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cónego Aníbal João Folgado. Foto: DR

Cem anos do cónego Aníbal Folgado

O homem pouco interessado em si mesmo

 

Cem anos após o seu nascimento, uma evocação do legado social, europeu e profundamente humano do cónego Aníbal João Folgado (1926-2010).

 Assinalam-se cem anos sobre o nascimento do cónego Aníbal João Folgado, ocorrido a 8 de Junho de 1926, em Picote, no concelho de Miranda do Douro. Um século depois, o seu nome permanece ligado a algumas das mais importantes iniciativas pastorais e sociais desenvolvidas na Diocese de Bragança-Miranda durante a segunda metade do século XX.

Ordenado presbítero em 1949, Aníbal Folgado pertenceu a uma geração que atravessou profundas transformações na Igreja e na sociedade portuguesa. A sua formação em Filosofia e Pedagogia, realizada na Universidade de Lyon, colocou-o em contacto com correntes renovadoras do pensamento católico europeu, experiências que contribuíram para moldar uma visão pastoral marcada pela valorização da pessoa humana, pela educação e pela promoção social.

Ao longo do seu percurso desempenhou funções diversificadas: professor, formador, director espiritual, reitor de seminário, responsável diocesano, missionário junto das comunidades emigrantes e pároco. Contudo, qualquer enumeração de cargos seria insuficiente para compreender a singularidade da sua acção.

Durante quase uma década acompanhou as comunidades portuguesas emigradas na Alemanha, particularmente na região de Bona. Num período em que milhares de portugueses procuravam melhores condições de vida longe da sua terra natal, Folgado encontrou uma realidade marcada pela distância, pela saudade e pela fragilidade social. A sua presença junto dos emigrantes foi muito mais do que assistência religiosa: constituiu um apoio humano, cultural e comunitário num contexto frequentemente difícil.

 “A implantação da Obra Kolping em Portugal, iniciada em meados da década de 1980, representou uma das suas realizações mais significativas.” Foto do site da Obra Kolping.

Regressado a Bragança, assumiu responsabilidades de relevo na vida diocesana, mas foi sobretudo no campo da intervenção social que deixou algumas das marcas mais duradouras. A implantação da Obra Kolping em Portugal, iniciada em meados da década de 1980, representou uma das suas realizações mais significativas. Inspirada no pensamento social cristão de Adolph Kolping, esta instituição procurava conjugar formação humana, qualificação profissional, dinamização comunitária e evangelização, respondendo às necessidades concretas das populações.

Poucos anos mais tarde, a criação da Fundação Betânia revelou novamente a sua capacidade de antecipar problemas e construir respostas. Numa região confrontada com o envelhecimento populacional, a desertificação e a fragilidade das redes familiares, a Fundação nasceu para acolher idosos, apoiar famílias e promover uma cultura de cuidado e dignidade. Não se tratava apenas de prestar assistência, mas de criar condições para que cada pessoa fosse reconhecida na sua humanidade e valor.

Ao mesmo tempo, Folgado manteve um forte compromisso com sectores frequentemente esquecidos ou marginalizados. O trabalho desenvolvido junto das comunidades ciganas, a atenção aos mais pobres, o acompanhamento das crianças e dos idosos e a preocupação constante com a formação humana e espiritual testemunham uma visão da Igreja profundamente enraizada na proximidade.

Quem com ele conviveu recorda não apenas o padre ou o responsável institucional, mas sobretudo o homem. Discreto, simples, avesso ao protagonismo e que parecia pouco interessado em si mesmo. Toda a sua vida, aliás, poderia ser resumida numa simples opção linguística: preferiu sempre o “nós”. A autoridade que exercia não nascia da imposição, mas da confiança que inspirava. Escutava mais do que falava, deixando a suspeita de que a atenção é, afinal, uma das formas mais raras e necessárias da caridade.

Em 2009, a Câmara Municipal de Bragança distinguiu-o com a Medalha Municipal de Mérito, reconhecendo publicamente décadas de dedicação à comunidade. A homenagem traduzia um sentimento amplamente partilhado: o de que a sua vida ultrapassava largamente os limites da acção paroquial ou eclesiástica, integrando-se na própria história social da cidade e da região.

O seu legado mais profundo não se encontra, porventura, nos edifícios, nas instituições ou nas distinções recebidas, mas nas memórias daqueles que o conheceram, nos percursos que ajudou a transformar e nas estruturas que continuam a servir muito para além do seu fundador.

Face ao individualismo e à fragmentação social, a vida de Aníbal Folgado recorda que a fé pode tornar-se força de transformação colectiva quando se traduz em serviço, proximidade e compromisso concreto com a dignidade humana.

 

Henrique Manuel Pereira é professor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa – Porto

 

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