“Como cientistas, como intelectuais, como cidadãos conscientes dos riscos globais atuais, acreditamos que é hoje uma obrigação moral e cívica de toda pessoa de boa vontade levantar a voz contra o apelo à militarização da Europa e promover o diálogo, a tolerância e a diplomacia. O rearmamento não preserva a paz; leva à guerra”.
Assim se pronunciam mais de 2.500 cientistas de diversas áreas de investigação e inovação, muitos deles em setores que desenvolvem tecnologia militar, num manifesto que acaba de ser lançado e que continua a aceitar adesões.
No texto publicado em nome dos subscritores no site italiano Roars, os físicos Carlo Rovelli, professor no Centro de Física Teórica da Universidade de Marselha e diretor de um grupo de investigação em gravidade quântica, em França, e Flavio Del Santo, professor da Universidade de Viena, propõem-se fundamentar a posição assumida, em contraciclo com o movimento que um pouco por toda a Europa se está a gerar.
Assim, observam, perante um quadro mundial em que “a humanidade enfrenta enormes desafios globais: mudanças climáticas, fome no Sul global, a maior desigualdade económica da história, o aumento do risco de pandemias, a ameaça de guerra nuclear”, “a última coisa de que precisamos hoje é que o Velho Continente deixe de ser um farol de estabilidade e paz para se tornar um novo senhor da guerra”.
O ataque russo à Ucrânia e sobretudo o recente reposicionamento dos Estados Unidos levaram a Europa a sentir-se “posta de lado” e a “temer que a sua paz e prosperidade possam estar em risco”. Neste quadro, referem-se ao recente discurso da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em que anunciou um Plano Europeu de Rearmamento e que “a Europa está pronta para aumentar maciçamente os seus gastos com a defesa”. Mas, entendem os cientistas subscritores, “os políticos estão a reagir de forma míope, com um apelo à mobilização de todo o continente e destinando recursos colossais à produção de novos instrumentos de morte e destruição”.
Procurando justificar esta leitura, afirmam que “a indústria militar, que dispõe de imensos recursos e de uma forte influência sobre os políticos e os grandes meios de comunicação, alimenta uma narrativa abertamente belicista”. O “medo da Rússia” é, segundo eles, “agitado como um bicho-papão, ignorando convenientemente o facto de que a Rússia tem um PIB menor que o da Itália”, e afirmando “de forma totalmente infundada, que a Rússia tem objetivos expansionistas em relação à Europa, representando uma ameaça para Berlim, Paris e Varsóvia, quando acaba de demonstrar que não é capaz nem mesmo de conquistar Kiev, seu antigo satélite”.
“A propaganda de guerra alimenta-se sempre do exagero do medo”, enquanto que, por outro lado, “os grandes conflitos sempre foram precedidos por enormes investimentos militares”, avisa ainda o documento, lembrando que, desde 2009, os gastos militares globais “chegaram a níveis recorde todos os anos, com os gastos em 2024 atingindo o recorde histórico de 2,4 milhões de milhões de dólares”.
O caminho mais sensato para a Europa deve ser, na opinião dos cientistas, a diplomacia. Com ela, afirmam, a Europa “pode regressar à convivência pacífica e à cooperação com a Rússia, que o caso ucraniano tragicamente interrompeu”.
É a ideia de que “a paz depende do prevalecimento sobre os outros” que “leva à escalada, e a escalada leva à guerra”. Daí que os subscritores do manifesto reformulem o velho ditado (se queres a paz prepara a guerra) e ponham: “se queres a paz, constrói a paz, não a guerra”.
O manifesto recorda vários casos da atualidade, que afetam um quarto da humanidade, evidenciando o crescimento dos conflitos no mundo. Referem, nomeadamente, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, “subsidiada pelos países da NATO com a justificação de ‘defender os princípios’”, mas que, segundo o texto, “está a deixar atrás de si cerca de um milhão de vítimas”. Aludem, por outro lado, ao “risco de genocídio dos palestinianos pelo exército israelita, apoiado pelo Ocidente”, que foi reconhecido pelo Tribunal Internacional de Justiça”. Lembram ainda as “guerras brutais” em curso em África, como no Sudão e na República Democrática do Congo, “alimentadas por interesses nos recursos minerais do continente”.
Perante estas tragédias, fazem notar que “os nossos líderes políticos declaram que estão prontos para lutar para defender os supostos valores ocidentais que acreditam estar em perigo”; mas interrogam: “será que estão prontos para defender o valor universal da vida humana?”.
(Imagem de destaque: Mãos levantadas com um pedido: “Parem a guerra”. © Freepik)










