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Cruz, missão, missionários. Foto pamela_d_mcadams

A decorrer em Fátima

Migrações e Sínodo em destaque no primeiro Curso de Integração Missionária

| 24/07/2024

A primeira edição do Curso de Integração Missionária está a decorrer no Centro Missionário Allamano, em Fátima, até à próxima sexta-feira, 26 de julho. Dinamizada pelos Institutos Missionários Ad Gentes, a formação, que arrancou na segunda-feira, reúne cerca de 80 pessoas, sobretudo missionários estrangeiros que chegam para trabalhar em Portugal, assim como portugueses que regressam ao seu país natal, depois de muito tempo de ausência.

O curso consiste num conjunto de conferências, ministradas por diversos especialistas. A primeira, subordinada ao tema “Liderança, autoridade e serviço”, foi conduzida por Rui Marques, ex-alto comissário adjunto para as migrações e minorias étnicas, que desde 2010 coordena o programa de capacitação para jovens Academia de Líderes Ubuntu.

 

De crise em crise, sem perder a esperança

Rui Marques no Curso de Integração Missionária. Foto © Juliana Batista

“Se nós não tivermos imigrantes, a economia portuguesa pura e simplesmente não consegue funcionar”, alertou Rui Marques. Foto © Juliana Batista

Na sua intervenção, o responsável lembrou como o mundo “tem vivido de crise em crise”, e a forma como a “pirâmide demográfica” se tem alterado, abarcando “problemas sérios no horizonte”. “Quem discute em Portugal o tema da imigração – e há hoje uma reação significativamente mais negativa à imigração em Portugal do que noutros tempos – confronta-se com um pequeno detalhe: é que se nós não tivermos imigrantes, a economia portuguesa pura e simplesmente não consegue funcionar, porque não tem o número de trabalhadores suficientes de que necessita”, assinalou.

Na sua análise à realidade atual, Rui Marques também lembrou como hoje existe “uma forma muito evidente de posições extremadas entre posições políticas opostas”, e como as redes socias podem estar a contribuir para isso. “A ascensão das redes sociais fez-nos chegar a territórios novos. Um deles é que nós estamos muito mais polarizados. Somos muito mais manipulados no acesso à informação”, disse, alertando para os efeitos do seu uso. “As redes sociais funcionam através dos chamados algoritmos, que estabelecem algumas regras. Eu vejo nas redes sociais aquilo que o algoritmo reconhece como o que é próximo de mim, o que corresponde àquilo que eu concordo. E portanto, as pessoas vão-se agrupando por identidades muito próximas”, apontou.

“A verdade alternativa é outro problema para o nosso tempo. As pessoas já não acreditam numa verdade. As pessoas têm a sua verdade, que pode ser uma mentira. Dizem que é a sua verdade”, indicou o responsável, alertando depois para o problema da difusão de informação falsa. “Hoje, a fonte de informação já não os tradicionais meios de comunicação. A fonte essencial de informação são as redes sociais. É aí que as pessoas consomem a maior parte da informação e a grande diferença das redes sociais face aos média tradicionais é que não têm nenhuma regulação. Ou seja, cada pessoa coloca lá o que quer e é muito fácil de espalhar porque as pessoas replicam informação falsa. Isto leva-nos aos desafios dos discursos de ódio que vão estando presentes.”

Rui Marques procurou depois mostrar aos formandos um caminho de esperança, explicando o propósito da Academia de Líderes Ubuntu. “A grande vantagem que o ‘Ubuntu’ nos trouxe foi permitir a criação de uma plataforma em que eu não preciso de converter ninguém à minha fé para podermos trabalhar juntos, com um conjunto de valores que são comuns, e que podem ser partilhados por todos”, destacou o responsável.

 

O paradoxo do sínodo

Fabrizia Raguso no Curso de Integração Missionária, Fátima, 23 julho 2024. Foto Juliana Batista

“Chegámos ao cúmulo de precisarmos de um sínodo para aprender a fazer sínodo”, sublinhou Fabrizia Raguso na sua intervenção. Foto © Juliana Batista

Entre a equipa de formadores, esteve também a italiana Fabrizia Raguso, membro do Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos da Universidade Católica, doutorada em Filosofia Ética e Antropologia. Numa intervenção subordinada ao tema “Autoconhecimento e inteligência emocional”, Fabrizia Raguso fez referência ao Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade, cujos trabalhos tiveram início em outubro de 2021 e se estendem até outubro de 2024.

Segundo a especialista italiana, trata-se de “três anos” em que se está a “tentar recuperar uma coisa que devia ser natural dentro da vida eclesial: partilhar”. “Chegámos ao cúmulo de precisarmos de um sínodo para aprender a fazer sínodo. E, mesmo assim, parece que estamos a descobrir tudo de novo, como se nunca nos tivéssemos encontrado e falado uns com os outros, o que é ainda mais espantoso”, disse, apontando para a contradição que considera existir: “Estar em sínodo para aprender o método é um paradoxo verdadeiramente extremo.”

 

Texto publicado ao abrigo da parceria 7MARGENS/Fátima Missionária.

 

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