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[Entre Margens]

O humanismo de Marx e de Jesus

| 16/08/2026

 

Hoje, invocar Karl Marx (1818-1883) não parece uma decisão acertada. Marx não está na moda, nem no circuito das passarelas políticas. Foi industriosamente suplantado pelos atuais opinion makers que se movimentam no interior do mundo capitalista. Logo após a queda do bloco soviético (1989), declarou-se o “fim da história”. O capitalismo reinava agora, em toda a sua plenitude, sem qualquer outro sistema que lhe pudesse fazer frente. Mesmo reconhecendo os desastres do capitalismo, parecia não haver qualquer alternativa viável.

No entanto, nem Marx pode ser confundido com o que fizeram em seu nome durante o século XX, nem há qualquer sistema humano definitivo. O ser humano é o obreiro da história. Pode alterar-lhe os contornos, modificar a sua organização e suplantar sistemas que se mostraram cruéis. Também pode produzir a barbárie, se assim o entender. É, por isso, que Marx é hoje tão atual como no tempo em que por aqui viveu.

 

O ateísmo

John Jabez Edwin Mayall (1813–1901): Karl Marx (1818-1883), Instituto Internacional da História Social, Amesterdão. Foto © Roger Viollet | Wikimedia Commons

Normalmente, Marx está muito associado ao ateísmo militante. Que Marx era ateu não restam dúvidas. Mas qual a razão do seu ateísmo? A resposta a esta pergunta é tão essencial como a mera constatação da sua conceção antirreligiosa. Ao observar o fenómeno religioso, sobretudo na Europa do seu tempo, verificou que a religião era sobejamente usada pelas classes dominantes para subjugar as classes trabalhadoras, incutindo nelas a esperança de um futuro melhor após a morte se aceitassem a condição de sofrimento resultante da exploração económica a que eram sujeitas. A religião era, portanto, um instrumento de manipulação do povo, submetido às mais abjetas condições de trabalho e de vida, com vista a conter a sua justificada revolta. O deus de que Marx era ateu era o deus dos poderosos, um mero instrumento de submissão das classes mais vulneráveis. Afinal, todos temos obrigação moral de ser ateus de uma tal autoridade despótica!

 

O objetivo da crítica marxista

 

Se quisermos ser honestos na análise das ideias de Marx, temos de perceber o que pretendia ele. Sem dúvida que a finalidade última da teoria marxista é a formação de uma sociedade mais justa, onde todos sejam cidadãos ativos e emancipados; uma sociedade sem exploradores nem explorados (e, portanto, sem classes sociais proprietárias dos meios de produção), onde todos possam escrever o futuro pessoal e coletivo; uma sociedade autenticamente democrática e livre, a que ele chamou sociedade comunista. O desejo de Marx era profundamente humanista. Não se resignava com a sociedade em que vivia, na qual a grande maioria apenas conseguia sobreviver, enquanto era excluída da vida coletiva.

No entanto, nunca se dedicou a estabelecer os pormenores dessa sociedade futura. Sabia onde queria chegar e quais as condições humanas que tal sociedade deveria apresentar, mas não se ocupou da definição dos aspetos técnicos da sua organização. Preferiu dedicar-se à crítica da organização económica vigente: a economia capitalista.

 

O materialismo

Refugiados. Roma. Praça S. Pedro

“É por isso que, dando apenas um mero exemplo, as pessoas emigram ou procuram refúgio onde possam viver de forma mais humana, quando as condições que lhes são oferecidas no seu local de origem não se mostram suficientes. Esta forma “materialista” de pensar a sociedade não é, de todo, incompatível com o cristianismo, antes pelo contrário. Foto: Escultura de Timothy Paul Schmalz, em bronze dedicada aos migrantes e refugiados. © Teresa Vasconcelos

O materialismo de Marx costuma ser apontado como um aspeto que se opõe à conceção cristã da vida. Embora haja verdade nesta apreciação, o que é determinante na teoria de Marx não é o seu materialismo absoluto (que decerto se torna inaceitável para o cristianismo), mas a intuição certeira de que as pessoas se comportam de acordo com os seus interesses materiais e as sociedades se organizam de acordo com os interesses materiais das classes dominantes. Esta perspetiva é facilmente constatável por qualquer observador minimamente imparcial. As condições materiais em que vivemos determinam a nossa atitude perante a vida e os comportamentos que daí decorrem. É por isso que, dando apenas um mero exemplo, as pessoas emigram ou procuram refúgio onde possam viver de forma mais humana, quando as condições que lhes são oferecidas no seu local de origem não se mostram suficientes. Esta forma “materialista” de pensar a sociedade não é, de todo, incompatível com o cristianismo, antes pelo contrário.

 

O centro da pregação de Jesus

Carl Bloch . Sermão da Montanha

Carl Bloch (1834–1890): Sermão da montanha. Museu de História Nacional no Castelo de Frederiksborg, Dinamarca. Wikimedia Commons

E é assim que estabelecemos naturalmente um paralelo com o profeta Jesus de Nazaré, outro humanista que a história regista como origem espiritual do movimento cristão. É consensual entre os historiadores que o centro da doutrina de Jesus era o Reino de Deus. Dão conta disso, as próprias palavras de Jesus (“Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho”: Mc 1,15), mas também as parábolas que constituíam o principal veículo da sua pregação.

O que era, para Jesus, o Reino de Deus? Tal como Marx, também Jesus não perde tempo em definir esta sociedade futura. Reconhece-lhe os contornos humanos, mas não sabe como irá funcionar concretamente. Ao contrário do que se possa pensar hoje, o Reino de Deus não se pode confundir com a vida após a morte. Para Jesus (e nisto ele era totalmente judeu), o Reino de Deus será uma nova organização da vida coletiva a partir dos parâmetros de Deus, mas aqui na Terra. Que parâmetros serão esses? E é aqui que verificamos a coincidência entre o pensamento de Jesus e o de Marx. Na nova ordem do mundo não haverá lugar à distinção entre ricos e pobres, entre poderosos e submissos, nem haverá lugar à exclusão (os pobres, os incapacitados, os “pecadores”, as prostitutas, os estrangeiros terão igual lugar à mesa do Reino). Será uma sociedade em que os poderosos serão derrubados dos seus tronos e os humildes serão exaltados, os indigentes serão saciados de bens e os ricos, despedidos de mãos vazias (Lc 1, 52-53). O Reino é, portanto, o banquete da abundância onde todos os seres humanos, sem qualquer distinção, têm lugar. É uma comunidade fraterna na qual não há qualquer espécie de exclusões, nem hierarquias ou privilégios (o que é tardiamente contratado para trabalhar ganha o mesmo que o que começou a trabalhar de manhã cedo: Mt 20, 1-16).

 

A comunidade primitiva de Jerusalém

As comunidades primitivas judeo-cristãs perceberam bem o que Jesus queria dizer com a expressão Reino de Deus. Foi por isso que procuraram formar (não sabemos se com sucesso) comunidades deste género logo após a morte de Jesus: “Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um” (At 2, 44-45; 4, 32-34). Será necessário apontar semelhanças com a descrição da sociedade comunista que Marx profetizava?

 

Diferença na forma, coincidência no conteúdo

A diferença entre Jesus e Marx coloca-se ao nível do tipo de linguagem usado. Enquanto Jesus usa a linguagem tipicamente religiosa, Marx recorre às modernas ferramentas das ciências sociais e humanas do seu tempo. Mas o objetivo de cada um deles é perfeitamente coincidente. Essa é a razão pela qual o cristianismo e o marxismo se deveriam aliar com vista à criação dessa nova ordem mundial, regional e local por que todos ansiamos e a que todos temos direito. Não há atitude mais contrária à perspetiva de Jesus do que a resignação de quem acha não haver alternativa ao capitalismo e à sua atitude predatória.

Infelizmente, há uma forte tendência conservadora que reduz o cristianismo a um anódino laboratório de orações e espiritualidades desenraizadas do quotidiano. Uma tal visão do cristianismo serve apenas a manutenção do statu quo e, tal como no tempo de Marx, é um insulto às palavras e ao comportamento do profeta galileu que não apenas anunciou sem temor a nova ordem mundial como calcorreou incansavelmente a região da Palestina durante a sua curta vida para reunir esforços nesse mesmo sentido. A sua pregação foi tão revolucionária para o I século da nossa era como o é hoje, porque o Reino de Deus está longe de ser uma realidade e a exploração, a exclusão, a pobreza e as profundas assimetrias cavam sepulturas incompatíveis com os sonhos mais legítimos da humanidade.

 

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

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