindus contam a lenda do Samudra Manthan – a agitação do oceano de leite por deuses e demónios em busca do néctar da imortalidade. Segundo a mitologia, quatro gotas desse néctar caíram nos locais onde o Kumbh Mela é celebrado atualmente, tornando-os sagrados.
O Mahakumbh Mela é a maior reunião pública e ato coletivo de fé do mundo. Esta congregação inclui principalmente ascetas, santos, sadhus, sadhvis, kalpvasis e peregrinos de todas as esferas da vida.
Kumbh Mela, no hinduísmo, é uma peregrinação religiosa que é celebrada quatro vezes ao longo de 12 anos. A localização geográfica de Kumbh Mela situa-se em quatro locais na Índia e o local do Mela continua girando entre uma das quatro peregrinações em quatro rios sagrados:
- Em Haridwar, Uttarakhand, nas margens do Ganges
- Em Ujjain, Madhya Pradesh, nas margens do Shipra
- Em Nashik, Maharashtra, nas margens do Godavari
- Em Prayagraj, Uttar Pradesh, na confluência do Ganges, do Yamuna e do mítico Sarasvati invisível – onde estive, entre os dias 28 de janeiro e 5 de fevereiro.
Há diferentes tipos de Kumbh Mela, cada um com um ciclo específico:
- Kumbh Mela – acontece a cada doze anos em uma das granes cidades sagradas: Prayagraj, Haridwar, Ujjain e Nashik.
- Ardh Kumbh Mela – realizado a cada seis anos, apenas em Prayagraj e Haridwar.
- Maha Kumbh Mela – ocorre somente em Prayagraj, a cada 144 anos (12 ciclos de 12 anos), sendo o mais raro e grandioso.

Ao Mahakumbh Mela em Prayagraj, acorrem ascetas, santos, sadhus, sadhvis, kalpvasis e peregrinos de todas as esferas da vida. Foto © Kina Deuchand
Maha Kumbh Mela acontece uma vez na vida de poucas gerações, tornando-o ainda mais especial e sagrado. Antes tinha sido em 1869, agora em 2025 e o próximo será em 2157.
Para perceber porque o próximo será em 2157, e não exatamente daqui a 144 anos, temos de perceber que o calendário hindu não segue a o calendário gregoriano.
O calendário hindu, ou Vikram Samvat é usado nas regiões do norte e oeste da Índia e em outros países do subcontinente indiano, é um calendário com base lunar. Um ano lunar é de apenas 354 dias, cerca de 11 dias a menos do que um ano solar.
Para fazer a diferença, a cada terceiro ano, um mês extra é acrescentado. Este mês é conhecido como Adhik sendo observado como um mês mais auspicioso do ano.
Esse calendário, em particular, é usado para acompanhar os dias auspiciosos com base na religião hindu.
A celebração de cada local é baseada em um conjunto distinto de posições astrológicas do Sol, da Lua e de Júpiter. As celebrações ocorrem no momento exato em que essas posições são totalmente ocupadas, pois é considerado o momento mais sagrado do hinduísmo.
Por que vão as pessoas ao Kumbh Mela?

Kina Deuchand na peregrinação Mahakumbh Mela em Prayagraj: intenso e espiritual. Foto © Kina Deuchand
O Kumbh Mela atrai pessoas de todas as esferas da vida, desde sadhus (homens sagrados hindus) até cidadãos comuns, incluindo famílias e visitantes internacionais.
Kumbh Mela é um evento que junta a ciência da astronomia, astrologia, espiritualidade, tradições ritualísticas, costumes e práticas socioculturais tornando-o extremamente rico em conhecimento.
Embora a maioria dos participantes seja hindu, o evento também atrai o interesse de pessoas de outras religiões, curiosas sobre o seu significado cultural e espiritual.
O festival é, em última análise, uma oportunidade para os participantes buscarem renovação espiritual e salvação.
Acredita-se que banhar-se nos rios sagrados durante o festival absolve os pecados, liberta os participantes do ciclo de renascimento e os aproxima do moksha (libertação espiritual).
Para muitos, a peregrinação ao Kumbh Mela é uma experiência única na vida, que oferece uma chance de reafirmar a sua fé, conectar-se com outras pessoas e mergulhar nas tradições da espiritualidade hindu.
O festival é uma mistura de rituais religiosos e atividades culturais. A sua característica central são os shahi snan (banhos reais). Esses banhos cerimoniais são liderados por grupos de sadhus, incluindo naga sadhus, que são conhecidos por se cobrirem de cinzas e simbolizarem a renúncia.
Além dos rituais de banho, o Kumbh Mela também oferece discussões espirituais, procissões religiosas, orações e apresentações culturais. Organizações religiosas montaram vários acampamentos temporários, fornecendo comida, abrigo e oportunidades de aprendizagem espiritual.
(Foto de destaque: Peregrinação Mahakumbh Mela Em Prayagraj, Uttar Pradesh, na confluência dos rios Ganges, Yamuna e do mítico Sarasvati. Foto © Kina Deuchand)
Kina Deuchand é presidente da ACJA (Associação Cultural Jay Ambe) e empresária, e integra a Comunidade Hindu de Portugal.










