Diálogo inter-religioso debatido em Mafra

Num mundo em guerra, não basta dizer que “todas as religiões são religiões de paz”

| 6 Mai 2024

Sarah Bernstein fala durante o Mafra Dialogues. Foto Câmara Municipal de Mafra

Sarah Bernstein, no ecrã, foi uma das oradoras convidadas da quarta edição do encontro Mafra Dialogues. Fez a sua intervenção a partir de Jerusalém. Foto © Câmara Municipal de Mafra

 

É inegável: há uma “sombra palpável de medo” e uma “ansiedade generalizada” em Israel e na Palestina, que geram cada vez mais violência. O que fazer? “Mais do que lutar contra o medo, é preciso lidar com esse medo, trabalhar com esse medo, de ambos os lados”, defende Sarah Bernstein, mediadora de conflitos e especialista em diálogo inter-religioso. Natural do Reino Unido e a viver em Jerusalém há mais de dez anos, Sarah não duvida de que as religiões, podem, e devem, ter um papel fundamental nesse trabalho. Mas “têm de ir além de dizer que são todas religiões de paz”, alerta. “Há muito trabalho a fazer e é preciso aprender a fazê-lo em conjunto”.

Sarah foi uma das oradoras convidadas da quarta edição do encontro Mafra Dialogues, que reuniu nos passados dias 2 e 3 de maio, no Palácio Nacional de Mafra, dezenas de académicos e profissionais de diferentes áreas, bem como líderes políticos e religiosos de todo o mundo, para debater soluções práticas para os conflitos atuais, e ao mesmo tempo encontrar caminhos de prevenção de conflitos futuros. Diretora do Rossing Center for Education and Dialogue, Sarah Bernstein defendeu, durante a sua intervenção, que é essencial mostrar a israelitas e palestinianos que há outros modos de lidar com o medo – legítimo -, além da agressão ou da radicalização. E que “o outro” não é necessariamente um inimigo.

“São as relações fortes entre pessoas e organizações, de ambos os lados, que podem formar a base para a construção da paz”, assegurou. Relações essas que já existiam antes do dia 7 de outubro, em que o Hamas atacou Israel e este respondeu com bombardeamentos massivos sobre os palestinianos, e que não terminaram ali. “Muitas delas sobreviveram”, garante.

Só no Rossing Center, que Sarah coordena desde 2013, estão ativos sete programas de promoção dessas relações, envolvendo mais de 120 organismos religiosos, inter-religiosos, interculturais, educativos e públicos. Um deles destina-se aos diretores e professores das escolas, oferecendo-lhes formação para “promover o diálogo entre os alunos sobre histórias, identidades e necessidades religiosas, comunitárias e individuais”, e orientando-os para “ajudar os alunos a superar o medo e a desinformação”. O programa , intitulado “Diálogo e Identidade”, proporciona “uma oportunidade que muito poucas comunidades escolares têm, nomeadamente para desafiar a norma atual de separação e segregação entre estudantes árabes e judeus, reunindo-os várias vezes ao longo do ano letivo, e proporcionando um ambiente para a aprendizagem experiencial e mútua”.

Outro programa, “Casa Aberta”, está a ser implementado na cidade de Ramle, lar de uma população mista árabe-judaica e das três religiões abraâmicas, mas onde, na prática, “há pouco encontro genuíno entre os dois povos e os três principais grupos religiosos, o que, por sua vez, leva à perpetuação da desinformação, dos estereótipos e dos preconceitos”. Com esta “Casa Aberta”, onde desde 2020 são organizados eventos inter-religiosos e interculturais, o Rossing Center pretende contribuir para “a transição de Ramle de uma cidade ‘mista’ para uma cidade verdadeiramente ‘partilhada'”.

 

Onde estão as mulheres?

Neste momento particularmente difícil na história do conflito israelo-palestino, a tentação poderia ser suspender iniciativas deste género, mas Sarah pensa ao contrário: “Temos de multiplicar estas ações, temos de construir alianças… Esses diálogos não podem ser interrompidos, isso precisa de ser reforçado”.

De resto, o tema dos diálogos pode ser – porque não? – o próprio conflito. “Temos de ser capazes de falar sobre o conflito, é uma obrigação. Mas temos não só de ser capazes de fazer perguntas, como de ouvir, de considerar os pensamentos dos outros e de não saltar imediatamente para as nossas próprias conclusões”, assinalou. Até porque “Israel não vai ter paz e segurança enquanto a Palestina não o tiver, e vice-versa. E francamente… nenhum de vocês terá”, concluiu a responsável, perante uma plateia repleta de diplomatas atentos ao ecrã onde era transmitida a sua intervenção.

E aproveitando que havia conquistado a atenção da audiência, Sarah Bernstein fez questão de acrescentar ainda: “Uma coisa que é muito problemática nesta tarefa é a ausência de mulheres”. Lamentando o reduzido número de mulheres em papéis de liderança na política, na religião, e até entre a plateia do Mafra Dialogues (sendo que ela própria foi a única mulher entre os diversos oradores que integraram os dois painéis dedicados ao diálogo inter-religioso), a mediadora de conflitos alertou: “Não podemos continuar a excluir 50% da população das conversações… As mulheres têm experiências de vida diferentes, têm perspetivas diferentes, e têm de ser ouvidas. Há uma conexão entre o género e o conflito”.

 

“Há extremistas a fazer política às costas da religião”

Rabino Schlomo Hofmeister. Foto DR

“O problema começa quando um lobby no seu próprio interesse denuncia o outro, estigmatiza o outro, e cria uma deriva política”, assinalou o rabino Schlomo Hofmeister. Foto: Direitos reservados

 

Um dos homens que escutava Sarah com a máxima atenção era o rabino Schlomo Hofmeister, da comunidade de Viena, que integrou também o primeiro dos dois painéis dedicados ao diálogo inter-religioso. Presente na majestosa Sala dos Actos Literários, no Palácio Nacional de Mafra, o líder religioso judaico reforçou a ideia que Sarah havia deixado no ar: os conflitos não dizem respeito apenas a quem está a vivê-los na região onde eles ocorrem, e a guerra Israel-Hamas, em particular, “está a ter um efeito devastador em diversas comunidades em todo o mundo”. “O maior desafio que temos, a nível pratico, é prevenir que seja importado para a Europa”, assumiu.

Hofmeister, que faz parte da direção do Conselho de Liderança Judaica Muçulmana, afirmou em Mafra que “não há problema com o facto de, na Europa, as pessoas tomarem partidos” por um lado ou outro do conflito, mas “o problema começa quando um lobby no seu próprio interesse denuncia o outro, estigmatiza o outro, e cria uma deriva política”. Assegurando que “este não é um conflito religioso”, o rabino alertou que “dos dois lados, há quem tente defini-lo como tal. Há extremistas a tentar encontrar justificações religiosas e a fazer política às costas da religião”. E aí as religiões precisam mesmo de entrar em ação. “Porque o fascismo, o nacionalismo, a chamada à violência nunca podem ser justificados pela religião, seja ela qual for… E no momento em que alguém diz isso, nós como líderes religiosos temos de falar mais alto, temos a responsabilidade de denunciar qualquer abuso político da religião”, apelou.

 

Recuperar o respeito pelo direito humanitário

Numa mensagem lida pelo núncio apostólico em Portugal, Ivo Scapolo, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, assinalou por seu lado que “para alcançar a paz, não basta eliminar os instrumentos bélicos e promover um sistema de segurança internacional, é necessário erradicar as causas profundas das guerras: em primeiro lugar a fome, depois a exploração abusiva dos recursos naturais e, relacionada com esta, a exploração das pessoas”.

O diálogo inter-religioso, a proteção da liberdade religiosa, o respeito pelas minorias e a educação, “que é o principal investimento no futuro e nas jovens gerações”, foram também apontados como fatores-chave na obtenção da paz.

Parolin apontou, ainda, o respeito pelo direito humanitário como “único caminho para a tutela da dignidade humana em situações de conflito”. Citando o Papa para lamentar o “enfraquecimento” das estruturas da diplomacia multilateral criadas após a Segunda Guerra Mundial, o secretário de Estado do Vaticano reconheceu que “atualmente, estas estruturas já não conseguem unir todos os seus membros à volta duma mesa, porque existe o risco de fragmentação em ’clubes’ aos quais pertencem apenas os Estados considerados ideologicamente próximos”. Assim, defendeu, “é necessário recuperar as origens, o espírito e os valores que deram origem a estas estruturas”.

A mensagem lida por Scapolo destacava ainda que “a atitude de diálogo e de abertura ao outro como irmão é um dos traços distintivos do pontificado do Papa Francisco”, que “para as situações mais dramáticas e mesmo para a guerra continua a olhar como única chance a amizade social”. Para se avançar num debate sério e construtivo, “é preciso esperar que se passe do ódio e daquela falsa ideia de vitória, que resulta da aniquilação do inimigo, e passar à verdade, bem mais sensata e bíblica, do diálogo e da paz”, defendeu Parolin.

O cardeal recordou então a Jornada Mundial da Juventude que se realizou em Lisboa e que o próprio Papa definiu como ”um grande hino à paz”, em que o testemunho de mais de um milhão de jovens revelou que “a unidade é superior ao conflito” e que “é possível desenvolver uma comunhão nas diferenças”.

Outro bom exemplo é o do Senegal, onde a peregrinação mariana ao Santuário de Popenguine, que abriga uma estátua da Madona Negra desde 1889, particularmente venerada pela comunidade católica senegalesa, revela “a união entre cristãos e muçulmanos”, lembrou Parolin. “O presidente da comissão é um muçulmanos e as mulheres da aldeia, tanto cristãs como muçulmanas, trabalham em conjunto para limpar o santuário”, contou, explicando que isto acontece devido aos “milhares de laços” que existem entre as famílias. “Irmãos e irmãs pertencem a comunidades religiosas diferentes mas cada um vive a sua fé respeitando a dos outros.”

 

O testemunho de um padre sequestrado por jihadistas

Padre Stephen Ojapah fala durante o Mafra Dialogues. Foto Clara Raimundo

O padre Stephen Ojapah falou a partir da Nigéria, país onde tem estado ativamente envolvido na campanha contra o discurso de ódio. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

 

Noutra localidade africana, mais propriamente em Sokoto, no noroeste da Nigéria, a história do padre Stephen Ojapah é outra prova do poder do diálogo. Católico, membro da Sociedade Missionária de São Paulo, foi sequestrado na noite de 25 de maio de 2022 por homens armados ligados a um grupo jihadista que se separou do Boko Haram, e mantido em cativeiro durante 33 dias. “Tive a face da morte à minha frente”, contou, emocionado, através de videoconferência, durante o segundo painel dedicado ao diálogo inter-religioso. “Mas perdoei os meus raptores” e “aprendi que o diálogo continua a ser a única opção que temos para conseguir a paz”.

Obrigado a caminhar dias a fio pelo mato, descalço, sem comida nem água além do que a natureza pudesse providenciar, espancado no fim da viagem até ficar “com o corpo todo em ferida”, o padre Stephen recordou as vítimas que estavam juntamente consigo, entre elas a sua irmã, três membros da sua congregação e um pastor protestante. Havia também um prisioneiro muçulmano, que foi libertado sem qualquer resgate, o que o levou a crer que poderia tratar-se de um espião. Apesar de ter sentido que os muçulmanos jihadistas “veem o extermínio dos cristãos como a sua missão religiosa” e achado que “nunca conseguiria perdoar os raptores”, o presbítero acabou mesmo por transformar as cicatrizes emocionais e psicológicas da sua provação em algo positivo.

“Na altura, um dos bandidos chegou a perguntar-me se havia alguém com quem eu estivesse zangado e se eu queria que me trouxessem essa pessoa… E eu pensei: até quando este ciclo de violência vai continuar?”, partilhou o padre. “Acabei por perceber que tinha de usar o meu ofício para ajudar no diálogo”. Assim, um ano depois da sua libertação, fundou a Iniciativa para Vítimas de Trauma (OTVI), que pretende apoiar pessoas que, como ele, foram sequestradas, e hoje é o diretor do departamento de diálogo inter-religioso na sua diocese, dá aulas de comunicação e diálogo inter-religioso, coordena uma ONG inter-religiosa que concede empréstimos bonificados aos agricultores das zonas rurais e tem estado ativamente envolvido na campanha contra o discurso de ódio na Nigéria. O seu lema de vida é “Quando derrotares alguém, não humilhes a pessoa”.

O padre Stephen tornou-se também, num dos fellows do Centro de Diálogo Internacional – KAICIID, com sede na capital portuguesa e uma das instituições parceiras da organização do Mafra Dialogues.

O seu testemunho mostra como este encontro, promovido pelo Instituto para a Promoção da América Latina e Caraíbas (IPDAL) e pela Câmara Municipal de Mafra, continua a ser – ou é cada vez mais – pertinente. “Um ano depois dos últimos Diálogos de Mafra, a necessidade de promover o diálogo, a coexistência e a unidade continua ainda mais evidente e necessária, numa situação internacional cada dia mais tensa e com conflitos trágicos que permanecem sem solução, causando sofrimento, vítimas e destruição sem fim”, assinalou António de Almeida-Ribeiro, secretário-geral adjunto do KAICIID, logo na abertura do encontro.

E acrescentou: “De facto, e de acordo com a ONU, o mundo enfrenta o maior número de conflitos violentos desde a Segunda Guerra Mundial e dois mil milhões de pessoas – um quarto da humanidade – vivem em locais afetados por tais conflitos. Neste contexto, é importante repensar a forma de alcançar uma paz sustentável. No KAICIID acreditamos que o diálogo é uma ferramenta única que permite transformar a forma como as pessoas e as nações se relacionam e cooperam entre si”.

António de Almeida-Ribeiro fala durante o Mafra Dialogues. Foto Kaiciid

António de Almeida-Ribeiro, secretário-geral adjunto do KAICIID, discursou na abertura do encontro. Foto © KAICIID

 

Lembrando que o Centro defende “a importante necessidade de ligar os intervenientes religiosos e comunitários aos decisores políticos”, o diplomata destacou que é precisamente isso que acontece no Mafra Dialogues. “Só juntos poderemos avaliar os desafios atuais e preparar conjuntamente um caminho sustentável para a paz”, afirmou, aproveitando para assinalar que, já na próxima semana, “o KAICIID organizará o seu Fórum de Diálogo Global em Lisboa”. Um encontro que irá reunir importantes líderes religiosos e políticos, dos quais se espera que vão além das palavras, como pedia Sarah Bernstein. O objetivo é “comprometerem-se a trabalhar em conjunto no diálogo transformativo”, concluiu António de Almeida-Ribeiro.

 

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