Meditar e limpar a praia para contestar um novo aeroporto

| 28 Jun 19 | Casa Comum, Destaque 2, Espiritualidades, Sociedade, Sociedade - homepage, Últimas

Protesto do Aterra contra o novo aeroporto; nesta sexta, no Samouco, o dia será de convívio, com o mesmo objectivo. Foto Aterra

 

Haverá uma limpeza da praia, música, oficinas de instrumentos musicais e de aviões de papel, conversas e meditação. Tudo para contestar a possibilidade de um novo aeroporto na Margem Sul do Tejo. Sob o lema “Menos avião, mais imaginação!”, o movimento Aterra/Stay Grounded promove esta sexta-feira, 28 de Junho, na Praia do Samouco (Alcochete) um convívio que promete durar das 9h às 22h e está previsto que conte com a participação de perto de duas centenas de pessoas.

A meditação – com dois momentos previstos, ao meio-dia e às quatro da tarde – pretende ser um momento para tomar consciência de que a questão ecológica passa também pela “consciência interior” de cada pessoa, através da qual se pode transmitir a outras pessoas.

“Trata-se de estar em sintonia, num sítio propício a esse tipo de actividades”, diz ao 7MARGENS Luís Falcão, um dos membros do Aterra e dinamizador da iniciativa. “Não é um acto religioso, mas uma actividade de introspecção e que pode incluir uma certa religiosidade, pois pode haver pessoas que se identifiquem com uma matriz religiosa e com a ideia de activismo ecológico”, acrescenta.

Ao contrário do que se passou com a manifestação do movimento Extinction Rebellion em Londres – movimento ao qual o Aterra também está ligado -, em que vários agentes e responsáveis religiosos participaram e fizeram questão de estar presentes, Luís Falcão não tem sentido, em Portugal, qualquer visibilidade dessa presença nas várias manifestações e iniciativas que tem havido relacionadas com a questão da emergência climática ou a contestação de um novo aeroporto. “Se eles estão lá, não se mostram. Talvez por não termos chegado ainda, em Portugal, à mesma escala de outros países. Mas, com todas as pessoas com quem falámos, são muito raras as que não acham boa ideia o que propomos”, diz.

O convite para a participação na iniciativa desta sexta-feira parece um anúncio para um belo sítio de férias. Ou não: “Sol a reluzir no Tejo, fim de semana à espreita, juntamo-nos na praia do Samouco! Vamos descobrir e desfrutar desta zona, confraternizar, defender o Estuário do Tejo e responder à emergência climática.”. A seguir vem o aviso: “A escassos metros do local onde o Governo e a multinacional Vinci querem construir um novo aeroporto de Lisboa, vem partilhar um dia de luta, diversão e muito amor!” E o convite: “Vem informar-te sobre os impactos do aumento da aviação, construir uma cidade para as pessoas, proteger o paraíso de biodiversidade que temos aqui tão perto e o único planeta que temos para viver: a Terra!”

 

“Não deixar de andar de avião, mas reduzir o tráfego aéreo”

Depois das viagens a baixo custo, o alto custo para o planeta, avisam os jovens. Foto Aterra

 

A limpeza da praia do Samouco será a primeira acção do dia, entre as 9h e as 11h. Após o que os participantes participam numa oficina de instrumentos e arte feitos com os materiais recolhidos. Logo depois de almoço, aprenderão outro trabalho artesanal: brincos com aviões de papel. Às cinco da tarde, um momento de conversa servirá para apresentar o movimento Aterra, sob o mote “Imaginando juntos novos caminhos. Por uma mobilidade ecológica e justa”. À noite, será dado o lugar à música.

No centro da acção, já se disse, está a contestação ao projecto que está previsto para aquela zona. “Não se trata de deixar de andar de avião, mas de não construir o novo aeroporto e reduzir o tráfego aéreo”, diz Luís Falcão. “Podemos dizer às pessoas para não andarem de avião e elas podem optar por andar menos. Mas não podemos sugerir que uma pessoa que tenha de ir à Rússia vá de comboio.”

Por outro lado, cada pessoa pode reduzir as viagens que faz e, desse modo, dar o seu contributo individual. “Posso até nunca mais entrar num avião, mas o impacto será muito mais reduzido do que não construir um aeroporto”, acrescenta o dinamizador do encontro.

Num texto em que o movimento justifica as razões da contestação, avisa-se que a aviação “pode tornar-se a principal fonte de emissões de CO2 com origem em Portugal” e que o tráfego aéreo “é um dos grandes responsáveis pelo aumento de emissões que provocam o caos climático”. A poluição aeroportuária causa “doenças cardiovasculares e respiratórias, cancros, perturbações do sono e cognitivas”, avisa ainda o texto.

Pelo contrário, um transporte ferroviário cada vez mais extenso, ecológico e barato pode ajudar na necessária protecção da biodiversidade no estuário do Tejo e do “único planeta que temos para viver – a Terra”. Luís Falcão acrescenta: “O impacto ambiental atinge as aves, trará às pessoas falta de paz…”

No convívio de sexta-feira, serão promovidos comportamentos amigos do ambiente, incluindo a utilização de materiais reutilizáveis e detergente ecológico. Para Setembro, os organizadores pretendem organizar um festival. “O trabalho está a começar agora, temos todos ideias, não temos uma agenda política, mas temos consciência política”, diz ainda Luís Falcão.

De Lisboa, o autocarro 431 que parte da Gare do Oriente em direcção ao Montijo tem paragem no Samouco. Em alternativa, indo de barco até ao Montijo, pode tomar-se aí o autocarro 412 com destino a Alcochete, saindo no Samouco. Em ambos os casos, tem de se andar 15 minutos daí até à praia.

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