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Livro Abril, de Nuno Higino. Foto Clara Raimundo

[O papel das estórias]

O que faz falta é ler poesia, malta!

| 16/04/2024

Livro Abril, de Nuno Higino. Foto Clara Raimundo

abril – 25 poemas é o mais recente livro de poesia de Nuno Higino. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

 

“Quem disse que Abril é um mês?” A pergunta fá-la Nuno Higino no título de um dos 25 poemas que preenchem o seu mais recente livro, abril. E a resposta que apetece dar, ao lê-los, corre o risco de soar a cliché, mas cá vai: Abril é muito mais do que um mês – Abril é poesia.

E talvez nenhum outro género textual – arrisco mesmo dizer: talvez nenhuma outra forma de expressão artística – traduza tão bem o que Abril foi, é, e esperemos que continue a ser, como a poesia.

Comecei a ler: um poema, outro, outro ainda… só mais um. Queria parar e saboreá-los… sabiam mesmo a Abril. Mas ao mesmo tempo tinha em mim a ânsia de prosseguir, como se fosse a galope no belo cavalo da capa do livro, fruto de um casamento imprevisto – mas nem por isso menos perfeito – entre a arte do ilustrador Artur Moreira e do escritor Nuno Higino.

Não consegui parar: li-os a todos, de seguida. Mas agora voltei a ler, já a trote, um por dia, e não só para mim: também para os mais pequenos, que – embora alguns possam pensar que não – amam mais a poesia, e Abril, do que muitos crescidos.

De resto, é sobretudo para eles que Nuno Higino tem escrito. E já escrevia poesia quando ainda era adolescente. Ele que foi estudar para o seminário logo após a escola primária e aí aprendeu a disciplina, mas também a tolerância, a liberdade e a resistência à ditadura que perpassam estes poemas.

(Será que alguns deles nasceram nessa altura? Talvez não oficialmente, mas de certeza que muitas das sementes foram lançadas nesse tempo, e continuam a dar frutos.)

Livro Abril, de Nuno Higino. Foto Clara Raimundo

“Abril é muito mais do que um mês – Abril é poesia.” Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

 

Em abril – 25 poemas, Nuno Higino transporta-nos a 1974, conta pormenores deliciosos sobre o dia da revolução, faz-nos sentir o cheiro a liberdade nas ruas, e traz-nos de volta a 2024, mostrando-nos que essa liberdade precisa de continuar a ser regada.

Ficamos a saber a previsão do tempo para aquele dia:

(…)

Céu muito nublado 
(não haverá sol, ó diabo!)

Vento fraco de nordeste
(vá lá, vá lá, pouco agreste)

(…)

Mar encrespado
(vou a pé, não vou a nado)

Bom para sair à rua sem freio,
desta vez o senhor meteorologista 
acertou em cheio

Imaginamos como se vestiram os que saíram à rua:

(…)

cabeleira farta, bigode
calças à boca de sino
(ao domingo de terylene,
em azul-marinho ou creme)

Imaginas o pagode?
Colarinho abonado
peito desabotoado
bota à beatle ou à cowboy

Assim era e assim foi
nesse dia tão amado

E como chegavam alegres os que vinham da prisão e do Ultramar:

(…)

A alegria era feita de pouca coisa:
bastava chegar 

 

Higino defende que “não há Abril como o primeiro”, mas lembra que esse Abril “cresceu”, “aprendeu a construir paisagens” e “acreditou que o amor é preferível a tudo o resto, porque no amor não há resto; no amor tudo é tudo”.

Naquele Abril, o corcel “libertou-se do ardil” e é preciso continuar a deixá-lo correr, “que leva pressa”. Mas… “e se ele tropeça?”, questiona o último verso do último poema deste livro. A resposta cabe a cada leitor. Um dos pequenos diz que ele não tropeça, “porque vai conseguir voar”.

Livro Abril, de Nuno Higino. Foto Clara Raimundo

Uma das ilustrações de Artur Moreira. Acreditamos que este corcel voa? Foto © Clara Raimundo/7MARGENS

 

Lembro-me então de outro poema, intitulado “O que fazia falta” – piscando o olho ao saudoso Zeca -, que diz apenas isto:

Tínhamos um grande império
mas para viver e sonhar faltava espaço

Tínhamos o rosto pálido;
até aos domingos o sol era escasso

Parece que precisamos de recuperar algum desse espaço para viver e sonhar – como as crianças, que acreditam que os cavalos podem voar. E, para isso, sem dúvida que nos faz falta mais poesia como esta, malta.

 

abril – 25 poemas, de Nuno Higino, com ilustrações de Artur Moreira, Letras&Coisas, 2024, 68 págs., €15.

 

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