Mais do que visitas oficiais. Os encontros do católico Marcelo com o Papa

| 12 Mar 21

Crónica

Marcelo Rebelo de Sousa Papa Francisco Foro Presidencia da Republica

Marcelo ajoelhado diante do túmulo de João Paulo II, na Basílica de São Pedro. Foto © Presidência da República.

 

Há uma multidão que mergulha na imensa nave da Basílica de São Pedro, no Vaticano, mas só o facto de os seguranças irem abrindo caminho para a passagem de Marcelo Rebelo de Sousa torna notada a presença do Presidente da República. Estamos em 2016, como denuncia a descrição de tantos turistas e fiéis presentes no interior da igreja, longe deste segundo ano da pandemia.

Marcelo dá os primeiros passos na Presidência da República e naquele dia 17 de março avança pela basílica, acompanhado pelo então chefe de protocolo da Santa Sé, monsenhor José Bettencourt, para admirar a Pietà de Miguel Ângelo para lá do vidro que protege a obra das multidões. Por instantes, recolhe-se junto do túmulo de João Paulo II, numa das capelas laterais da basílica – benze-se e ajoelha-se.

Marcelo Rebelo de Sousa deixara para trás o encontro com o Papa Francisco e a reunião com o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin. Aí, a dimensão oficial e política da viagem à Santa Sé é justificada, uma vez mais, por reafirmar, “volvidos mais de oito séculos”, “um relacionamento entre a Santa Sé e Portugal”.

Mas há uma dimensão pessoal e afetiva, que se reconhece nas palavras do católico Marcelo. Há cinco anos, o Presidente fez questão de oferecer ao Papa (a quem se refere quase sempre como Santo Padre ou Sua Santidade) um registo de Santo António, da sua coleção privada. Foi “um presente pessoal, meu, afetivo, expliquei isso primeiro ao Santo Padre”, relata depois aos jornalistas. “Eu tenho uma coleção de registos, faço-a há muitos anos, escolhi talvez um dos mais bonitos, alusivo a Santo António de Lisboa, para oferecer ao Santo Padre, para ser um presente pessoal, personalizado, e que ele entendesse o seu significado.” Para além de ter levado seis paramentos desenhados por Siza Vieira, de cores diferentes para os vários tempos litúrgicos.

Marcelo reconhece ainda que “ficou muito patente o modo como o Papa acompanha o que se passa em Portugal”. Mas será o Vaticano a revelar, no seu portal, o quanto Francisco acompanha a atualidade portuguesa. Segundo os seus serviços informativos, “durante a visita, a primeira no estrangeiro do Presidente Marcelo depois da inauguração do seu mandato, foi expressa grande satisfação pelas boas relações existentes entre a Santa Sé e Portugal, bem como pela contribuição da Igreja na vida do país, com especial referência para o debate na sociedade sobre a dignidade da vida humana e da família”. Está lá dito, sem estar escrito: o debate que, em 2016, se fazia era o da eutanásia (como agora, com a lei aprovada no Parlamento, que foi enviada para o Tribunal Constitucional por Marcelo) e o da procriação medicamente assistida.

Com o Papa fala em espanhol, e depois em inglês com o cardeal italiano, que exerce uma função que equivale a um primeiro-ministro, como explica o próprio Marcelo, num registo de professor que sempre se lhe entranha.

 

A “escolha espetacular”
Marcelo Rebelo de Sousa Papa Francisco Foro Presidencia da Republica

Marcelo a oferecer um registo de Santo António ao Papa, escolhido da sua coleção particular. Foto © Presidência da República.

 

Sobre o encontro com o bispo de Roma, com quem voltaria a encontrar-se em 2017, em Fátima, e em 2019, no Panamá, o Presidente sublinha que “o Papa Francisco referiu-se a Portugal e aos portugueses com muito apreço”. Segundo Marcelo, o Papa tem recordações “de infância” de gentes portuguesas: em Buenos Aires, “lidou de muito perto com portugueses”, numa área porteña onde havia muitos portugueses emigrados na Argentina, e foi aí que o jovem Jorge Maria Bergoglio aprendeu a ver nestes emigrantes “um povo trabalhador, humilde, sério, fraternal e solidário”. Francisco falou de Portugal “de um modo quase carinhoso”.

Marcelo Rebelo de Sousa pôde verificar se o Papa Francisco era, de facto, a “escolha espetacular” com que, no seu espaço de comentador na televisão, em 2013, tinha saudado Jorge Maria Bergoglio, o arcebispo que veio de Buenos Aires para Roma. Marcelo explicava a viagem, como agora explicou, como um “reconhecimento perante a entidade que foi a primeira a reconhecer Portugal como estado independente”.

Com esta nota, o católico Rebelo de Sousa juntava o útil da explicação histórica ao agradável da sua fé, naquela que fica para a história de Belém como a sua primeira deslocação oficial, um sinal que deu logo no discurso inaugural do seu primeiro mandato, quando da tomada de posse, em 9 de março de 2016. “Escreveu um herói português do século XIX que ‘este Reino é obra de soldados’. Assim foi, na verdade, desde a fundação de Portugal, atestada em Zamora e reconhecida urbi et orbi pela bula Manifestis probatum est”, leu Marcelo Rebelo de Sousa na tribuna da Assembleia da República, referindo-se ao reconhecimento da independência de Portugal e do título de rei a Afonso Henriques pelo Papa Alexandre III, em 1179.

O anfitrião de 2016 e de agora é alguém em que Marcelo depositou muitas esperanças logo a abrir, na altura da eleição de Bergoglio como bispo de Roma, a 13 de março de 2013. “Temos Papa. E, para mim, é uma escolha espetacular”, exultou no dia seguinte o professor universitário, chamado a comentar a escolha do colégio cardinalício. Para completar: “Aceitaria qualquer escolha, como católico, mas esta é, praticamente, a escolha ideal. Faz-me lembrar os tempos do Concílio Vaticano II, [com] um toque de João XXIII, há alguma coisa da serenidade de Paulo VI, a Igreja serva e pobre, a colegialidade”, descreveu então.

O chefe do Estado português olhava então para o chefe do Estado do Vaticano entre o espanto e o elogio. “Fala como bispo de Roma e não se impõe como papa, de forma chocante ou despropositada”, dizia. “Os sinais da sua vida e os sinais daquilo que defendeu e das primeiras palavras são todos espetaculares”, insistia. Na cabeça de todos, estava fresca a imagem de um homem que surgiu na janela de São Pedro vestido de branco e despojado das vestes triunfais e ricas que os papas usavam quando assomavam à multidão no dia do fumo branco.

Marcelo antecipava um pontificado em que o arcebispo que veio “quase do fim do mundo” para ser bispo de Roma iria tentar “pôr a Cúria Romana um pouco mais na ordem, acentuar o lado pobre, de serviço e humildade da Igreja, acentuar a colegialidade, ter um acento tónico nos problemas do desenvolvimento e da pobreza no chamado terceiro mundo e, em geral, no mundo”. Rebelo de Sousa sintetizava: “Tudo boas notícias!” E completava: “Há um mundo que fica para além da Europa e que tem um papel cada vez mais importante. Ser pela primeira vez um papa do novo mundo é realmente uma coisa importante.”

 

O Papa como exemplo
Marcelo Rebelo de Sousa Papa Francisco Foro Presidencia da Republica

Marcelo nos corredores do Palácio Apostólico do Vaticano: a 17 de março de 2016, o Presidente dava ainda os primeiros passos no cargo e tinha o primeiro encontro oficial foi com o Papa. Foto © Presidência da República.

 

Três anos depois do início do pontificado de Francisco, Marcelo revia-se, ia-se revendo, naquilo que chegava de Roma. Na sua primeira noite eleitoral de vitória, a 24 de janeiro de 2016, na sua Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, o Presidente da República prometia que em Belém também iria dar uma atenção preferencial (uma palavra bebida na doutrina social da Igreja) aos mais carenciados, “os que vivem nas periferias da sociedade, de que fala o Papa Francisco”.

Esta opção preferencial pelos pobres voltou a ter tradução no discurso de Marcelo, na tomada de posse de 2016, quando se referiu à necessidade de responder ao respeito da dignidade humana, inscrito na Constituição, “de pessoas de carne e osso”. Estas pessoas “têm direito a serem livres, mas têm igual direito a uma sociedade em que não haja, de modo dramaticamente persistente, dois milhões de pobres, mais de meio milhão em risco de pobreza, e, ainda, chocantes diferenças entre grupos, regiões e classes sociais”.

Como assinalou ainda em 2016 o próprio Rebelo de Sousa, numa mensagem enviada ao Papa, para o felicitar pelo terceiro ano do seu pontificado, a sua eleição “representou um marco para a Igreja e para o mundo, assinalando a escolha do primeiro pontífice não europeu em muitos séculos de história”. E três anos passados, o elogio renova-se: “Pela palavra e pelo exemplo, ao longo dos últimos três anos tem Sua Santidade levado a todos os continentes a mensagem cristã e os princípios éticos que a fundamentam, assentes na dignidade da pessoa humana, na justiça social e no respeito pelos nossos semelhantes, crentes e não crentes.”

Em novembro de 2015, Marcelo disse de Deus que é a “razão de ser da vida”, concretizado “através dos outros”, “um imperativo” que vem da sua condição de crente. A sua primeira viagem oficial em 2016 não era por isso apenas uma viagem oficial – e mesmo que o Presidente justifique com a História a razão de ser da visita, percebe-se que há outra razão mais funda. Tal e qual como agora, em 2021.

Crónica escrita a partir de dois textos publicados em 2016, enquanto enviado do Diário de Notícias ao Vaticano acompanhando a visita do Presidente da República.

 

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