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D. Joaquim Ferreira Lopes, bispo emérito de Viana (Angola), padre Manuel Vilas Boas, o pároco de Góios padre Álvaro da Costa e Silva, e padre Anselmo Borges, na celebração eucarística . Foto DR

50 anos de ordenação e missa Nova

Manuel Vilas Boas, padre e jornalista, evangelizador pela palavra, celebrou jubileu sacerdotal

D. Joaquim Ferreira Lopes, bispo emérito de Viana (Angola), padre Manuel Vilas Boas, o pároco de Góios padre Álvaro da Costa e Silva, e padre Anselmo Borges, na celebração eucarística . Foto DR

Da esq.: Joaquim Ferreira Lopes, bispo emérito de Viana (Angola), Manuel Vilas Boas, Álvaro da Costa e Silva, pároco de Góios, e padre Anselmo Borges, da Sociedade Missionária, na celebração eucarística que assinalou o jubileu da ordenação. Foto: Direitos reservados

O padre Manuel Amândio Vilas Boas, da Sociedade Missionária da Boa Nova, apóstolo da palavra pelo uso que dela tem feito ao longo da vida, também como jornalista, celebrou no domingo, 15, o jubileu da ordenação sacerdotal e missa nova.

Há cinquenta anos, após estágio de formação pastoral na Diocese de Nampula, Moçambique, depois de ter concluído estudos teológicos, foi ordenado presbítero por Manuel Vieira Pinto, então bispo de Nampula, na igreja do Seminário da Boa Nova, em Valadares, a 15 de agosto de 1974.

Viviam-se, então, em Portugal exaltantes tempos de alegria e esperança bafejados pelos acontecimentos de 25 de Abril de 1974.

Sonhos e expetativas antecipados pelo então jovem seminarista e por ele vividos, intensamente, dois anos antes, no contacto direto com populações nativas de Nampula, sob o impulso do Concílio Vaticano II e o magistério da doutrina social católica. Ensinamentos que, nessa altura, interpelaram muito alguns missionários religiosos, em favor dos valores da paz, defesa e respeito da dignidade dos moçambicanos, no reconhecimento ao inalienável direito a decidirem o futuro em liberdade, a urgência de terminar a guerra colonial. Esses movimentos os seguia, apaixonadamente, o aspirante ao sacerdócio com ânimo e confiança, até por pressentir que o próprio bispo a todos acompanhava nesse grande desassossego de estarem ao lado e dispostos a servir o povo de Moçambique.

Manuel Vilas Boas, Guerra Colonial, 25 de Abril, Estado Novo, Jornalismo, Moçambique,

O jornalista e padre Manuel Vilas Boas no programa 7Margens que debateu a presença da Igreja Católica em Moçambique e na Guerra Colonial, em 25 Janeiro 2024. Foto © António Marujo/7MARGENS

A 15 de setembro de 1974, precisamente, um mês depois de ter sido ordenado padre, Manuel Vilas Boas cantava missa nova na igreja paroquial de Santa Maria de Goios, Barcelos, sob a invocação de Nossa Senhora da Expectação ou do Ó, em júbilo, entre a comunidade que o vira nascer, e com a presença de pais, irmãos, outros familiares e muitos amigos.

Cumpria-se, então, o ciclo inicial da sua vida. Nascido na freguesia de Pedra Furada, Barcelos, a 8 de dezembro de 1948, cedo saiu de casa dos pais, em Góios, para frequentar os seminários da Sociedade Missionária da Boa Nova em Tomar, Cernache do Bonjardim,  Cucujães e Valadares, e, em 1972, concluir o curso de Teologia, no Instituto Superior de Estudos Eclesiásticos do Porto. Seguiu-se a missão em Moçambique e o regresso a Valadares para a ordenação.

Entretanto, no alvoroço da Revolução de Abril, o jovem padre Manuel sentiu necessidade de estudar comunicação social, presumindo que tal lhe seria de grande utilidade para contacto com homens e mulheres, comunidades, e outros desafios que futuros caminhos pastorais lhe pudessem deparar. Isso o intuíram, também, superiores da Sociedade Missionária da Boa Nova que o mandaram estudar para a Universidade Católica de Lyon, França, onde se especializou em Comunicação Audiovisual, e, depois, em Jornalismo, na Escola Superior de Meios de Comunicação Social em Lisboa.

A seguir, esteve presente em iniciativas pioneiras da informação religiosa em Portugal, na rádio e televisão. Foi cofundador do programa 70X7, da RTP (1979), tendo realizado, durante 13 anos, mais de quatrocentas emissões de televisão. Fundador e realizador do Centro de Produção Audiovisual e da Cooperativa Logomedia (embrião daquilo que se tornaria e é atualmente a Agência Ecclesia), além de ter sido, ainda, responsável pela programação católica da RTP2, tornando-se autor de diaporamas e videogramas, para as áreas da catequese, do ensino e da cultura, designadamente, para a 17.ª Exposição de Arte, Ciência e Cultura, ocorrida, em 1983, na cidade de Lisboa.

Pelo caminho, dirigiu cursos de Comunicação Audiovisual, por todo o país, em diversas dioceses, institutos e universidades. Mais além, surgiram décadas de trabalho, na redação do semanário O Jornal, desde 1977 (que depois evoluiria para se tornar a revista Visão) ou, mais tarde, nos quadros da rádio TSF, logo a partir da legalização, em 1988, também como comentador de assuntos religiosos na Radio Difusão Portuguesa. Em todos esses ambientes, a presença discreta do padre e jornalista revelou-se sinal de serviço dedicado à defesa e promoção da dignidade da pessoa humana, assumindo ela própria o rosto da notícia, quer fosse de religião, sociedade ou de política se tratasse.

Manuel Vilas Boas, jornalista da TSF. Foto: Direitos reservados

Manuel Vilas Boas em reportagem para a TSF. Foto: Direitos reservados

Atualmente, prossegue na TSF com a 16.ª série do programa Encontros com o Património, da Direção-Geral do Património Cultural, galardoado, em 2010, com o Prémio de Melhor Programa de Rádio, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores. Recebeu, ainda, o Prémio Europa Nostra, um dos galardões de maior relevância mundial, para programas sobre o património, que lhe foi entregue pelo Presidente da República da Áustria, em maio de 2014.

Entre 2004 e 2006, deixou a sua marca no seio da classe dos jornalistas, tendo sido presidente do Conselho Deontológico do Sindicato Nacional dos Jornalistas.

Com 75 anos, continua a comentar a atualidade religiosa nacional e internacional na RTP, SIC, TVI, CNN e TSF.

Em novembro de 1993, publicou Fátima – Os Lugares da Profecia, no Círculo de Leitores. É, ainda, coautor, com Amadeu Gomes de Araújo, do livro Moçambique: da Colonização à Guerra Colonial – A Intervenção da Igreja Católica, editado em novembro de 2023 [ver 7MARGENS].

 

Acima de tudo – o Amor

Neste domingo, 15 de setembro, juntaram-se as gentes de Góios e de Pedra Furada, Barcelos, na Igreja de Santa Maria, para acompanharam Manuel Vilas Boas e com ele celebrarem o jubileu da missa nova.

Estava linda a igreja debruada em seus altares de barroco neoclássico do século XVII, que a piedade popular se encarregou de restaurar e manter o brilho aurífico. A talha polícroma contrastava com trajes festivos em rostos felizes e almas jubilosas.

Presidiu à celebração eucarística, D. Joaquim Ferreira Lopes, foi bispo de Dundo e é emérito de Viana (Angola), da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, a convite do padre festejado, seu amigo e conterrâneo e, ainda, pelo facto de pertencer à ordem dos padres Capuchinhos e, nessa qualidade, poder representar a memória do padre José Joaquim Lopes da Silva Morgado (1938-2024), que Manuel Vilas Boas quis associar ao seu jubileu e, assim, prestar homenagem ao amigo recentemente falecido, que conhecera há 47 anos e com quem dera os primeiros passos nas lides da informação.

Em diferentes momentos da concelebração eucarística – em que participaram também o pároco local, Álvaro da Costa e Silva, e Anselmo Borges, amigo do homenageado e, também, como ele, membro da Sociedade Missionária da Boa Nova, especialmente convidado para proferir a homilia – Manuel Vilas Boas fez questão de ler três poemas do padre Lopes Morgado.

À homília, Anselmo Borges apresentou Deus como Alguém que é pai e, ao mesmo tempo, também é mãe! Que ama incondicionalmente toda a humanidade. Cada mulher e cada homem. Na pessoa de cada um e cada uma. Que respeita a liberdade individual. Que quer e deseja a realização pessoal de todos e de cada um. Livres e felizes no amor. Porque, salientou, acima de tudo está o Amor.

Ao referir-se a Deus, neste termos, Anselmo Borges considerou ser esta a grande novidade apresentada a toda a humanidade, a grande notícia que, afinal, desassossegou o Manuel e, por isso, quis ser padre.

Sobre o trajeto de Manuel Vilas Boas, pronunciou-se Anselmo Borges ao evidenciar a fidelidade do homenageado, precisamente, à verdade e à justiça, à caridade em favor dos mais fracos e desfavorecidos, inclusivamente, à denúncia e critica por causa de infidelidades da própria Igreja.

Isso mesmo, disse Anselmo Borges, lhe tem valido incompreensões, solidão, sofrimento. Porém, observou, quando assim procede, o padre Manuel segue o exemplo Jesus, pois também Ele criticou instituições e sacerdotes do Seu tempo!

Segundo filho de dez irmãos, Manuel Vilas Boas teve a alegria de reunir, à volta do altar, oito irmãos vivos, com cônjuges, respetivos filhos e netos, no jubileu do cinquentenário da sua missa nova, para com eles, e muitos amigos, celebrar a alegria do Amor.

Sob o lema do Livro de Eclesiastes:

Há tempo para cada coisa debaixo do céu.
Há tempo para nascer e tempo para morrer.
Há tempo para calar e tempo para falar.
Há tempo para amar e tempo para odiar.
Tempo para a guerra e tempo para a paz.

Como se disse, na festa de homenagem, o padre Manuel Vilas Boas não foi pároco, no sentido de lhe ter sido atribuída uma paróquia física. A tarefa que os superiores lhe pediram foi outra, a de evangelizar a cidade dos homens e mulheres do seu tempo, sem proselitismo, simplesmente, com o exemplo da palavra. Eis o que resume a história da sua vida.

 

José António Santos é jornalista.

 

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