O Papa nomeou esta quinta-feira, 18 de dezembro, o bispo de Joliet (Illinois – EUA), Ronald Hicks, para suceder ao cardeal Timothy Dolan como arcebispo de Nova Iorque. A escolha de Hicks, um forte crítico da política contra os imigrantes praticada pela Administração Trump; e a rapidez com que Leão XIV aceitou o pedido de renúncia entregue por Dolan por ter atingido os 75 anos, são dois factos lidos como expressando a vontade do Papa de apoiar a renovação do episcopado do seu país de origem num sentido menos conservador.
Esta celeridade em aceitar o pedido de renúncia de Dolan, que completou 75 anos em fevereiro deste ano, contrasta com a afirmação por ele feita na semana passada, durante a receção aos bispos italianos, de que manterá os cardeais à frente das suas dioceses até aos 77 anos.
A arquidiocese de Nova Iorque, com os seus 2,5 milhões de católicos, é uma das maiores e mais importantes dioceses dos Estados Unidos. Enquanto seu pastor, o cardeal Dolan afirmou-se como um conservador crítico do Papa Francisco, um homem muito próximo das ideias e práticas das alas da direita do Partido Republicano. Mas, por outro lado, ele foi também alguém que, lembra o jornal digital Crux Now, escreveu em 2023 uma carta de boas-vindas para uma conferência na Fordham University, que celebrava programas de apoio a católicos LGBTQ+, e incentivou a participação LGBTQ+ no tradicional desfile anual do dia de São Patrício.
Pelo contrário, o até agora bispo da pequena diocese de Joliet tem-se distinguido na defesa do imigrantes e consequentes críticas à Administração Trump. Junto com o cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago (com quem trabalhou enquanto bispo auxiliar), foi um dos promotores da inabitual “mensagem especial” enviada, em novembro, pela Conferência dos Bispos Católicos dos EUA reunida em Baltimore, condenando as operações de imigração do governo Trump [ver 7MARGENS].
Logo após a aprovação do documento, Ronald Hicks incentivou os católicos da sua diocese a partilharem a mensagem e a pô-la em prática, defendendo-a como sendo: “uma afirmação da nossa solidariedade com todos os nossos irmãos e irmãs, expressando com clareza e convicção as nossas preocupações, oposição e esperanças. A mensagem fundamenta-se no compromisso duradouro da Igreja com o seu pensamento social sobre a dignidade humana e constitui um apelo a uma reforma significativa da política imigratória”.
Tratar das vítimas de abusos
O novo arcebispo de Nova Iorque tem pela frente a difícil tarefa de usar o fundo de indemnização por abusos de forma a conseguir fechar acordos extrajudiciais com as mais de 1.300 vítimas que ainda têm a correr ações judiciais contra a arquidiocese de Nova Iorque.
Na sua diocese de Joliet, para a qual foi nomeado em 2020, o bispo Hicks já enfrentou uma situação semelhante, tendo de apoiar e indemnizar vítimas que bispos anteriores menosprezaram, transferindo conhecidos abusadores de local para local e recusando-se a assumir responsabilidades pelo seu papel no encobrimento dos abusos. Agora em Nova Iorque, Ronald Hicks pode contar com um fundo de cerca de 300 milhões de dólares que Dolan conseguiu reunir para indemnizar as vítimas de abusos sexuais que processaram a arquidiocese. O fundo foi constituído a partir de cortes no orçamento da arquidiocese e da venda de ativos.
Para a agência de notícias Religion News Service, “Hicks, de 58 anos, tal como o Papa Leão, apoia a visão acolhedora e inclusiva do Papa Francisco sobre o catolicismo, com foco na justiça social, e também partilha muitas das mesmas características do atual papa”. Tal como Prevost, também nasceu no Illinois, em Harvey, South Holland, não muito longe do subúrbio de Chicago onde o atual Papa foi criado, e “ambos começaram a discernir as suas vocações ainda jovens”.
A propósito do encontro de ambos em novembro deste ano, Hicks confessou à Imprensa: “Crescemos literalmente no mesmo raio, no mesmo bairro. Brincávamos nos mesmos parques, nadávamos nas mesmas piscinas, frequentávamos as mesmas pizzarias”.
Ao longo da sua formação, o bispo Hicks esteve vários anos no México para aprender espanhol enquanto trabalhava com a missão Nuestros Pequeños Hermanos (“Nossos pequenos irmãos”), parte de um projeto maior que cuida de crianças órfãs e abandonadas na América Latina e no Caribe. Voltou à América-Latina (El Salvador), entre 2005 e 2010, como diretor regional da mesma Nuestros Pequeños Hermanos, trabalhando para criar ambientes seguros onde eles pudessem morar, para lhes proporcionar educação, assistência médica e formação profissional a jovens de toda a América Latina.
Em 2010, o então arcebispo de Chicago (Illinois), o cardeal Francis George, colocou-o como decano de formação no Seminário de Mundelein e, em janeiro de 2015, o novo arcebispo de Chicago, Blase Cupich, chamou-o para o cargo de vigário-geral da arquidiocese. Em 3 de junho de 2018, o Papa Francisco nomeou-o bispo auxiliar de Chicago e em julho de 2020 nomeou-o como sexto bispo de Joliet, uma pequena diocese adjacente a Chicago. A sua divisa episcopal é em espanhol: “Paz y Bien” (Paz e Bem), palavras atribuídas a São Francisco de Assis. Entre os símbolos do seu brasão, há um coração vermelho no topo, que expressa o seu amor pelo serviço missionário com as crianças da América Latina e com as pessoas das paróquias onde serviu.










