Sínodo: seminários são problema grave

Mulheres marcham pela ordenação junto ao Vaticano e dentro do sínodo esse é um dos temas urgentes

| 6 Out 2023

Mulheres, Ordenação de mulheres, Women's Ordination Conference

“Ordenem as mulheres”, pede o pequeno grupo de manifestantes na marcha pela ordenação de mulheres. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Roberta Fuller apresenta-se: canadiana de Toronto, é mulher e é padre na Igreja Católica. E isso é possível? Sim, diz; a sua ordenação é válida, porque foi um bispo legítimo que a fez, mas ela é “não conforme à lei canónica”, admite. Por isso as cerca de 40 mulheres e alguns homens que se manifestam nesta quente tarde de sexta-feira, 6, próximo do Vaticano, empunham cartazes que, entre outras coisas, dizem que as “mulheres padres estão aqui”.

A escassas centenas de metros dali, o responsável do Dicastério da Comunicação, do Vaticano, anunciava aos jornalistas mais ou menos à mesma hora que o papel das mulheres na Igreja foi um dos temas mais destacados pelos 351 membros da assembleia sinodal (um quarto dos quais são não-bispos) na discussão dos últimos dois dias, divididos em 35 grupos de debate.

Antes de iniciarem a marcha, Kate McElwee lê uma declaração: “Abraçamos o convite do Papa Francisco ao discernimento colectivo, ao diálogo e à escuta profunda através do Sínodo sobre a Sinodalidade, explorando o que significa ‘caminhar juntos’ como Povo de Deus numa Igreja local e global.”

Durante a curta marcha – iniciada junto da igreja San Giovanni dei Fiorentini, na Via Acciaioli, nas proximidades de São Pedro  na margem oposta do Tibre – o grupo passa quase despercebido entre a multidão de turistas que literalmente continua a invadir Roma, e especialmente as imediações do Vaticano. A marcha será feita lentamente, em silêncio e em oração, pede Kate McElwee, dos Estados Unidos, directora executiva da Women’s Ordination Conference (WOC, ou Conferência pela Ordenação de Mulheres).

“Caminhamos solidários com aqueles que foram silenciados, instruídos a aquietar a sua vocação, a tornar pequenos os seus sonhos” pede a responsável da WOC. “À medida que caminhamos, deixaremos que a nossa presença real e colorida, ousada e pacífica fale por si”, acrescenta.

As pessoas vão reparando à medida que o grupo passa, lento e em silêncio, no meio do imenso tráfego, o movimento de pessoas e o ruído que atravessa a cidade. Quase todas (e alguns homens) vestem de roxo, a cor penitencial, como a organização pedira. Vêm sobretudo dos Estados Unidos e do Canadá, mas também há mulheres da África do Sul, da Índia, de Espanha… Uma delas enverga um vestido a pedir, em inglês, “Ordenem mulheres”.

Há pessoas que param para tirar fotografias, outras mostram-se entre o espantado ou curioso, algumas recebem os folhetos que as marchantes vão distribuindo. Uma, finalmente, repara: Oh my God, ordained women, it’s awesome, Meu Deus, mulheres ordenadas, espectacular! Outro turista pede a quem o acompanha “um segundo, vou tirar uma foto” ao grupo. A marcha segue lenta, em silêncio, mesmo quando têm de atravessar para a Ponte Sant’Angelo, diante do Castelo com o mesmo nome (e a poucos metros do edifício do antigo Colégio Pontifício Português onde o padre português Joaquim Carreira salvou dezenas de refugiados durante os anos da Segunda Guerra Mundial). Uma outra mulher, sempre à distância do grupo, usa vestes vermelhas mais exuberantes, semelhantes à de um cardeal.

 

“Sedentos de justiça”

Mulheres, Ordenação de mulheres, Women's Ordination Conference

“As mulheres padres estão aqui”, diz o cartaz, fazendo referência a várias mulheres ordenadas por bispos com sucessão apostólica, mas cuja ordenação não é reconhecida pela lei canónica. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Roberta Fuller puxa pelos galões: doutorada em teologia, a sua ordenação radica na sucessão apostólica e por isso é válida, diz. A sucessão apostólica designa a imposição das mãos que, desde o tempo dos apóstolos de Jesus, atribui a alguém uma função ministerial na Igreja; por isso, se um bispo ordena um padre – ainda que seja uma mulher – a sucessão apostólica e a validade da ordenação está garantida, reivindica Roberta. Mas não a conformidade com a lei canónica, obviamente.

“Acredito na igualdade de género”, diz Fuller ao 7MARGENS, junto ao Castel Sant’Angelo, onde a marcha termina. “Os direitos humanos são também direitos das mulheres. E nós estamos sedentos de justiça, para as mulheres e para os mais vulneráveis”, incluindo os mais pobres, os católicos divorciados que voltaram a casar ou as pessoas LGBT. Por isso Roberta está envolvida em organizações católicas que distribuem refeições para os mais pobres. “Deus não quer saber dos rótulos das pessoas, preocupa-o, e preocupa-nos, a injustiça.”

E é possível passar esta mensagem, quando o grupo que se manifesta é tão pequeno? “Temos muitos apoiantes, incluindo padres”, diz Roberta Fuller. “Eles só não dizem publicamente que nos apoiam, porque isso pode custar-lhes a excomunhão”, acrescenta.

Fundamentos para sua posição vai Roberta buscá-los à Bíblia: “Não há nada no texto contra a ordenação. E Paulo escreve que ‘não há judeu nem grego, nem homem nem mulher’ para dizer que somos todos iguais perante Deus.” Além disso, é importante também que o apóstolo tenha deixado mulheres a liderar várias das comunidades que criou, acrescenta. “A mensagem de Jesus, o amor, é o mais importante, Deus não quer saber de rótulos”, insiste.

“Por razões de segurança”, a polícia pediu que as manifestantes não fossem até à Praça de São Pedro, explica a directora executiva da WOC ao 7MARGENS. “Estamos contra a injustiça de a Igreja Católica não ordenar mulheres”, já que a estas é negado algo que aos homens é permitido – e ambos são iguais, homens e mulheres defende.

“As mulheres estão prontas” para a ordenação, argumenta. E a própria Kate deseja ser ordenada? “Eu não quero, mas sei de muitas que o desejam.” E, como Roberta, diz que o catolicismo deve recuperar “a tradição da liderança feminina que existiu na Igreja primitiva”. “É um privilégio estar aqui”, conclui, justificando a pouca dimensão do grupo, “representando mulheres de todo o mundo”.

 

Maria Madalena, a primeira

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Kate McElwee, directora executiva da Women’s Ordination Conference: “A resistência ao patriarcado é obediência a Deus.” Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Na declaração lida no início, Kate McElwee fala também de Maria Madalena: “Foi uma das seguidoras mais próximas de Jesus e a primeira a testemunhar o Cristo ressuscitado no jardim próximo ao seu túmulo. A sua ordem de ‘ir e contar’ aos discípulos a notícia da Ressurreição faz dela a primeira pessoa encarregada por Jesus de anunciar o Evangelho. Reconhecida pelo Vaticano como a ‘Apóstola dos Apóstolos’, Maria Madalena é o modelo de presbiterado para as mulheres, capacitada por Jesus para ‘ir e contar’ aos seus seguidores a Boa Nova da sua Ressurreição. E por isso é justo que nos reunamos aqui, nesta igreja de Roma, onde se venera uma relíquia do pé de Maria Madalena, envolta em ouro.”

Kate McElwee invoca ainda “todos os marginalizados por causa do género”, pede que as mulheres sejam vistas como iguais, diz que as mulheres católicas “persistem” e que as suas vozes transportam esperança de um novo tempo para a Igreja. “O Espírito Santo está vivo e movendo-se entre nós, permitindo que as nossas vozes sonhem alto com uma Igreja mais inclusiva.

Junto ao Castel Sant’Angelo, as manifestantes colocam-se em fila quando chegam, depois em círculo. Ali quebram o silêncio, repetindo slogans: “Ordenem mulheres, já! Resistir ao patriarcado é obedecer a Deus! Quanto teremos de esperar? As mulheres estão clamando por igualdade! As mulheres estão clamando por justiça!” E, indo buscar a inspiração à frase do Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude, repetem, em português: “Todos, todos, todos.”

 

Revisão de estruturas e Direito Canónico

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“Quanto tempo têm de esperar as mulheres pela igualdade?”, perguntam as mulheres, com a Basílica de São Pedro ao fundo. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Poucos dos participantes do sínodo saberiam da marcha, mas muitos parecem estar sintonizados com algumas das duas sugestões: entre quinta e sexta-feira, os grupos de debate elegeram os temas mais importantes para o debate dos próximos dias: a formação (em especial do clero e dos seminaristas), o papel das mulheres, a opção pelos pobres, a revisão das estruturas da Igreja, os abusos, o diálogo inter-religioso. E ainda temas como o drama das migrações e os cristãos que vivem situações de perseguição e sofrimento, a começar pelos ucranianos – aos quais a sala dedicou um aplauso – apareceram destacados. A par da revisão das estruturas da Igreja, como o Código de Direito Canónico, a dimensão da Cúria e a relação Leste-Oeste na Europa. “Entre os pontos críticos”, foram destacados o risco do “acumular de poder em vez da necessidade de viver o serviço”, disse Paolo Ruffini aos jornalistas, citado pelo Vatican News.

Nesta sexta-feira, com a presença do Papa Francisco, foram lidos 18 relatórios de grupos e houve ainda 22 intervenções individuais, disse Ruffini. E todos os participantes receberam o pequeno livro Santos, Não Mundanos, com três textos do Papa – incluindo um sobre “corrupção e pecado”, que está já publicado em Portugal.

Os vários grupos reuniram numa atmosfera “muito sinodal”, disse Sheila Pires, secretária da Comissão de Informação, mesmo se “não faltam tensões” e até tendo em conta a diversidade de origens das pessoas em cada grupo.

Na conferência de imprensa, vários jornalistas perguntaram se haveria alguma punição para as entrevistas dadas pelo cardeal Gherard Ludwig Müller, prefeito emérito do Dicastério para a Doutrina da Fé, que quebrava a proposta de “jejum da palavra pública” pedido pelo Papa. Ruffini explicou que há “discernimento no silêncio”. E acrescentou: “Há um discernimento pessoal solicitado pelo Papa aos membros e também a vocês [jornalistas], o que estamos a falar”. E esse “discernimento é deixado a cargo de cada pessoa”.

 

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Na Calábria, com Migrantes e Refugiados

Na Calábria, com Migrantes e Refugiados novidade

Estou na Calábria com vista para a Sicília e o vulcão Stromboli ao fundo. Reunião de Coordenadores das Redes Internacionais do Graal. Com uma amiga mexicana coordeno a Rede de Migrantes e Refugiados que abrange nada mais nada menos que 10 países, dos Estados Unidos, Canadá e México às Filipinas, passando por África e o sul da Europa. Escolhemos reunir numa propriedade de agroturismo ecológico (Pirapora), nas escarpas do mar Jónio, da antiga colonização grega. Na Antiguidade, o Mar Jónico foi uma importante via de comércio marítimo, principalmente entre a Grécia e o Sul da Itália.

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