Tirso Blanco (1957-2022)

O bispo “todo-o-terreno” de Lwena

| 1 Mar 2022

D. Tirso Blanco, bispo de Lwena, nasceu em Buenos Aires (Argentina) em 1957, chegou a Angola em 1986 e morreu agora aos 64 anos. Foto: Direitos reservados

D. Tirso Blanco, bispo de Lwena, nasceu em Buenos Aires (Argentina) em 1957, chegou a Angola em 1986 e morreu agora aos 64 anos. Foto: Direitos reservados

 

“O bispo todo-o-terreno, o meu incansável bispo que morria de amor por este povo!” – assim D. José Manuel Imbamba, presidente da Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé (CEAST), definiu D. Tirso Blanco, bispo de Lwena, que morreu a 22 de fevereiro aos 64 anos. Nascido em Buenos Aires (Argentina) em 3 de Junho de 1957, chegou a Angola em 1986, trabalhando no Lwena (até 1992), em Ndalatando (até 95) em Luanda (até 2008). Seria bispo do Lwena (o seu primeiro amor em Angola), desde 2008 até à morte, vítima de um galopante cancro no pâncreas.

Chegou ao país quando a guerra era forte e foi um missionário empenhado na educação dos mais jovens, na comunicação, na intervenção social, ou seja, numa pastoral integral. Tinha formação especializada em muitas áreas, desde a Teologia à Missiologia, da Filosofia à Comunicação Social. 

Vanda Carvalho, jornalista da Rádio Ecclesia, traçava assim o seu perfil: “A educação e a defesa do meio ambiente eram algumas das suas lutas. O bispo do Lwena destacou-se muito ao denunciar as más práticas associadas à produção de madeira na região Leste e foi ainda defensor de uma nova visão para o desenvolvimento da província mais extensa do país, Moxico. Defendia inclusive que o primeiro objectivo a concretizar devia ser a recuperação das estradas e vias de acesso internas.”

O seu funeral está previsto para sábado, 5 de Março, em Lwena. O corpo chega a Luanda na sexta, onde será celebrada uma missa na paróquia de São Paulo (onde Tirso Blanco foi pároco) às 10h30. Nessa tarde, seguirá para Lwena, ficando em velório na catedral até à missa exequial de sábado, às 10h30, de onde sairá para o cemitério local. 

“Ipad” e pés descalços
D. Tirso: “Temos de rasgar caminhos de futuro e nestas terras – como no resto do mundo – o futuro passa pela informática!”. Foto: Direitos reservados

D. Tirso: “Temos de rasgar caminhos de futuro e nestas terras o futuro passa pela informática!”. Foto: Direitos reservados

Conheci-o numa das suas passagens por Lisboa. A longa conversa que mantivemos fez-me dar sinais claros de espanto. Ele contava-me o projecto de dar a cada agente de pastoral, lá na sua diocese interior do Lwena, um ipad. Nunca me tinha tal passado pela cabeça. Reagi: “Nem em Luanda se dão a esse luxo!” Reacção pronta: “Luxo? Fica muito mais barato e é muito mais prático dar um ipad que uma bíblia, um catecismo e toda a documentação para uma pastoral moderna e eficaz.” Fiquei mudo e ele completou: “Vais agora perguntar-me como carregam os ipad numa terra onde não há eletricidade?” Respondi: “Ah pois é, como vai ser isso?” Resposta pronta, acompanhada de um sorriso irónico: “Pois faz parte do projecto uma pequena placa solar para gerar energia!” Fiquei fascinado. Mas ele completou: “Temos de rasgar caminhos de futuro e nestas terras – como no resto do mundo – o futuro passa pela informática!”

Mas este bispo missionário, que deixou Luanda para ir até ao Lwena, no centro-leste de Angola, foi um trabalhador incansável pelo progresso daquele povo a quem a guerra e o abandono político atiraram para uma pobreza enorme. Por isso, não são de estranhar as muitas fotos agora publicadas que mostram o bispo com troncos às costas para retirar o jeep dalgum pântano onde ficara imobilizado, a andar descalço, a confessar debaixo de alguma árvore ou a trabalhar com o seu computador num terreiro qualquer de aldeia! Mas circulam, sobretudo, fotos de celebrações e encontros com o povo nas muitas visitas pastorais e iniciativas que fizeram do Lwena uma terra onde o cristianismo cresce cada dia que passa. A imagem de marca deste bispo é mesmo a felicidade que nasce duma fé profunda e de uma clara opção pelos mais pobres.

A imagem de marca de D. Tirso é mesmo a felicidade que nasce duma fé profunda e de uma clara opção pelos mais pobres. Foto: Direitos reservados

A imagem de marca de D. Tirso é mesmo a felicidade que nasce duma fé profunda e de uma clara opção pelos mais pobres. Foto: Direitos reservados

Até romper o anel

A CEAST, em nota oficial, apresenta D. Tirso como “um exímio pregador do Evangelho, com constantes apelos à Justiça Social. Era defensor dos pobres, dos injustiçados e dos oprimidos. Dom Tirso Blanco, foste um Missionário Peregrino incansável!”. D. Zacarias Kamwenho, Prémio Sakharov dos Direitos Humanos, foi quem ordenou bispo D. Tirso, a quem apelidou de “homem de Deus”. 

José Manuel Imbamba, natural do Lwena, conheceu-o ainda como seminarista e testemunha: “Um bispo que eu chamava todo-o-terreno, o meu bispo, aquele que percorreu distâncias e distâncias, e até o anel rompeu de tanto conduzir, um bispo que morria de amor por este povo, que queria ver desenvolvido, que queria ver incluído nos grandes projectos de desenvolvimento, nos grandes sonhos de oportunidades, nas grandes conquistas da justiça social.” 

D. Maurício Camuto, bispo do Caxito e ex-director da Rádio Ecclesia, testemunha também ao 7MARGENS: “Um homem irrequieto de voz inquieta, diante do qual os problemas e dificuldades fugiam. As distâncias superadas pelo olhar e vontade de chegar lá onde estavam os seus cristãos, as suas ovelhas queridas. Toda a diocese era a sua casa.” E acrescenta, descrevendo: “Em qualquer sítio podia parar, sentar-se e trabalhar. A sua viatura conhecia cada curva ou recta, cada subida ou descida das longas e esburacadas estradas. Pois para ele o impossível já era, não existia. Não havia tempo a perder com descanso, isso era sempre para depois.” 

O bispo Camuto diz ainda, sobre a morte de D. Tirso: “Partiu ao encontro daquele que o chamara a ir ao encontro dos pobres e esquecidos da Lixeira, de Luanda, do Lwena, do Luau, do Cazombo, de Angola. Era um 4×4! Um todo-o-terreno incansável! Deixou órfãos aos milhares. Deixou mais pobre a Igreja de Angola. Deixou-nos com sede das suas mensagens.”

Voz dos sem voz nem vez

O padre David Mieiro, dehoniano a trabalhar no Luau, diocese do Luena, partilhou também as suas memórias com o 7MARGENS: “O bispo D. Tirso foi um clarão. Como bom aprendiz da escola de Dom Bosco foi mestre da juventude que o chamou de ‘eterno jovem’. Pastor dedicado, aventureiro e destemido anunciador do Evangelho até aos confins da terra (na sua amada diocese de Lwena) como ordenou o próprio Jesus aos seus discípulos. Foi a voz firme e sensata no meio de uma multidão silenciosa e silenciada. Voz dos sem voz nem vez.”

David Mieiro, jovem missionário português, nascido em Paredes (Baltar) em 1984, acrescenta: “Foi um clarão defensor da justiça social, da paz e do diálogo para conquistar a tão desejada dignidade te toda a pessoa humana. Se lhe recomendavam descanso dizia: ‘para que eu descanse, vós tendes de trabalhar; trabalhemos então!’ O povo amava o seu bispo.”

Estiveram presentes, na Igreja Paroquial de Negrar, em Verona, cerca de duas centenas de angolanos, incluindo os embaixadores junto da Santa Sé e do Estado italiano. Foto © Tony Neves

Bispo morreu em Verona. Na missa em sua homenagem estiveram presentes, na Igreja Paroquial de Negrar, cerca de duas centenas de angolanos, incluindo os embaixadores junto da Santa Sé e do Estado italiano. Foto © Tony Neves.

 

O bispo Tirso morreu num hospital de Verona, Itália, fundado pela Congregação dos Calabrianos. Fui de Roma a Verona, com a comunidade angolana, a 26 de fevereiro, para prestar uma homenagem a este missionário. Estiveram presentes, na Igreja Paroquial de Negrar, cerca de duas centenas de angolanos, incluindo os embaixadores junto da Santa Sé e do Estado italiano. 

Concelebraram o cardeal Eugénio dal Corso (bispo emérito de Benguela) e o bispo local, bem como o provincial dos salesianos. D. José Nambi, bispo do Kuito Bié, presidiu à missa de corpo presente e resumiu assim a vida e missão de Tirso Blanco: “Foi um bom pastor, um bispo simples, inculturado, um homem do povo, atento aos seus problemas, alguém formado em comunicação que soube utilizar bem os media.” Concluiu: “Soube denunciar o que estava mal e fazer muitos projectos para desenvolver esta imensa região. Visitava as comunidades. Mesmo que levasse dias a fazê-lo.” 

Usando como exemplo umas das fotos muito divulgada nas redes sociais, comentou: “Vemos um bispo com um tronco de árvore aos ombros para reconstruir uma ponte e fazer o jipe passar. É uma boa imagem: ele foi um construtor de pontes, ele apoiou as crianças de rua, ele tentou recuperar dependentes do álcool, tentou cimentar as famílias, dar formação e capacitações aos jovens, empenhou-se na construção de um mundo melhor.”

 

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Jesuíta morreu aos 80 anos

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador novidade

Por onde passou lançava projectos, dinamizava equipas, deixava-as a seguir para partir para outras aventuras, sempre com a mesma atitude. Poucos dias antes de completar 80 anos, no passado dia 2 de Junho, dizia na que seria a última entrevista que, se morresse daí a dias, morreria “de papo cheio”. Assim foi: o padre jesuíta António Vaz Pinto, nascido em 1942 em Arouca, 11º de 12 irmãos, morreu nesta sexta-feira, 1 de Julho, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde o dia 8, na sequência de um tumor pulmonar que foi diagnosticado nessa altura.

Abusos sexuais: senti que não acreditavam em mim

Testemunho de uma vítima

Abusos sexuais: senti que não acreditavam em mim novidade

Na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que decorreu quinta-feira, 30 de junho, em Lisboa, foram lidos três testemunhos de vítimas de abusos, cujo anonimato foi mantido. Num dos casos, uma mulher de 50 anos fala do trauma que os abusos sofridos lhe deixaram e de como decidiu contar a sua história a um bispo, sentindo ainda assim que a sua versão não era plenamente aceite como verdadeira.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

De 1 a 31 de Julho

Helpo promove oficina de voluntariado internacional

  Encerram nesta sexta-feira, 24 de Junho, as inscrições para a Oficina de Voluntariado Internacional da Helpo, que decorre entre 1 e 3 de Julho. A iniciativa é aberta a quem se pretenda candidatar ao Programa de Voluntariado da Organização Não Governamental para...

Doação de ara romana reforça espólio do Museu D. Diogo de Sousa

Ocaere, divindade autóctone

Doação de ara romana reforça espólio do Museu D. Diogo de Sousa novidade

A doação de uma ara votiva romana guardada ao longo de várias décadas pela família Braga da Cruz, de Braga, enriquece desde esta sexta-feira, dia 1, o espólio do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa (MADDS), estando já exposta para fruição do público. A peça, que passou a integrar a coleção permanente daquele Museu, foi encontrada num quintal particular no município de Terras de Bouro, pelo Dr. Manuel António Braga da Cruz (1897-1982), que viria, depois, a conseguir que o proprietário lha cedesse.

Capelania da Univ. Coimbra: Promover o encontro entre ciência e espiritualidade, entre crentes e não-crentes

Contributos para o Sínodo (25)

Capelania da Univ. Coimbra: Promover o encontro entre ciência e espiritualidade, entre crentes e não-crentes novidade

Organizar iniciativas de diálogo com não-crentes e crentes de outras religiões, abrindo a Igreja à sociedade e fazendo dela um motor do progresso social e da comunhão humana; assumir a dimensão da Sinodalidade como verdadeira abertura ao século XXI; e promover o encontro entre a ciência e a espiritualidade, sempre possível, cria pontes da Igreja com as instituições de Ensino Superior – estas são algumas das propostas da comunidade da Capelania da Universidade de Coimbra, em resposta à maior auscultação alguma vez feita à escala planetária, lançada pelo Papa Francisco, para preparar a assembleia do Sínodo dos Bispos de 2023.

Alter do Chão recebe recital de voz e piano

Festival Terras sem Sombra

Alter do Chão recebe recital de voz e piano novidade

O Cineteatro de Alter do Chão acolhe este sábado, 2 de julho, pelas 21h30, um recital da soprano Carla Caramujo e da pianista Lígia Madeira, no âmbito do Festival Terras sem Sombra (FTSS). Intitulado “O Triunfo da Primavera: Canções de Debussy, Poulenc, Fragoso, Lacerda, Schubert e Wolf”, o concerto promete levar o público a diferentes geografias musicais, do século XIX ao período contemporâneo.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This