De forma surpreendente, O Século Desportivo (suplemento de O Século), de 30 de setembro de 1968, dava lugar ao início da publicação de um texto de opinião intitulado “Apologia da matéria”. Nele se visitavam as fontes religiosas e pedagógicas daquilo que o autor apelidava de desprezo espiritualista pelo corpo. Mas, por outro lado, criticava-se também a emergência de uma conceção mecanicista do corpo humano, presente nos dispositivos modernos sobre a “educação física”. O autor encontrava numa perspetiva cristã sobre o corpo, enquanto unidade psicossomática e espiritual indissolúvel, o impulso para uma crítica desse reducionismo moderno. A este propósito, provavelmente pela primeira vez, num periódico desportivo, escrevia-se sobre Teilhard de Chardin, descobrindo na sua obra uma via para a superação do fisicismo que habitava as formas de pensar as práticas corporais. Assim, relendo Teilhard de Chardin, interpretava-se a exercitação desportiva como uma via de antropogénese, figura dessa abertura da condição humana à sua plena realização.
A crónica era assinada por Manuel Sérgio que, já nessa década, iniciava a construção de uma nova ciência das atividades corporais, com uma particular incidência no desporto. Estava em construção a proposta de um paradigma de compreensão da condição humana enquanto motricidade – ou seja, movimento intencional e solidário de transcendência. Em 1986, a sua dissertação de doutoramento apresentou os fundamentos dessa nova ciência da motricidade humana. Visando a superação das formas de dualismo racionalista, o pensamento de Manuel Sérgio procurou tornar evidente que a prática desportiva e a educação motora dizem respeito à complexidade humana – biopsíquica, social e espiritual. Manuel Sérgio foi, no universo intelectual português, o primeiro a pensar o Desporto à luz das grandes aquisições do pensamento epistemológico do século XX, contando, entre outros, com os contributos de Bachelard, Althusser, Piaget, Foucault, Popper, Kuhn, Feyeraband ou Prigogine.
A nota de movimento para a transcendência conheceu uma continuada reelaboração no curso do seu pensamento, declinando-se em diversas dimensões: a transcendência de si; a transcendência do(s) outro(s); a transcendência enquanto fenda aberta à interrogação espiritual. No prefácio de uma das obras publicadas na Coleção “Cátedra Manuel Sérgio – Desporto, Ética e Transcendência” (UCP Editora), o cardeal D. José Tolentino de Mendonça reconhecia esse “extraordinário humanista que é Manuel Sérgio, que tanto tem ajudado a pensar o desporto não apenas como técnica, mas integrado numa visão humana integral”. Esta renovação de um olhar humanista sobre o desporto dá atenção à historicidade do corpo humano, às relações entre agentes e coletividades, aos trânsitos entre o biológico, o tecnológico, o psíquico e o espiritual. Nesta perspetiva, ganhar ou perder, alcançar uma marca, ou ultrapassar uma meta, é algo mais do que a “mecânica” do treino, é ir para além da tração do visível.
Que a notícia do falecimento de Manuel Sérgio, no dia 19 de fevereiro de 2025, para além da consternação, encoraje a visitação do seu legado.
Alfredo Teixeira é coordenador da Cátedra Manuel Sérgio – Desporto, Ética e Transcendência, do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (Universidade Católica Portuguesa).
(Imagem de destaque: Manuel Sérgio. Foto reproduzida a partir do sítio da Universidade Católica Portuguesa)










