AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Cristãos feridos recebem a comunhão na paróquia de Gaza, a 17 de dezembro de 2023. Foto DR

Medo e tensão aumentam

Os cristãos vão desaparecer de Gaza? Este bispo palestiniano teme que sim

| 21/12/2023

Cristãos feridos recebem a comunhão na paróquia de Gaza, a 17 de dezembro de 2023. Foto DR

Cristãos feridos recebem a comunhão na única paróquia católica de Gaza, a 17 de dezembro de 2023. Foto: Direitos reservados

 

“Depois desta guerra, temo que não haja mais cristãos em Gaza, após uma presença contínua de mais de 18 séculos.” A frase é um murro no estômago, e ganha ainda mais força por ser proferida a poucos dias da celebração do Natal, por um bispo nascido na Palestina, que atualmente está em Jerusalém e contacta diariamente com a paróquia da Sagrada Família, em Gaza. Mas William Shomali, 73 anos, bispo auxiliar do Patriarcado Latino de Jerusalém, que diz até acreditar em milagres, não consegue negar: deixou de acreditar que haja futuro para os cristãos naquela região.

“Cerca de 60 já partiram, 20 foram mortos [desde o início da guerra]. Receio que os cristãos de Gaza, que sofreram mais do que em qualquer outra guerra anterior, possam abandonar definitivamente a região após o fim da guerra”, confessa Shomali numa entrevista à revista jesuíta America.

E descreve a situação vivida com desolação: “Gaza hoje assemelha-se às cidades alemãs destruídas durante a Segunda Guerra Mundial, e muito mais. A maior parte da infraestrutura está danificada. Milhares de casas foram destruídas. Centenas de milhares de pessoas estão desabrigadas. Apenas 20 por cento da população tem acesso a água potável. As doenças estão a espalhar-se. Os hospitais precisam de combustível. O pânico e o medo prevalecem. O medo prevalece também nas cidades israelitas perto das fronteiras de Gaza. A maioria dos habitantes foi obrigada a abandonar as suas casas”.

Preocupa-o particularmente a pequena comunidade católica da paróquia da Sagrada Família. “Entramos em contacto com eles todos os dias, quando é possível. Contam-nos sobre a sua vida diária e necessidades básicas. Neste momento, têm falta de combustível. Receamos que não consigam ter eletricidade suficiente para carregar os seus telefones. Sem telefone, qualquer contacto com eles será impossível no futuro”, diz o bispo palestiniano.

 

Alguns doentes “correm o risco de não sobreviver muito tempo”

Convento das Missionárias da Caridade, em Gaza, destruído após um bombardeamento a 16 de dezembro de 2023. Foto Patriarcado Latino de Jerusalém

Na sequência dos ataques de sábado, o gerador e recursos de combustível do Convento das Missionárias da Caridade, em Gaza, foram destruídos. Foto © Patriarcado Latino de Jerusalém

 

E a situação piorou, de facto, no último fim de semana, já depois de o bispo Shomali ter falado à revista America, com os ataques que atingiram o complexo paroquial e provocaram a morte de Nahida Khalil Anton e da sua filha, Samar Kamal Anton, ambas pertencentes àquela que é a única paróquia católica em Gaza. Sete outros paroquianos ficaram feridos e a casa das Missionárias da Caridade foi danificada.

O convento das irmãs abrigava mais de 54 pessoas com deficiência e tinha sido “designado como local de culto desde o início da guerra”, segundo o Patriarcado Latino. Todos os hóspedes da casa “estão ilesos e foram transferidos para outra área do complexo, mas as suas condições são muito precárias. Alguns deles, que necessitam de respiradores, correm o risco de não sobreviver por muito tempo”, alertou o pároco Gabriel Romanelli, em declarações à Catholic News Agency (CNA), esta quarta-feira. Até porque “o gerador do edifício e os recursos de combustível foram destruídos”.

Romanelli disse à CNA que desde sábado não foram registados mais incidentes naquela zona, mas reconheceu que, após quase 80 dias de conflito, as pessoas estão “num ponto de rutura”. Os recursos são escassos e as dificuldades, bem como o medo e a tensão, estão a aumentar. Os painéis solares e os tanques de água foram destruídos, os alimentos foram racionados durante semanas e neste momento já não há água potável. O gasóleo do único gerador eléctrico em funcionamento da freguesia está esgotado. Entre as consequências mais graves da falta de eletricidade, está o não funcionamento de dispositivos médicos, incluindo os respiradores e os sistemas de purificação de água.

Ainda que com cada vez mais dificuldades, as comissões paroquiais organizadas para realizar tarefas e necessidades de sobrevivência prosseguem os seus trabalhos: algumas compram alimentos, outras cozinham, há quem trate da limpeza e quem cuide das crianças, um grupo prepara a igreja e gere os serviços litúrgicos, outro ainda centra-se na manutenção, e alguns estão a cuidar dos doentes, na medida do possível.

A poucos dias do Natal, enquanto a possibilidade de um novo cessar-fogo não se confirma, os cristãos em Gaza “estão a preparar-se como os pastores de Belém”, conclui o padre Romanelli. No meio das dificuldades, as orações e liturgias na paróquia da Sagrada Família não param, garante. E deixa um pedido: “Rezemos pela paz, pela cura de todos, pela libertação dos reféns e para que o Natal traga um sopro de paz a toda a Terra Santa”.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

Padre da Obra da Rua morreu

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia novidade

O padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua, celebra cem anos de vida e missão. Membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu no Mogadouro a 25 de novembro de 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denunciava a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 1950. [Texto de Tony Neves]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória novidade

No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.