Publicado originalmente em 1954, O Deus das Moscas, de William Golding, é uma obra marcante que mantém a sua relevância até hoje. A sinopse, que consta na contracapa do livro, descreve-o como um romance perturbador:
“Um avião despenha-se numa ilha deserta, e os únicos sobreviventes são um grupo de rapazes. Inicialmente, desfrutando da liberdade total e festejando a ausência de adultos, unem forças, cooperando na procura de alimentos, na construção de abrigos e na manutenção de sinais de fogo. Porém, à medida que o frágil sentido de ordem dos jovens começa a fraquejar, também os seus medos começam a tomar sinistras e primitivas formas. De repente, o mundo dos jogos, dos trabalhos de casa e dos livros de aventuras perde-se no tempo. Agora, os rapazes confrontam-se com uma realidade muito mais urgente – a sobrevivência – e com o aparecimento de um ser terrível que lhes assombra os sonhos.”
“Perturbador” é, de facto, o adjetivo mais apropriado. Incomoda-nos a forma como as personagens, crianças e jovens, reproduzem comportamentos adultos, desde a organização social à distribuição de tarefas, à nomeação de líderes e à disputa pelo poder. Mas o que mais assombra é a maneira como estas crianças revelam o melhor e o pior da humanidade no início das suas vidas.
A leitura leva-nos a refletir sobre como o contexto e os laços que criamos nos moldam – ora de forma altruísta, ora de maneira perversa. É inevitável: o poder manifesta-se, seja de forma maquiavélica, pela força ou pela legitimidade.
A narrativa explora o medo, a cobardia e as complexidades da coragem: “Tenho medo dele – disse Piggy – e é porque o conheço. Quando se tem medo de alguém, odeia-se essa pessoa, mas não se consegue parar de pensar nela. Enganas-te a ti mesmo ao dizer que ela não pode ser assim tão má, mas quando voltas a vê-la é como se tivesses asma… não consegues respirar.”
Porém, também nos transmite coragem e esperança: “Vou ter com ele com este búzio nas mãos. Vou levantá-lo bem à vista. Olha, é o que vou dizer: és mais forte do que eu e não tens asma. Consegues ver, dir-lhe-ei, e com ambos os olhos. Mas não vou pedir que me devolva os óculos, não como um favor. Não te peço que sejas bom rapaz, dir-lhe-ei, mas porque o que é justo é justo.”
Perguntas como estas assaltaram-me ao longo da leitura: “Mas isto não acaba?”, “Que crianças são estas?”, “Alguém as salva?”. Inconscientemente, esperava que os adultos, ou uma intervenção divina, trouxessem bom senso e humanidade à história. Contudo, o mal aumentava. Alguns daqueles jovens deixaram de o ser e transformaram-se em selvagens.
Quando terminei a leitura, senti um vazio. Ficaram pensamentos e sensações a pairar. Compreendi que, por mais apertado que o meu coração estivesse pela intensidade da narrativa, a história não está despida de humanidade. Pelo contrário, apresenta as múltiplas faces da nossa condição, relembrando-nos a fragilidade da vida e o constante equilíbrio entre o bem e o mal. Nenhum valor está garantido.
É fantástico o poder de um livro nos abstrair de tal forma que nos faz perder a noção do tempo e inclusive da nossa saída na estação de metro. A distração acaba por trazer a alegria de ter tempo para ler mais umas páginas no caminho de regresso.
Este livro foi uma leitura adiada, mas acredito que muitos de nós se reconhecem em interrupções deste género: pegar, largar e, por vezes, retomar anos depois. Há temas, estilos de escrita, personagens e cenários que ganham maior significado e ressonância em momentos específicos da nossa vida. Este livro é um exemplo perfeito desse fenómeno.
Recomendo a sua leitura, mas não sou só eu a recomendá-lo. Este é um dos livros incluídos no Plano Nacional de Leitura. Recentemente, foi publicada uma edição com uma ilustração maravilhosa, em banda desenhada, que acredito que convença até os mais avessos à leitura.
O Deus das Moscas
Autor: William Golding
Tradução: Manuel Marques
Edição BIS (edição de bolso), €7,50.
O Deus das Moscas
Romance gráfico de William Golding e Aimée de Jongh
Edições Asa, € 30.
Marta Cerqueira é antropóloga de formação académica, trabalha na área da educação, crê em Deus e na humanidade (mesmo nos dias mais difíceis).










