Nasceu francês e foi católico. Frédéric La Combe era jovem quando partiu para a China e se apaixonou pela espiritualidade oriental. No regresso à Europa não encontrou no catolicismo resposta à sua inquietação interior. Procurava conhecer-se, mais do que relacionar-se com um Deus que lhe era apresentado com um enorme aparato de crenças, de referências, “algo abstrato”. Seguiu a meditação-contemplativa na tradição budista, fez um retiro contemplativo de três anos sobre a orientação de Denys Rinpoché. Hoje é o Lama Lhündroup. Esteve em Lisboa, onde, no último fim-de-semana de março, orientou um seminário aberto de iniciação à prática da meditação-contemplação, e falou com o 7MARGENS. Entrevista conduzida por Jorge Wemans.
7MARGENS – Que encontrou na meditação-contemplativa que o levou a torná-la um modo de vida, algo a aprofundar permanentemente?
LAMA LHÜNDROUP – A meditação-contemplativa permite-me encontrar a natureza humana, que é também a minha natureza, nos seus múltiplos aspetos e níveis. Encontrar a experiência humana, nos seus aspetos luminosos e sombrios. É o meu modo de concretizar a procura da verdade, da autenticidade, do conhecimento de si mesmo, do amor absoluto. Ela responde à minha busca de libertação, libertação do sofrimento e da ignorância, da minha realização espiritual.
A meditação-contemplativa favorece a ultrapassagem da dualidade em direção a um estado de unidade não dualista que na tradição budista tem três dimensões (o Trikaya): a abertura do coração, do espírito; a luz, a claridade e a inteligência; a bondade, o amor, a compaixão.
7M – Essa procura espiritual está também presente na maior parte das religiões, ou, mais simplesmente ainda, faz parte da condição humana. Que encontra de particular na tradição budista?
Sem dúvida, há múltiplos caminhos, com diversos nomes, para chegar à realização espiritual. Mas o que é verdadeiramente importante é sublinhar que aquilo de que estamos a falar é da experiência, não de um método ou de um conceito. E essa experiência é natural, universal, aberta a qualquer humano. Não é uma experiência artificial e é por isso que existem mil caminhos para encontrar a natureza das coisas, do ser, da vida, de Deus…
7M – Nos seus escritos e entrevistas, encontro muitas expressões e conceitos da tradição cristã. Esta é importante para si?
Sim, claro. Fui educado, como toda a gente naquela época, numa família católica. O meu pai dizia-se um católico voltairiano (um misto das luzes com a tradição cristã) e a minha mãe era de origem protestante. Por isso, em casa não havia dogmatismo, havia racionalidade. Meu pai ia à missa e eu com ele. Mas como tinha casado com uma divorciada estava impedido de comungar, pelo que ele lia os evangelhos durante toda a celebração. E eu gostava de estar ali, de comungar e de fazer parte de tudo aquilo.
A simpatia, a inspiração e o interesse que eu encontrei no ambiente católico foram importantes no meu percurso espiritual. Sobretudo, as histórias de Jesus que o meu pai me contava marcaram-me. Creio que essa inspiração me levou mais tarde a interessar-me pela via do Buda. É a mesma procura. Os textos dos grandes místicos cristãos revelam uma procura espiritual diferente, mas semelhante à de quem segue o budismo.
No meu caso, aconteceu ter sido atraído pelo Oriente. Aos 20 anos parti para a China, aprendi chinês e quando, anos mais tarde, voltei a França, procurei conversar com alguns padres, frequentei o Instituto Católico em Paris, tive um longo contacto com um frade ortodoxo, mas… as respostas que obtinha para a minha procura não me satisfaziam… ficava sempre com a impressão que teria de aceitar um aparato de crenças, de referências, uma coisa abstrata que não respondia ao que eu procurava. Que vou eu fazer na minha vida concreta com todo esse arsenal? Qual é a relação de tudo isso com o céu, a terra, o ar, a lua, com a minha existência pessoal?…
Eu tinha descoberto a tradição oriental e encontrado uma resposta à minha procura baseada na experiência e não na crença. A força do percurso baseado na tua experiência é que ela te diz: “sim, há respostas para o que procuras, mas vais ser tu a ter de as descobrir. Não de qualquer modo, tipo new-age em que cada um age e faz como quer, mas sim baseado numa tradição, num método, que te serve de guia e te reenvia à vida, à experiência de vida”. E isto dizia-me muito mais, porque eu não procurava Deus, procurava o conhecimento de mim.
Mudar o mundo a partir do interior

“Transformar o que em mim é a raiz dos problemas do mundo, isso sim, é da minha conta e é responsabilidade minha.” Foto: Estátua de Buda em pose de meditação. © Nacho Valentia
7M – Baseando-se na sua experiência escreve e diz que “não conseguiremos mudar o mundo a partir do exterior”. Então como o vamos mudar?
A história da humanidade já o mostrou repetidamente, de geração em geração. As sociedades humanas são feitas de pessoas, de indivíduos, e para as mudar é preciso começar por cada uma das pessoas. As grandes ideologias do século XX, mesmo as baseadas em ideais universalistas, como, por exemplo, o comunismo, o socialismo, não conseguiram realizar aquilo a que se propunham. Hoje em dia vivemos o fracasso da paz e da riqueza de todos prometidas pela sociedade de consumo e o seu grande mercado livre.
7M – Colocar a mudança das sociedades como resultado da mudança interior de todas as pessoas, não significa desqualificar a política e os movimentos sociais como atores dessa mudança?
É uma pergunta que me fazem frequentemente. Sobretudo os jovens que perante a catástrofe ecológica querem fazer alguma coisa. Mas não apenas perante a crise climática, como também perante a guerra, as pessoas perguntam-se: que podemos fazer? E ficam desorientadas, desarmadas, sentido que não dispõem dos meios para conseguir que as coisas mudem. E, ao contrário do que acontecia no século XX, não podem integrar-se num qualquer movimento revolucionário que acolha e defenda os seus ideais e as suas esperanças. Que nos resta, então? Creio que a meditação é uma resposta a esta interrogação, na medida em que ela propõe mudar o mundo começando por si mesmo. E não corremos o risco de fracassar neste percurso interior, mesmo não sabendo se esta mudança vai garantir o êxito final. Mas o êxito final não é da nossa conta. Transformar o que em mim é a raiz dos problemas do mundo, isso sim, é da minha conta e é responsabilidade minha. O que está na raiz da catástrofe climática ou das guerras, senão o egoísmo, o egocentrismo, a violência, o ódio, a ignorância e a rejeição do outro e de si?
Todas estas paixões conflituais, todos estas emoções contraditórias que provocam guerras e degradam o clima, estão também dentro de mim, de cada um de nós, mesmo os mais simpáticos. Sim, podemos fazer qualquer coisa mudando-nos do interior. É um passo modesto, mas é qualquer coisa. É um processo, uma procura, um esforço que se pode partilhar com outros…
7M – Contudo, as guerras e a crise climática não resultam apenas de comportamentos e de paixões pessoais, são fruto de enfrentamento, histórias e ações coletivas, políticas…
A procura de conhecimento, de transformação, de si não exclui de modo nenhum o compromisso solidário e coletivo com outros para defender uma ética de valores humanos. Pelo contrário, a pessoa será tão mais pertinente na ação coletiva quanto for portadora de um processo de transformação interior. Essa prática interior tenderá a ser um suporte para permitir superar os conflitos interpessoais que sempre surgem nos coletivos. Em vez de amplificar os conflitos, alguém habituado à meditação, vai trabalhar esses conflitos em si e ultrapassar as tentações de poder, de dominação.
7M – Que palavra gostaria de dirigir aos homens e mulheres vítimas dos atuais conflitos armados?
Teria medo de que ter algo a dizer-lhes fosse demasiado arrogante. [Silêncio] Não, não tenho palavras para eles. “Estou contigo” – seria o que gostaria de lhes dizer.
Diferentes experiências da história

Lama Lhündroup (Frédéric La Combe): “Vê-se que o “contrato” entre o povo e o Partido Comunista Chinês (PCC) funciona e é cumprido: Vocês do PCC mandam sem oposição, mas asseguram-nos a prosperidade e deixam-nos fazer o que queremos desde que não contestemos o poder.” Foto © Jorge Wemans / 7MARGENS
7M – Há pouco tempo regressou à China e ao Tibete, onde não ia há quatro décadas. Que diferenças encontrou?
Estive no Tibete Oriental. Aterrei em Chengdu, capital da província Sichuan, a parte chinesa do Tibete Oriental. E não queria acreditar no que os meus olhos viam. Da última vez que ali tinha estado não havia veículos pessoais, só se viam camionetas, alguns táxis velhos e carroças puxadas a mulas e, desde que se saía do centro da cidade, as ruas eram de terra batida. Agora encontrei uma megalópole mais moderna que Nova Iorque! Com três anéis periféricos, toda a gente com o seu telemóvel, lojas das grandes marcas internacionais, gigantescos arranha-céus, enfim: uma cidade hi-tech de enormes dimensões.
O que se passou em Chengdu, passou-se em toda a China, ou quase. Alimentar, vestir, educar e dar uma casa a cada família chinesa – os grandes objetivos da revolução maoísta parecem realizados, apesar da loucura da “revolução cultural” e de tudo o que ela significou em mortos, destruição e regressão. No mês e meio que passei na China não encontrei miséria. Não estou a dizer que não exista, mas não vi mendigos, nem sem-abrigo. A vida decorre num clima de uma segurança tranquila. Não há crime que se veja e o espaço público está limpo e arranjado. Vê-se que o “contrato” entre o povo e o Partido Comunista Chinês (PCC) funciona e é cumprido: Vocês do PCC mandam sem oposição, mas asseguram-nos a prosperidade e deixam-nos fazer o que queremos desde que não contestemos o poder. É tudo muito materialista, muito simples. A maioria dos chineses não se queixa da ausência de democracia. Não estou a defender ou a justificar o poder do PCC. Estou apenas a tentar transmitir aquilo que vejo e sinto nos meus amigos chineses.
7M – Esse clima distendido de que fala não se aplica ao exercício das liberdades em geral, nem, em particular, à liberdade de professar uma religião!
Nesse campo houve também uma grande evolução. As religiões foram, de certa forma reabilitadas. Não o catolicismo para o qual os dirigentes comunistas olham como uma organização estatal. Os católicos são vistos, por assim dizer, como “espiões do Vaticano” (…)
7M – O regime também impede o Dalai Lama de viver no Tibete…
Sim, sim. A reabilitação das religiões não lhes proporcionou todas as liberdades. Foi feita colocando-as sob o controlo do Estado. Os templos e as comunidades foram reconstruídos – há, hoje, mais templos no Tibete do que igrejas em Portugal – e podem celebrar os seus ritos, rezarem e etc… mas sob o estreito controlo da administração chinesa que limita qualquer atividade que possa vir a ter influência sobre a sociedade.
Ou seja, é proibido ensinar à distância, comunicar com a população sem visto prévio das autoridades, etc… Mas desde que tudo se passe no interior dos templos, ao nível da investigação universitária, ou entre pessoas da mesma espiritualidade não há problemas.
Para o Governo chinês há duas questões “sensíveis”: as religiões e as minorias. Ambas são vistas como pondo em causa a unidade do país. Baseando-se na história e nos movimentos religiosos que fomentaram golpes de Estado, os governantes chineses olham para as religiões como algo perigoso para o poder central. Por isso, para eles é fundamental controlar as minorias e as religiões. Os tibetanos têm direito a um controlo duplo: por serem uma minoria e por serem religiosos.
Como ocidental, eu defendo e prefiro um Estado democrático, uma sociedade livre, com liberdade de informação e opinião. Tenho pena que essa não seja a realidade da China. Mas reconheço a chamada de atenção feita por um diplomata francês, quando afirmou: “eles têm uma outra experiência da história, diferente da nossa”. Foram colonizados, desprezados e humilhados por nós os ocidentais, não podem ter vivido a mesma experiência da história que nós…
7M – Mas é esse regime que prende, deporta e mata quem julga ser dissidente, ou, simplesmente, aspira a outro tipo de sociedade
Sim, isso é inadmissível e é preciso denunciá-lo.
O que disse não procura justificar nem me leva a estar de acordo com o que se passa na China. Mas penso que é preciso compreender o outro que tem uma experiência da história diferente da minha. Sem justificar nem concordar, mas tentado compreender as razões do outro que se tornou meu inimigo.










