“Uma igreja que se disponha a seguir a direcção do Espírito deverá estar preparada para o inesperado e disposta a ser abalada nas suas próprias fundações. Tal é a vida — a vida no Espírito.”
James D.G. Dunn
O vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito (João 3:8). Uma das alegorias mais conhecidas e que as escrituras mais usam para descrever o Espírito Santo, tanto no Antigo como no Novo Testamento, é o vento. O vento está em movimento, mas é invisível aos nossos olhos. Sabemos que vem de algum sítio, embora desconheçamos a sua origem exacta, e dirige-se para algum destino, ainda que não saibamos qual. Segue as suas próprias regras e, apesar de conseguirmos notar certos efeitos da sua acção, não nos cabe a nós definir as causas que a determinam. É uma força enigmática, que actua de modos mais ou menos insondáveis. O mesmo acontece com o Espírito Santo.
A perícope do encontro entre Nicodemos e Jesus (João 3:1-21), onde está inserido aquele versículo, informa-nos que Nicodemos, um dos membros do sinédrio, foi ter com Jesus à noite, talvez pelo receio de represálias da parte dos seus pares. Tento imaginar a cena do encontro e a conversa entre Nicodemos e Jesus, desenrolada na quietude da noite. O vento fresco soprava suavemente pelas ruas apertadas do local onde ambos se encontravam, fazendo ouvir o seu leve rumor no meio do silêncio geral. Jesus conhecia o coração de Nicodemos melhor do que ninguém. Por detrás daquela vida sobrecarregada, muito provavelmente, com o peso dos complexos legalismos da Lei Mosaica, com as suas infindáveis regras, normas, tradições e rituais a que qualquer judeu piedoso se devia sujeitar, Jesus via um potencial de transformação radical operada através do vento do Espírito, o qual romperia totalmente com velhos paradigmas de religiosidade: “tens de nascer do Alto” (João 3:7).
Algo que tantas vezes tem sido esquecido na leitura deste diálogo é a liberdade irredutível do Espírito, cujo sopro se move sem quaisquer constrangimentos, gerando vida – os tais “rios e correntes de águas-vivas”, suscitados em pleno deserto, onde ninguém em absoluto os esperaria. Este mesmo vento divino, que já pairava sobre o caos da criação (Génesis 1:2) e que descerá abundantemente sobre os discípulos no dia de Pentecostes (Atos 2:1-2), resiste, afinal, a toda e qualquer tentativa de controlo, agindo simultaneamente na Igreja e em toda a parte. Jesus usa mesmo outra analogia para o Espírito, equiparando-o a “rios de águas-vivas” (João 7:37), os quais fluem livremente tanto na vida do crente, como na da própria Igreja, a qual nunca deve permanecer fechada sobre si mesma, mas sempre aberta à acção e inovação do Espírito.

Vincent van Gogh, A Noite Estrelada. Museu de Arte Moderna, Nova Iorque, EUA
Outro aspecto tem a ver com alguns equívocos que muitos têm acerca da acção do Espírito na vida dos crentes. É verdade que o mesmo consola, fortalece e conduz individualmente cada um de nós (João 14:16-27), mas o mesmo Espírito também nos liberta de algo que tem fustigado violentamente muitas vezes as nossas comunidades cristãs, nomeadamente o individualismo que tantas vezes nos faz esquecer de que fazemos parte de um mesmo corpo, corpo do Senhor. O Espírito liberta-nos assim de todo esse isolamento e nos lembra persistentemente que vivemos, primeiramente, para Deus e, depois, em comunhão para os outros (Romanos 14:7-8).
Esta liberdade do Espírito consola-nos igualmente nestes momentos difíceis em que vivemos. O mundo, tal com o apóstolo Paulo afirma na sua carta aos Romanos, encontra-se em estado de tremendas convulsões, aguardando com expectativa a sua renovação operada por Deus (Romanos 8:19-22). Nesse sentido, o Espírito assegura-nos que a presença de Deus jamais estará limitada a circunstâncias algumas, a sistemas fechados ou, até mesmo, a fatalismos históricos. Ele sempre conseguirá alcançar corações aparentemente fechados, cansados e exauridos pela dureza intransigente de muitos sistemas religiosos, renovando e insuflando a esperança na vida da Igreja. Mas o mesmo Espírito desafia todos a abandonarem todo o desejo de domínio e poder, delegando ele mesmo a cada um os seus dons, os quais devem ser exercidos em verdadeiro serviço amoroso de uns para com os outros.
Por fim, a acção do Espírito, além de profundamente relacional, é igualmente cósmica, abarcando tudo quanto Deus criou. Como alerta um dos grandes teólogos contemporâneos, Veli-Matti Kärkkäinen, o mesmo Espírito que santifica a comunidade cristã, anima igualmente toda a criação divina rumo à sua redenção final. Viver segundo o Espírito não significa apenas procurar a santificação individual, mas também cooperar na obra transformadora de Deus no mundo – ao nível ecológico, social e eclesial. O verdadeiro discipulado participa, deste modo, na missão do Espírito de reconciliar todas as coisas em Cristo (Colossenses 1,20), tudo orientando para a plena manifestação do amor de Deus em toda a criação, a qual antecipa, desde já, a renovação de todas as coisas no final dos tempos. O vento do Espírito continua e continuará a soprar para onde quiser. A questão que se coloca hoje mesmo à Igreja já não é se o Espírito está ou não a agir, mas se esta está ou não disposta a deixar-se conduzir livremente por esse sopro, não necessariamente em fortes rajadas, mas através da sua suave e calorosa brisa que nos convida a abandonar a nossa zona de conforto e a entrar na liberdade criadora do seu amor. Onde está o Espírito, aí floresce a liberdade (2 Coríntios 3,17); e onde essa liberdade é verdadeiramente acolhida, o mundo começará verdadeiramente a entrever os contornos do Reino de Deus.
Vítor Rafael é doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










