O novo santo português inspira a defesa dos mais desfavorecidos, diz arcebispo de Braga

| 10 Nov 19 | Destaques, Newsletter, Últimas

Fr. Bartolomeu dos Mártires na versão do livro “A Luz de um Santo”, editado pelo Secretariado da Catequese da diocese de Viana do Castelo e a paróquia de Nossa Senhora de Monserrate.

 

O novo santo português, frei Bartolomeu dos Mártires – que neste domingo, 10 de Novembro, terá a sua canonização formalizada – é uma inspiração para a defesa dos mais desfavorecidos da sociedade, ainda hoje, defende D. Jorge Ortiga, actual sucessor do antigo arcebispo de Braga.

“O cuidado que ele teve com os pobres, com os mais necessitados… Há tantos momentos da sua vida na relação com os mais abandonados, com os mais marginalizados. É muito fácil encontrarmos elementos que possam, na verdade, ser um estímulo para os cristãos, adultos e jovens, para caminhar de uma maneira nova, mais comprometida na Igreja e na sociedade”, diz D. Jorge Ortiga, numa entrevista à Rádio Renascença e agência Ecclesia.

Bartolomeu dos Mártires, frade dominicano e arcebispo de Braga, nasceu em Lisboa em 1514 e morreu em Viana do Castelo, em 1590. Ficou conhecido sobretudo pela sua preocupação com a reforma da Igreja, que o levou a dizer, no Concílio de Trento, que também os cardeais precisavam de uma “ilustríssima e reverendíssima reforma”, num episódio que frei Luís de Sousa contaria na biografia que sobre ele escreveu. Mas também a sua atenção aos mais pobres e doentes marcou a sua acção como arcebispo, a partir de 1558, quando foi nomeado.

A sua canonização foi decidida em Julho pelo Papa Francisco, dispensando o milagre necessário normalmente para este tipo de causas. O decreto da canonização será lido na Sé de Braga neste domingo, numa celebração presidida pelo cardeal Angelo Becciu, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, a partir das 15h30.

 

Emendar o mundo, mas começar por limpar a Igreja

 

Beatificado por João Paulo II a 4 de Novembro de 2001, Bartolomeu dos Mártires destacou-se pela austeridade de vida e preocupação com os mais pobres, como exímio teólogo e formador do clero, e por ser um dos mais notáveis participantes na última sessão do Concílio de Trento (1561-1563). Foi precisamente numa das sessões conciliares, em que se discutia se os cardeais também precisavam ou não de reformas, que Bartolomeu dos Mártires contrariou a opinião de muitos dos seus pares e afirmou: “Os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais hão mister [precisam de] uma ilustríssima e reverendíssima reformação.”

Justificando o seu voto, o arcebispo de Braga defendia que o Concílio se reunira para “emendar o mundo e purificá-lo de vícios”, como conta frei Luís de Sousa na Vida do Arcebispo. Por isso, convinha começar por “limpar o ouro da Igreja, que era o estado eclesiástico, que estava escurecido com costumes depravados e delícias e pompas e com muitos vícios que daqui brotavam”.

O Concílio é chamado a dizer se os cardeais deveriam ser incluídos na lista das instituições a reformar. Depois da sua resposta positiva, Bartolomeu dos Mártires usa a ironia para se justificar: “Visando com muita segurança por onde estavam os cardeais legados e fazendo uma mui cortês inclinação, disse com voz grave e sonora: Vossas senhorias ilustríssimas são as fontes donde todos os prelados bebemos e portanto convém que esta água esteja mui limpa e pura.”

Aliás, numa outra petição que fez no Concílio de Trento, acrescentava, sobre a eleição do Papa: “Eleja-se uma pessoa irrepreensível, e não apenas de entre os cardeais, porque muitas vezes os cardeais se criaram entre vaidades e prazeres.

Bartolomeu dos Mártires também defendeu em várias das suas 32 obras que o celibato eclesiástico não era uma regra de direito divino, mas da tradição e da disciplina da Igreja Católica. Teófilo Braga, escritor e chefe de Estado na I República, vulgarizou uma história segundo a qual o arcebispo teria defendido em Trento a abolição do celibato para os padres do Barroso, castigados pela solidão e pelo isolamento. Mas os biógrafos de frei Bartolomeu, não negando as ideias do arcebispo sobre o tema, contestam esse facto.

O frade dominicano Raul Rolo, historiador e biógrafo do antigo arcebispo de Braga, considerou que a história de que Bartolomeu dos Mártires teria defendido a excepção do celibato para os padres do Barroso será uma “aleivosa infâmia”. Apesar disso, este investigador sublinhava que o celibato não tinha, para frei Bartolomeu, a força de direito divino: “A castidade não é da essência do estado sacerdotal, mas apenas de conveniência”, escreveu Bartolomeu dos Mártires.

Já a crise e a profunda ignorância em que se encontrava a maior parte do clero do seu tempo eram uma das preocupações fundamentais do arcebispo. Escreve o seu mais importante biógrafo, o também frade dominicano Raul Rolo (Dicionário de História da Igreja em Portugal, vol. II): “Considerando como principal raiz da grave crise da Igreja no seu tempo a falta de zelo pastoral dos bispos e a inabilidade do clero, dedicou-se afincadamente, não só à sua missão pastoral, mas também à reforma moral e elevação do clero.”

 

Pressões para moderar a austeridade

 

À conta dessa preocupação, o arcebispo deixou na diocese (que abrangia o Minho e Trás-os-Montes), à data da sua renúncia ao cargo, em 1581, escolas com mais de 400 alunos, além de 1100 colegiais em classes de humanidades, filosofia e “casos de consciência”. A maior parte desses alunos orientava-se para a ordenação, o que contribuiu decisivamente para renovar o clero da diocese. Mas a sua preocupação chegava também ao nível material, através da partilha de bens dos padres mais ricos com os mais pobres.

Um objectivo que se estendia a todos os necessitados, o que lhe valeu, à data da sua morte, em Viana do Castelo, em 1590, ser já conhecido como “arcebispo santo” ou “pai dos pobres e dos doentes”. Bispos e padres, considerava frei Bartolomeu, eram meros administradores dos bens da Igreja, destinados a evangelizar e a socorrer os pobres. A simplicidade e austeridade de vida eram regra de vida pessoal, o que lhe valeu visitas de bispos e superiores no sentido de moderar o rigor. Sem resultado.

Destinava parte da comida que lhe punham à mesa para os famintos, afirmando que em casa era ele o estranho “e os pobres os verdadeiros e naturais senhores”. Nas visitas às paróquias, registava as necessidades, mandando mais tarde roupa ou comida. No próprio Concílio de Trento (que impulsionou a renovação do catolicismo, em resposta à Reforma protestante), defendeu que os bispos deveriam destinar aos pobres o que sobrasse do sustento pessoal e da Igreja.

No Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais, escrevia a este propósito que a caridade limpa a escória: “Quanto tens de caridade, tanto tens de santidade e virtude. Se tens grande caridade, és grande santo e justo; se tens pequena, assim tens pequena santidade e justiça. (…) tanto que entra o divino fogo da santa caridade, vai alimpando toda esta escória e fezes, renova tudo, aclara e afermosenta tudo, gera santas lembranças, pensamentos, e saudades, e ardentes desejos de Deus e das coisas eternas. E assim fica a nossa alma formosa, lançando raios e feita mui semelhante a Deus.”

Numa carta escrita de Trento (para onde viajou de mula), considerava-se “despenseiro da fazenda dos pobres”. Mas o episódio mais marcante nesta dedicação foi na peste de 1570, quando se envolveu pessoalmente na assistência aos doentes. Apesar dos riscos de contágio e das insistências do Rei, D. Sebastião, e do cardeal D. Henrique, para que saísse de Braga, frei Bartolomeu considerava seu dever “socorrer todos e não desamparar nenhum” dos doentes, como nota frei Luís de Sousa na biografia Vida do Arcebispo.

Reformador, um dos “grandes restauradores da teologia portuguesa no século XVI”, na expressão de frei Rolo, a sua acção notou-se tanto em Trento como em Braga. No concílio, fez uma proposta de reforma da Igreja em 182 artigos e os historiadores contemporâneos consideram-no “o maior padre conciliar”.

 

Mais reformas do que dogmas

 

A Igreja e o mundo todo estavam muito mais precisados da reforma do que de dogmas, dizia. De tal modo que é ele o principal autor do decreto sobre a reforma (De Reformatione, votado no final do Concílio de Trento, em 3 de Dezembro de 1563), com 42 artigos, o pilar da reforma católica perante o luteranismo.

Regressado a Braga, frei Bartolomeu começa a pôr em prática os princípios do Concílio. Inicia visitas pastorais a todas as paróquias, mesmo as mais isoladas. Nesse trabalho nota “a falta de doutrina, tanto nos doutrinados como nos doutrinantes”, segundo frei Luís de Sousa. Além de “muitos sacerdotes idiotas [ignorantes] e poucos idóneos, alguns viciosos e, ainda assim, maus de contentar”.

Para contrariar esta realidade, manda traduzir textos de doutrina, escreve o Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais (15 edições em 200 anos) que, com o Stimulus Pastorum (“Estímulo dos Pastores”), é uma das suas obras principais. E funda, em 1572, em Braga, o primeiro seminário do mundo, que ainda hoje mantém o nome de Seminário Conciliar, herdado da reforma tridentina. No Stimulus Pastorum, escrevia mesmo: “Que coisa mais indigna de um bispo do que afanar-se pelos móveis e bens da sua casa, indagar tudo, inquirir de tudo, roer-se de suspeitas, deixar-se arrastar por coisas loucas e vãs? Digo isto para vergonha de alguns que todos os dias examinam os seus haveres, tudo contam, e de tudo exigem contas minuciosas até ao último ceitil. (…) ignoramos os danos do rebanho do Senhor, mas examinamos diariamente os nossos gastos (…).”

Em 1566, inaugura o IV concílio provincial, onde o movimento de contestação às reformas se manifesta, com os cónegos dos cabidos à frente. O movimento reformador em que se empenha o arcebispo só a custo, e depois de três acordos com os cabidos, concluídos em 1573, se vai impondo.

Quando abandona o cargo e se retira para o Convento de S. Domingos, que ele próprio mandara construir em Viana do Castelo, pede aos frades que o tratem como se tivesse voltado ao noviciado. A humildade que vivera acompanha-o até à morte, em 16 de Julho de 1590.

 

(Os elementos biográficos deste texto são adaptados de artigos publicados no Público no dia 4 de Novembro de 2001, data da beatificação de Bartolomeu dos Mártires)

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