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Os caminhos da sinodalidade

Papa Francisco em oração no Momento de Reflexão que deu início ao Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade. Foto © Vatican Media 2021

 

Vai decorrer em Roma, de 2 a 27 de Outubro, a segunda sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, a qual terá como tema a discussão e aprovação das conclusões sobre a caminhada sinodal.

Das reflexões que leigos, religiosos, sacerdotes e Bispos vão fazer sobre as propostas resultantes dos trabalhos levados a cabo por milhares de participantes em todas as igrejas locais deverá resultar um documento, o qual será destinado ao estudo e aplicação por toda a Igreja.

Mas até onde nos conduzirá este documento e que inovações poderão ser levadas a cabo nos modos de fazer, na maneira de levar a Boa Nova a todas as pessoas, dentro e fora da Igreja?

Entendo que temos razões para algum cepticismo que vai perpassando nas conversas que vou escutando e nos textos que leio, escritos por leigos e sacerdotes, já que da parte dos bispos, designadamente portugueses, pouco ou nada se sabe sobre aquilo que pensam fazer ou concretizar.

Fundamento as minhas dúvidas, reticências e suspeições no imobilismo tradicional que se nota no dia-a-dia da vida eclesial. E esse imobilismo é fruto dos medos, dos receios em avançar por caminhos há muito esquadrinhados, estudados e apontados, em momentos vários, pelos mais altos responsáveis da Igreja e de uma maneira especial pelos diferentes Papas, pelo menos desde o Concílio Vaticano II.

É bem sabido que muitas propostas constantes dos documentos saídos daquele célebre Concílio, permanecem por concretizar, tal é a aversão à mudança de que a Igreja enferma, em matérias que, muitas vezes, nem sequer são de natureza teológica. Antes pelo contrário, trata-se de regras, normas e procedimentos muitas vezes sobre as formas de fazer, de evangelizar, de acolher, de dar valor às pessoas, de fazer sentir que são queridas dentro da Igreja, com a atribuição de responsabilidades a religiosos, religiosas e leigos. Sempre a norma, imposta e resistente, à frente das pessoas e do cuidado e atenção que lhes deve ser dispensado, exactamente ao contrário da palavra do Mestre. A prática, por parte de toda a Igreja, de todos os baptizados, deixa muito a desejar.

O poder custa a largar por quem o detém. Pelo menos é o que aparenta essa atitude. E essa é uma das razões pelas quais as mudanças demoram muito tempo a fazer o seu caminho, a serem implementadas, a concretizar. Não estou, minimamente, a pensar em algumas das “modernices” em voga, que alguns querem impor e estão a ser defendidas por minorias activas e apostadas em, prementemente e de forma reiterada, para fracturar a sociedade em geral, pondo em causa valores fundamentais.

“Faz-te ao largo!” Esta ordem, dada por Jesus no Lago da Galileia, ecoa há dois mil anos por toda a Terra. Contudo, longe vão os primeiros tempos da vivência da doutrina evangélica que alastrou pelo mundo inteiro. Aos poucos, foi-se fechando, enclausurando dentro de portas, burocratizando, cada vez mais, principalmente a partir da cópia da organização em que assentava o Império Romano. Ao longo da história, ocorreram momentos de mudança, sempre sobre a influência do Espírito Santo, quando se manifestava através de profetas que foram surgindo e que ajudaram a Igreja a dar saltos, embora sempre sob o fogo de conservadores e daqueles a quem desagrada a mudança e que sempre existiram e sempre existirão. Todos conhecemos a história desses momentos e as consequências que dela resultaram.

Olhemos para o que se passa e interroguemo-nos: ao longo do trabalho de escuta que foi proposto a toda a Igreja, desde o lançamento deste desafio por parte do actual Papa, foram ou não apresentadas propostas que poderiam já estar a ser implementadas? Alguém tem ideia de uma sequer que esteja a ser posta em prática?

Os leigos mais comprometidos que tenham coragem, o à vontade de proporem alguma mudança ou maneira de fazer diferente, na prática do dia-a-dia, em relação à liturgia, à formação, à catequese, para já não falar no funcionamento das instituições, serviços ou organismos existentes, que respostas recebem? Normalmente a resposta recebida de sacerdotes e bispos (estes menos, por nem sempre chegarem a ter conhecimento dessas propostas) está geralmente na ponta da língua, estudada, repetida e, invariavelmente, no sentido de manter tudo como está. E são apresentadas razões várias: umas razoáveis e outras sem qualquer fundamento atendível. “Porque sempre foi assim e tem funcionado bem”; “porque está escrito que deve ser assim”; “porque fulano disse que deve ser assim”. Mas sempre no sentido de manter tudo igual. E por detrás está sempre o poder e o medo de o perder. E o leigo cala-se, para não afrontar o poder ou revolta-se e entra num processo de crítica e consequente exclusão.

Toda a caminhada sinodal decorreu sob o lema, sob a ideia da “escuta”. Escutar o Espírito Santo, escutar todos os crentes e não crentes e os que se afastaram, que foram convidados a participar e a dar os seus contributos.

O documento preparatório propõe-se “criar um ministério de escuta e acompanhamento reconhecido e eventualmente instituído”. Não sei se o caminho deverá ser esse. Tal como li recentemente num texto de pessoa amiga e que sabe bem, melhor do que eu – tenho a certeza – o que significa “escutar”, esse ministério poderá correr o risco de se transformar em mais “uma forma de burocratização da escuta”.

Não será preferível manter permanentemente abertas todas as portas para a discussão, a reflexão, a escuta verdadeira, autêntica, de toda a Igreja, deixando que o Espírito Santo inspire todos e cada um, sejam eles leigos ou religiosos, sacerdotes e bispos? Dessa forma, permitir-se-á que as ideias, as propostas, as mudanças, um “espírito novo” flua, sem peias, ultrapassadas, gastas e opostas aquilo que os sinais dos tempos, tão difíceis quanto desafiantes, que se apresentam diariamente e em todos os lugares da Terra, apontam, para que a Igreja prossiga a sua missão de levar a Boa Nova a todos os povos.

Serra do Pilar

Serra do Pilar, disposição circular: a disposição circular do espaço litúrgico constitui uma característica peculiar da vida da Comunidade, no espírito do concílio Vaticano II. Ao início, o Ambão simboliza a Palavra como porta de entrada na vida cristã. DR

António Caseiro Marques é advogado e dirigente da Acção Católica Rural.

 

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