
abril – 25 poemas é o mais recente livro de poesia de Nuno Higino. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
“Quem disse que Abril é um mês?” A pergunta fá-la Nuno Higino no título de um dos 25 poemas que preenchem o seu mais recente livro, abril. E a resposta que apetece dar, ao lê-los, corre o risco de soar a cliché, mas cá vai: Abril é muito mais do que um mês – Abril é poesia.
E talvez nenhum outro género textual – arrisco mesmo dizer: talvez nenhuma outra forma de expressão artística – traduza tão bem o que Abril foi, é, e esperemos que continue a ser, como a poesia.
Comecei a ler: um poema, outro, outro ainda… só mais um. Queria parar e saboreá-los… sabiam mesmo a Abril. Mas ao mesmo tempo tinha em mim a ânsia de prosseguir, como se fosse a galope no belo cavalo da capa do livro, fruto de um casamento imprevisto – mas nem por isso menos perfeito – entre a arte do ilustrador Artur Moreira e do escritor Nuno Higino.
Não consegui parar: li-os a todos, de seguida. Mas agora voltei a ler, já a trote, um por dia, e não só para mim: também para os mais pequenos, que – embora alguns possam pensar que não – amam mais a poesia, e Abril, do que muitos crescidos.
De resto, é sobretudo para eles que Nuno Higino tem escrito. E já escrevia poesia quando ainda era adolescente. Ele que foi estudar para o seminário logo após a escola primária e aí aprendeu a disciplina, mas também a tolerância, a liberdade e a resistência à ditadura que perpassam estes poemas.
(Será que alguns deles nasceram nessa altura? Talvez não oficialmente, mas de certeza que muitas das sementes foram lançadas nesse tempo, e continuam a dar frutos.)

“Abril é muito mais do que um mês – Abril é poesia.” Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Em abril – 25 poemas, Nuno Higino transporta-nos a 1974, conta pormenores deliciosos sobre o dia da revolução, faz-nos sentir o cheiro a liberdade nas ruas, e traz-nos de volta a 2024, mostrando-nos que essa liberdade precisa de continuar a ser regada.
Ficamos a saber a previsão do tempo para aquele dia:
(…)
Céu muito nublado
(não haverá sol, ó diabo!)
Vento fraco de nordeste
(vá lá, vá lá, pouco agreste)
(…)
Mar encrespado
(vou a pé, não vou a nado)
Bom para sair à rua sem freio,
desta vez o senhor meteorologista
acertou em cheio
Imaginamos como se vestiram os que saíram à rua:
(…)
cabeleira farta, bigode
calças à boca de sino
(ao domingo de terylene,
em azul-marinho ou creme)
Imaginas o pagode?
Colarinho abonado
peito desabotoado
bota à beatle ou à cowboy
Assim era e assim foi
nesse dia tão amado
E como chegavam alegres os que vinham da prisão e do Ultramar:
(…)
A alegria era feita de pouca coisa:
bastava chegar
Higino defende que “não há Abril como o primeiro”, mas lembra que esse Abril “cresceu”, “aprendeu a construir paisagens” e “acreditou que o amor é preferível a tudo o resto, porque no amor não há resto; no amor tudo é tudo”.
Naquele Abril, o corcel “libertou-se do ardil” e é preciso continuar a deixá-lo correr, “que leva pressa”. Mas… “e se ele tropeça?”, questiona o último verso do último poema deste livro. A resposta cabe a cada leitor. Um dos pequenos diz que ele não tropeça, “porque vai conseguir voar”.

Uma das ilustrações de Artur Moreira. Acreditamos que este corcel voa? Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
Lembro-me então de outro poema, intitulado “O que fazia falta” – piscando o olho ao saudoso Zeca -, que diz apenas isto:
Tínhamos um grande império
mas para viver e sonhar faltava espaço
Tínhamos o rosto pálido;
até aos domingos o sol era escasso
Parece que precisamos de recuperar algum desse espaço para viver e sonhar – como as crianças, que acreditam que os cavalos podem voar. E, para isso, sem dúvida que nos faz falta mais poesia como esta, malta.
abril – 25 poemas, de Nuno Higino, com ilustrações de Artur Moreira, Letras&Coisas, 2024, 68 págs., €15.









