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Os ventos que sopraram da América Latina

| 30/10/2025

 

A propósito dos dez anos da Laudato Si’ fui, na passada segunda-feira, 27 de outubro, assistir na Universidade Católica de Lisboa a uma conferência de Elena Lasida e Austen Ivereigh. Confesso que sou, desde há alguns anos, um dos seguidores, mais ou menos atento, de Elena Lasida. Quanto a Austen Ivereigh tornei-me um dos seus leitores durante o pontificado de Francisco. Contudo, esta minha prosa não se irá focar no que foi a intervenção de cada um, mas apenas referir alguma notas que me interessam para este meu propósito. A ideia de partida desta minha prosa é a interrogação, ou em perceber, o que têm em comum Elena Lasida e o Papa Francisco, ou que vivências foram as suas, além de serem ambos latino-americanos, que os levou a marcarem o seu tempo nas áreas em que intervieram ou intervêm? Qual o elo entre eles para além da origem?

Elena Lasida e cardeal Bergolio

“O que têm em comum Elena Lasida e o Papa Francisco, ou que vivências foram as suas, além de serem ambos latino-americanos, que os levou a marcarem o seu tempo nas áreas em que intervieram e intervêm? Qual o elo entre eles para além da origem?” Foto: Elena Lasida e cardeal Bergolio (montagem 7MARGENS)

Austen ao referir-se à conversão do Papa Francisco à ecologia, aludiu à conferência de Aparecida como tendo sido um marco importante no pensamento do cardeal Bergolio, nomeadamente na sua conversão ecológica.

A conferência de Aparecida, inaugurada pelo Papa Bento XVI, teve lugar em 2007, de 13 a 31 de maio. A quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe foi ainda convocada pelo Papa João Paulo II e depois confirmada pelo Papa Bento XVI.

O então cardeal de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, teve um papel relevante tendo sido eleito para a comissão de redação do documento final juntamente com uma pequena equipa. Discreto e alheio a qualquer tipo de protagonismo gerou uma confiança e uma serenidade entre os seus pares. Segundo alguns a ele se deve a unidade e a clareza do Documento.

Nesta conferência retomou-se o esquema muito próprio da tradição das igrejas latino-americanas: ver, julgar e agir. Partindo de uma leitura da nova realidade, onde os graves problemas de desigualdade e pobreza eram o novo pano de fundo, procurou-se recolocar, no início e na base de tudo, a fé viva em Cristo. Numa entrevista à revista Humanitas Unisinos on-line datada de 20 de junho de 2008, Frei Clodovis Boff, irmão do teólogo da Teologia da Libertação Leonardo Boff, disse ser o melhor documento produzido até hoje pelos nossos bispos e talvez por qualquer outro episcopado regional. Ele recapitula o que há de melhor nas Celams anteriores, e isso dentro de um quadro teológico muito mais rico, seguro e homogêneo. O documento é uma surpresa do Espírito, pois nada deixava prever um texto dessa qualidade. É também um milagre da Mãe Aparecida, a quem o Santo Padre tinha confiado a direção da Assembleia. A meu ver, o documento da V Conferência não só dá mais um passo em frente, mas abre uma “nova fase” na missão da Igreja no Continente.

Santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Local de realização da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe. Foto: Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida © CNBB

O tema da ecologia, que tinha sido apenas aflorado marginalmente em conferências anteriores, foi aprofundado (ver cap. II, ponto 2.1.4, nº 84, 85, 86 e 87):
Nas decisões sobre as riquezas da biodiversidade e da natureza, as populações tradicionais têm sido praticamente excluídas. A natureza foi e continua sendo agredida. A terra foi depredada. As águas estão sendo tratadas como se fossem mercadoria negociável pelas empresas, além de terem sido transformadas num bem disputado pelas grandes potências. Exemplo muito importante nessa situação é a Amazônia. (nº 84)

Há quem diga e o tenha escrito que esta conferência marcou profundamente o pensamento do futuro Papa Francisco e o seu pensamento. Talvez seja um exagero, uma vez que na Laudato Si’ ele se referiu apenas duas vezes (nº 38 e 54) a essa conferência, enquanto à Declaração do Rio sobre meio ambiente (14 de janeiro de 1992) ele se referiu por três vezes (nº 141, 167 e 186). Curioso é o facto de ter referido Romano Guardini, que dizem ter sido um dos seus mestres e Austen também o deu a entender, por cinco vezes (nº 105, 108, 115, 203, 219). Contudo, numa entrevista que deu a Antonio Spadaro, S.J., diretor da revista Civiltà Cattolica, publicada em 19 de setembro de 2013, Francisco ao referir-se aos seus autores de referência Guardini não consta da lista.

Elena Lasida, uruguaia descendente de italianos, quando estudante de economia em Montevideu mudou-se para um bairro pobre e envolveu-se numa comunidade de base. Simultaneamente, participava, com outros jovens cientistas sociais, política e religiosamente empenhados, nas discussões regulares em que Juan Luis Segundo, desenvolvia a sua teologia.

Em determinado momento, as contradições entre a realidade vivida por Elena com as pessoas da comunidade de base em que se envolveu e o que aprendia nos seus estudos de economia tornaram-se tão insuportáveis ao ponto de considerar o abandono do curso. Nessa sua luta interior, entra, mais uma vez, Juan Luis Segundo que a encorajou a adotar uma perspetiva positiva das suas experiências como alguém que transitava entre a América Latina e a Europa. Deixou claro a Elena Lasida que os seus estudos em economia não só não tinham de ser incompatíveis com o seu compromisso cristão, como poderiam, na verdade, ser uma oportunidade para os combinar. Essa foi uma viragem fundamental na vida e nas opções de Elena Lasida. Segundo a própria Juan Luís Segundo foi uma figura central na sua espiritualidade.

Na conferência de 27 de outubro último na Universidade Católica, ela referiu-se à sua investigação sobre a pobreza como uma mudança de paradigma epistemológico. O grande salto epistemológico foi o de transformar o objeto da investigação – os pobres – em autores ou pares da mesma. Numa investigação participativa enquanto metodologia, o público-alvo participa no trabalho de produção de conhecimento. Esta ideia partiu da consciência de que era uma grande injustiça os investigadores se apoderarem das vivências e conhecimento dos pobres em proveito próprio, mesmo se em nome da investigação. Os pobres injustiçados pela sua condição continuavam a ser injustiçados do ponto de vista epistemológico enquanto objeto de estudo.

As favelas e outras comunidades pobres de São Paulo, tanto estão construídas no centro da cidade como nas suas periferias. A maioria alberga milhares de pessoas que vivem em construções de tijolo laranja, a desafiar todas as regras da física, habitações que deviam merecer prémios de arquitectura. Janeiro de 2024. Foto © Tony Neves.

As favelas e outras comunidades pobres de São Paulo, tanto estão construídas no centro da cidade como nas suas periferias. A maioria alberga milhares de pessoas que vivem em construções de tijolo laranja, a desafiar todas as regras da física, habitações que deviam merecer prémios de arquitectura. Janeiro de 2024. Foto © Tony Neves.

A integração dos pobres no trabalho de investigação, disse Elena, transformação, lenta e não linear, não se faz sem dores e resistências expondo muitas das nossas fragilidades, sobretudo num tempo em que tudo tem um objetivo, em que tudo é avaliado em termos de utilidade (mesmo o grátis) e em que a independência é afirmação da existência. Perceber que somos interdependentes e que é possível fazer coisas que não têm um objetivo específico, que não está pré-determinado, é uma verdadeira revolução. Mas para isso temos de aprender a escutar escutando, temos de aproximar-nos da linguagem do outro e entendê-la. Esse é um trabalho árduo e de grande humildade.

Elena Lasida chamou a atenção para a interdependência e o que ela representa de fragilidade, conscientes de que tudo é frágil e de que tudo é dom e que existe uma ligação entre a fragilidade e o dom. Há que aproveitar a fragilidade, que é criatividade, para construir algo radicalmente novo. Esta é uma nova forma de pensar a realidade e de produzir conhecimento.

Sabendo da história de Elena Lasida e com os apontamentos que Austen nos ofereceu sobre Francisco, percebi que o elo entre os dois foi a “revolução teológica” introduzida pela igreja da América Latina após o Concílio Vaticano II. São ambos, embora em momentos e por caminhos diferentes, devedores da Teologia da Libertação e de uma igreja a caminho e das suas experiências com os marginalizados, com os pobres.

Foi a referência de Austen à conferência de Aparecida que me despertou para o elo entre Elena e Bergolio.

Mas que evolução e transformações foram essas pelas quais passou a Igreja da América Latina cujas dinâmicas acabaram por marcar tanta gente e que tiveram um papel decisivo no que foi o pontificado de Francisco? Eu próprio, militante e colaborador do jornal Libertar durante anos, foi um dos que muito bebeu dessas experiências.

Porque penso ser cada vez mais importante o papel da memória e o modo como somos capazes – ou não – de transmiti-la às gerações mais novas para que dela se tornem guardiãs, pareceu-me importante, mesmo se de forma resumida e certamente com erros de análise para quem não é historiador, escrever sobre o assunto. Acresce ainda tratar-se de expressar a gratidão a todos e a todas os que através dos tempos, apresar de todas as contradições, tiveram a ousadia e a coragem de trilhar novos caminhos. Deles somos devedores.

A história da igreja latino-americana ensina-nos que é necessária ousadia, coragem e uma boa dose de risco no desbravar de novos caminhos a percorrer. Neste tempo de sinodalidade é importante que tenhamos presente o sopro vindo do outro lado do Atlântico. À semelhança do que foi o percurso dessas igrejas, esperamos e desejamos que o sopro do Espírito Santo permita o aparecimento de novos rostos desempoeirados que produzam teologia sobre este caminho e que pela sua práxis sejam humildes, capazes de dinamizar e influenciar o povo de Deus que caminha. Se assim for, este caminho de sinodalidade deixará as suas sementes e as suas marcas em muitos de nós e, sobretudo, nas gerações futuras.

 

O caminho da Igreja latino-americana e a opção pelos pobres

O Concílio Vaticano II impulsionou a Igreja na América Latina, promovendo a colegialidade episcopal e uma nova compreensão da evangelização, mais centrada na comunidade e no batismo.

A evolução da Igreja da América Latina e do Caribe, nomeadamente através das suas quatro conferências pós-conciliares e dos seus muitos actores que se envolveram no processo e nas suas dinâmicas, seja intelectualmente seja através da práxis, deu-lhe uma identidade e um rosto bem definidos.

1955: Primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, Rio de Janeiro, 25 de julho a 4 de agosto. Criação do Conselho Episcopal Latino Americano (CELAM). Nesta primeira conferência as preocupações centravam-se muito nos problemas vividos no interior da Igreja: falta de sacerdotes; a ignorância religiosa do povo; as missões entre os infiéis. Era uma igreja centrada em si própria e alheia aos problemas do mundo. Uma Igreja ad extra era praticamente inexistente. Embora ainda longe das preocupações sociais, a rápida industrialização faz com que se dê uma maior atenção à Doutrina Social da Igreja e a uma maior intervenção no mundo. Porém, tudo o que era do mundo cabia aos leigos. À Igreja cabia ocupar-se dos problemas da fé. Mesmo as populações indígenas eram olhadas como primitivas e a preocupação era a sua conversão e incorporação na civilização. Era como se não fizessem parte do mundo. Contudo, e apesar de todas as limitações, a decisão mais importante foi o pedido dirigido ao Papa Pio XII para se criar um organismo que pudesse unir mais as forças da Igreja na América Latina. Surgiu então o CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), aprovado pelo Papa em 2 de novembro de 1955. Este organismo vai ter um papel primordial na evolução futura das igrejas daquela região.

1968: Medellín. Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, Medellín, Colômbia, 24 de agosto a 6 de setembro. Esta conferência, a primeira após o Concílio Vaticano II, é uma tentativa – em parte conseguida – de uma releitura do concílio à luz da realidade da região. A quantidade de documentos produzidos (16 documentos) é disso exemplo. No documento sobre a Justiça (3) encontramos a palavra-chave que marcará Medellín, a palavra libertação. Dentre os pontos importantes do documento de Medellín ressalte-se a afirmação da injustiça institucionalizada como causa da pobreza do continente, o reconhecimento de que a paz é fruto da justiça e o compromisso da Igreja com o processo de libertação dos pobres.

1979: Puebla. Terceira Conferência-Geral do Episcopado Latino-Americano, Puebla, México, 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979. Base de toda a reflexão foi a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI de 8 de dezembro de 1975. Como Medellín foi uma releitura do Vaticano II para a América Latina e o Caribe. O período que vai de Medellín a Puebla corresponde à época do nascimento e início de sistematização da teologia da libertação, a reflexão teológica tipicamente latino-americana que, embora situada em seu contexto, teve repercussões mundiais, influenciando na forma de fazer teologia da Igreja do mundo inteiro e também nas perspectivas pastorais decorrentes dessa reflexão. Bebendo da inspiração da Evangelii Nuntiandi, publicada alguns anos antes, Puebla reconhece que o caminho da evangelização passa pela promoção da dignidade humana e, portanto, o engajamento pela libertação dos pobres é um dos compromissos que se esperam da Igreja. Assim, a opção pelos pobres não é vista, simplesmente, como uma afirmação ideológica, como muitos quiseram fazer ver na época e ainda hoje, mas um componente da vida da Igreja, uma vez que a história revela ter sido sempre esse o caminho escolhido por Deus para sua revelação.

1992: Santo Domingo. Quarta Conferência-Geral do Episcopado Latino-Americano, Santo Domingo, República Dominicana, 12 a 28 de outubro. Alguns aspectos tratados em Santo Domingo permanecem válidos e, de certa forma, se fazem ainda presentes na vida da Igreja latino-americana. O principal deles é, evidentemente, as questões em torno da promoção humana. Na linha de fidelidade à tradição da Igreja da América Latina, Santo Domingo reafirma o compromisso com os pobres e entende a promoção humana como componente essencial da evangelização, tal qual disse Puebla. Nesse sentido, a opção pelos pobres é retomada e reafirmada, assim como o compromisso de transformação da sociedade. Aqui, pois, não há nenhuma mudança no comportamento e nas preocupações pastorais da Igreja do continente. A questão da cultura, a novidade de Santo Domingo, aparece de duas formas ao longo do documento e é assim que entrará na vida da Igreja latino-americana. A primeira diz respeito às culturas dos povos latino-americanos, sobretudo às culturas oprimidas, afirmando-se sempre a necessidade de evangelizá-las. As reflexões surgidas em outras partes do mundo sobre a inculturação, sobretudo na África, não têm muita influência na confecção do documento, e, uma vez que a questão cultural não foi vista como prioritária na vida das Igrejas do continente, ela, de certa forma, permaneceu uma questão marginal mesmo após Santo Domingo. A outra forma da questão cultural aparecer no documento da IV Conferência, embora com um enfoque analógico, é a oposição entre cultura da vida e culturas de morte — no sentido de valores que defendem a vida e a dignidade humana e outros que as menosprezam.

2007: Aparecida. Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, inaugurada pelo Papa Bento XVI, em Aparecida, no dia 13 de maio e encerrou no dia 31 de maio de 2007.

Fonte: Vida Pastoral, Pe. Antonio Manzatto, As primeiras Conferências do CELAM

 

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