
Maria Novak. Foto: Direitos reservados.
Maria Nowak, a mulher que lançou o microcrédito na Europa, morreu às primeiras horas do dia 22 de dezembro, em Paris. Tinha 87 anos. Em 1989, com mais dois voluntários, fundou a Association pour le droit à l’initiative économique (Adie) que todos os anos permite a mais de 25.000 pessoas excluídas do crédito bancário criarem o seu próprio negócio. Em 1998 esteve em Lisboa para ajudar a criar a Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC), organização que introduziu o microcrédito em Portugal. Havia de voltar a Portugal várias vezes para seminários, encontros e reuniões internacionais ligadas ao microcrédito. Era uma mulher de um vigor extraordinário. A sua capacidade de definir objetivos de ação simples e claros só tinha paralelo na persistência com que os perseguia.
Conheci-a em Paris, na Adie, em 1987, quando ainda não sabíamos muito bem como criar uma organização de microcrédito em Portugal. Dispôs-se a ajudar-nos. Abriu-nos as portas de contactos decisivos na União Europeia e em vários países europeus. Veio a Lisboa participar no seminário “fundacional” da ANDC. Ficámos amigos para sempre.
A sua vida foi desde muito cedo marcada pela violência e pela guerra. Nasceu no ano de 1938 em Lviv – hoje cidade ucraniana, mas naquele tempo polaca. A cidade foi no início dos anos 1940 sujeita à ocupação soviética, depois ocupada pelo exército nazi. Filha de mãe judia deportada e morta pelos nazis, Nowak, conseguiu escapar e passou alguns anos num asilo para órfãos na Suíça. Chegou a França com 12 anos. Licenciou-se em ciências políticas que mais tarde a levariam à London School of Economics. Entretanto trabalhou para a Agência Francesa de Desenvolvimento e depois para o Banco Mundial.
Dizia ter-se “reconciliado com a humanidade” após ter trabalhado em África. Foi nesse continente que adquiriu uma ligação definitiva à luta contra a pobreza e a exclusão que mais tarde a levou a inspirar-se no exemplo do Grameen Bank criado no Bangladesh por Muhammad Yunus (Prémio Nobel da Paz de 2006), para adaptar o microcrédito às condições específicas da Europa. Embora com adaptações, o microcrédito “europeu” manteve o objetivo inicial: permitir que pessoas excluídas do mercado de trabalho e do sistema bancário tradicional criem o seu próprio negócio, através da concessão de microcréditos sem a exigência de garantias patrimoniais, ou outras.
“Maria foi uma mulher excecional, feita de força, coragem, solidariedade e confiança inabalável na humanidade; sem nunca facilitar nas palavras que usava, deu imenso de si para dar uma oportunidade a quem, para lhe agradecer, nada mais tinha do que palavras”, escreveu o presidente da Adie, Frédéric Lavenir, no comunicado em que a organização anunciou a morte de Maria Nowak.
Essa confiança nas pessoas mais pobres e desfavorecidas, na sua capacidade de agarrarem as oportunidades e construírem um futuro diferente daquele para o qual pareciam fadados, foi uma das marcas impressas por Maria Nowak na Associação Nacional de Direito ao Crédito que ajudei a criar e que dirigi nos primeiros anos.










