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Robert Prevost
Robert Prevost quando foi nomeado prefeito do Dicastério para os Bispos. Foto: Vatican News

Sínodo, abusos, mulheres na Igreja

O que pensa o Papa Leão XIV sobre alguns temas ‘quentes’

| 09/05/2025

 

Leão XIV é um cosmopolita, mas o seu ‘rasto discursivo’ não é superabundante. Parece ser mais de escutar e de fazer. As poucas homilias disponíveis na internet dão para ver que ele sintoniza com Francisco no desafio de incentivar a Igreja Católica a “ampliar a tenda e fazer com que todos saibam que são bem-vindos”. Mas sobre outras matérias são escassas as pistas. Recuperamos aqui uma entrevista que deu há dois anos, a Andrea Tornielli, do Vatican News, quando o então arcebispo Robert Prevost, que não era ainda cardeal, acabara de assumir as funções de prefeito do Dicastério para os Bispos (daí que os tópicos de conversa, suscitados pelo entrevistador, estejam particularmente focados nessa função).  Há muitos outros aspetos sobre os quais os católicos e muitas outras pessoas gostarão de saber o que pensa o novo Pontífice. Para já ficam aqui estes (o realinhamento e formulação dos títulos é nossa; o texto é o do então arcebispo).

 

O Sínodo sobre a Sinodalidade e o papel do bispo

Assembleia Sínodo dos Bispos, outubro 2024. Foto Clara Raimundo

O ministério episcopal desempenha um serviço importante, mas depois temos de colocar tudo isto ao serviço da Igreja neste espírito sinodal que significa simplesmente caminhar juntos, todos nós, e procurar juntos o que o Senhor nos pede, neste nosso tempo.” Foto Clara Raimundo/7MARGENS

Há uma grande oportunidade nesta contínua renovação da Igreja, que o Papa Francisco nos convida a promover. Por um lado, há bispos que expressam abertamente o seu medo, porque não entendem para onde a Igreja está a ir. Talvez prefiram a segurança das respostas já experimentadas no passado.

Acredito verdadeiramente que o Espírito Santo está muito presente na Igreja neste momento e está a empurrar-nos para uma renovação e, portanto, somos chamados à grande responsabilidade de viver o que eu chamo uma nova atitude. Não é apenas um processo, não é apenas mudar algumas formas de fazer as coisas, talvez realizar mais reuniões antes de tomar uma decisão. É muito mais.

Mas é também o que talvez cause certas dificuldades, porque no final do dia temos de ser capazes de ouvir em primeiro lugar o Espírito Santo, o que Ele está a pedir à Igreja.

Temos de ser capazes de nos ouvir uns aos outros, de reconhecer que não se trata de discutir uma agenda política ou simplesmente tentar promover os temas que me interessam a mim ou a outros.

Por vezes, parece que queremos reduzir tudo a querer votar e depois fazer o que foi votado. Em vez disso, é algo muito mais profundo e muito diferente: precisamos de aprender a ouvir verdadeiramente o Espírito Santo e o espírito de busca da verdade que vive na Igreja. Passar de uma experiência em que a autoridade fala e está tudo acabado, para uma experiência de Igreja que valorize os carismas, os dons e os ministérios que existem na Igreja.

O ministério episcopal desempenha um serviço importante, mas depois temos de colocar tudo isto ao serviço da Igreja neste espírito sinodal que significa simplesmente caminhar juntos, todos nós, e procurar juntos o que o Senhor nos pede, neste nosso tempo.

 

 Os abusos na Igreja e as novas responsabilidade dos bispos

Proteção de Menores, Abusos

“O silêncio não é uma resposta. O silêncio não é a solução. Temos de ser transparentes e honestos, temos de acompanhar e ajudar as vítimas, porque de outra forma as suas feridas nunca sararão.” Foto © Vatican News

 

Estamos [a percorrer] um caminho no que diz respeito a isto.

Há lugares onde já se faz um bom trabalho há anos e as regras estão a ser postas em prática. Ao mesmo tempo, acredito que ainda há muito a aprender.

Estou a falar da urgência e da responsabilidade de acompanhar as vítimas. Uma das dificuldades que muitas vezes surgem é que o bispo deve estar próximo dos seus padres, como já disse, e deve estar próximo das vítimas. Alguns recomendam que não seja o bispo diretamente a receber as vítimas; mas não podemos fechar os nossos corações, a porta da Igreja, às pessoas que sofreram abusos.

A responsabilidade do bispo é grande, e penso que ainda temos de fazer grandes esforços para responder a esta situação que está a causar tanta dor na Igreja. Vai levar tempo. Estamos a tentar trabalhar em conjunto com os outros dicastérios.

Acredito que faz parte da missão do nosso dicastério acompanhar os bispos que não receberam a preparação necessária para lidar com esta questão. É urgente e necessário que sejamos mais responsáveis e mais sensíveis a isto.

Certamente, há muitas diferenças entre uma cultura e outra sobre como se reage nestas situações. Em alguns países, o tabu de falar sobre o assunto já foi um pouco quebrado, enquanto há outros lugares onde as vítimas, ou as famílias das vítimas, nunca quereriam falar sobre os abusos que sofreram.

Em qualquer caso, o silêncio não é uma resposta. O silêncio não é a solução. Temos de ser transparentes e honestos, temos de acompanhar e ajudar as vítimas, porque de outra forma as suas feridas nunca sararão. Há uma grande responsabilidade nisto, para todos nós.

 

Contributo das mulheres como membros do Dicastério para os Bispos

Simona Brambilla. Foto Dicastério para a Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica

Simona Brambilla. Foto Dicastério para a Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica

Em várias ocasiões, vimos que o seu ponto de vista é um enriquecimento. Duas são religiosas e uma é leiga, e muitas vezes a sua perspetiva coincide perfeitamente com o que dizem os outros membros do dicastério; enquanto noutras vezes, a sua opinião introduz outra perspetiva e torna-se um contributo importante para o processo.

Penso que a sua nomeação é mais do que um gesto do Papa para dizer que agora também há mulheres aqui. Há uma participação real, genuína e significativa que elas oferecem nas nossas reuniões quando discutimos os dossiês dos candidatos.

 

Sobre a identidade do bispo na Igreja do nosso tempo

 

Antes de mais, deve ser ‘católico’: por vezes, o bispo corre o risco de se centrar apenas na dimensão local. Mas um bispo deve ter uma visão muito mais ampla da Igreja e da realidade, e viver a universalidade da Igreja.

Também precisa da capacidade de escutar e de pedir conselhos aos que estão à sua volta bem como de maturidade psicológica e espiritual.

Um elemento fundamental do retrato de um bispo é ser pastor, capaz de estar próximo dos membros da comunidade, começando pelos padres, para quem o bispo é pai e irmão. Viver esta proximidade com todos, sem excluir ninguém.

O Papa Francisco falou de quatro tipos de proximidade: proximidade com Deus, com os irmãos bispos, com os padres e com todo o povo de Deus. Não se deve ceder à tentação de viver isolado, separado num palácio, satisfeito com um certo nível social ou com uma certa posição dentro da Igreja.

E não nos podemos esconder atrás de uma ideia de autoridade que já não faz sentido hoje. A autoridade que temos é para servir, para acompanhar os padres, para ser pastores e mestres.

Muitas vezes preocupamo-nos em ensinar a doutrina, a forma de viver a nossa fé, mas arriscamo-nos a esquecer que a nossa primeira tarefa é ensinar o que significa conhecer Jesus Cristo e testemunhar a nossa proximidade com o Senhor. Isto vem primeiro: comunicar a beleza da fé, a beleza e a alegria de conhecer Jesus. Significa que nós próprios estamos a vivê-lo e a partilhar esta experiência.

 

O serviço do bispo e a unidade da Igreja em torno de Pedro

Bispos e funcionários da COMECE reuniram-se na Piazza Pia, em Roma, no início da sua peregrinação jubilar. Foto © Ada Lushi/COMECE)

As três palavras que estamos a usar no trabalho do Sínodo — participação, comunhão e missão — dão a resposta.

O bispo é chamado a este carisma, a viver o espírito de comunhão, a promover a unidade na Igreja, a unidade com o Papa. Isto também significa ser católico, porque sem Pedro, onde está a Igreja? Jesus rezou por isto na Última Ceia: ‘Que todos sejam um’, e é esta unidade que desejamos ver na Igreja.

Hoje, a sociedade e a cultura afastam-nos dessa visão de Jesus, e isso faz muito mal. A falta de unidade é uma ferida que a Igreja sofre, muito dolorosa.

As divisões e as polémicas na Igreja não ajudam em nada. Nós, bispos, especialmente, devemos acelerar este movimento em direção à unidade, à comunhão na Igreja.

o bispo é chamado a servir uma Igreja particular. Portanto, ouvir o povo de Deus também é importante.

Se um candidato não for conhecido por ninguém do seu povo, é difícil — não impossível, mas difícil — que ele se torne verdadeiramente pastor de uma comunidade, de uma Igreja local. Por isso, é importante que o processo seja um pouco mais aberto à escuta de diferentes membros da comunidade.

Isto não significa que seja a Igreja local que tem de escolher o seu pastor, como se ser chamado a ser bispo fosse o resultado de uma votação democrática, de um processo quase ‘político’. É necessária uma visão muito mais ampla, e as nunciaturas apostólicas ajudam muito nisto. Acredito que, pouco a pouco, precisamos de nos abrir mais, de ouvir um pouco mais os religiosos, os leigos

 

Sobre os problemas económicos na vida da Igreja

“O Papa disse-nos que quer uma Igreja pobre e para os pobres. Há casos em que as estruturas e infraestruturas do passado já não são necessárias e é difícil mantê-las.” Foto © António Marujo/7MARGENS

O bispo também é chamado a ser um bom administrador, ou pelo menos [a ter] a capacidade de encontrar um bom administrador para o ajudar.

O Papa disse-nos que quer uma Igreja pobre e para os pobres. Há casos em que as estruturas e infraestruturas do passado já não são necessárias e é difícil mantê-las. Ao mesmo tempo, mesmo nos lugares onde trabalhei, a Igreja é responsável por instituições educativas e de saúde que prestam serviços básicos às pessoas, porque muitas vezes o Estado não consegue fornecê-los.

Pessoalmente, não sou da opinião de que a Igreja deva vender tudo e ‘apenas’ pregar o Evangelho nas ruas. No entanto, esta é uma responsabilidade muito grande, não há respostas universais. É necessário promover mais ajuda fraterna entre as Igrejas locais.

Perante a necessidade de manter estruturas de serviço com rendimentos que já não são o que eram; o bispo tem de ser muito prático. As religiosas de clausura dizem sempre: ‘Tenham confiança e entreguem tudo à Divina Providência, porque se encontrará uma forma de responder.’ O importante também é nunca esquecer a dimensão espiritual da nossa vocação. Caso contrário, corremos o risco de nos tornarmos gestores e de raciocinar como gestores. Às vezes isso acontece.

 

A relação entre o bispo e as redes sociais [digitais]

redes sociais foto c pixabay (1200 x 612 px)

“Temos de nos preparar para usar bem as redes sociais.” Foto: Redes Sociais Foto Pixabay 

As redes sociais podem ser uma ferramenta importante para comunicar a mensagem do Evangelho, chegando a milhões de pessoas. Temos de nos preparar para usar bem as redes sociais.

Receio que por vezes esta preparação tenha faltado.

Ao mesmo tempo, o mundo de hoje, que está em constante mudança, apresenta situações em que realmente temos de pensar várias vezes antes de falar ou antes de escrever uma mensagem no Twitter [atual X], para responder ou mesmo apenas para fazer perguntas de forma pública, à vista de todos. Por vezes, há o risco de alimentar divisões e polémicas.

Há uma grande responsabilidade em usar corretamente as redes sociais, a comunicação, porque é uma oportunidade, mas também é um risco. E pode causar danos à comunhão da Igreja. Por isso, é preciso ser muito prudente no uso destes meios.

 

 

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