
Na Ucrânia, uma criança observa edifícios destruídos pela guerra, Foto © UNICEF/Diego Ibarra Sánchez.
Se na escola o seu filho é agredido por outro, além do consolo será apropriado estimulá-lo a responder com violência? Ou solicitar o poder apaziguador da direcção da escola e o diálogo?
Quando defendo o diálogo para acabar com a barbárie na Ucrânia muitos tratam-me com condescendência paternal, como se não tivesse também enfrentado a crueldade de alguns episódios na vida. Dizem-me que não entendo o básico que é diferenciar o agressor do agredido. E curiosamente tanto o dizem os que consideram a Rússia o agressor, com a sua óbvia invasão, como os que consideram que foi a Ucrânia nacionalista, agora apoiada pela OTAN/NATO, que já tinha começado a guerra antes, ao aniquilar a população russa, maioritária no Donbass. Para os primeiros há que parar quanto antes a lógica expansionista do agressor; para os segundos, ele é o agredido e tem o direito de defender-se. Para mim, dos dois lados só vejo irracionalidade.
Faz agora um ano ainda se discutia o regresso aos princípios dos acordos de Minsk de 2015, que tentavam parar com esta guerra que começou em 2014, que para uns era rebelião, outros guerra civil e outros guerra de independência. A Rússia, com ingenuidade, pretendia evitar que os EUA e a OTAN ampliassem a sua área de influência. O que Putin aspirava neutralizar ontem é hoje realidade, foi um tiro pela culatra. A Europa que vivia um tempo de desmilitarização progressivo, com avanços no significado da palavra “humanidade”, hoje converteu-se numa autêntica carreira de tiro para o relançamento da indústria de armamento, um autêntico tiro no pé.
Resultado: hoje a Ucrânia é palco de destruição total, é um campo de batalha desolador onde pode começar a terceira (e última?) guerra mundial. Esta a realidade macro.
Vejamos a micro. Há um mês, Tyre Nichols morreu após detenção violenta pela polícia de Memphis. É um caso em que podemos fazer as mesmas perguntas: quem foi o agressor? Quem o agredido? Quem é o povo? Quem representa a ordem? Era necessário o uso da força? Quanta era necessária para conter a ameaça? A força foi proporcional à ameaça? Façam um exercício racional, e não se limitem a colocar-se de um dos lados.
Dizei-me então: que vos parece que se deva fazer com o vosso filho? Se a criança fosse ucraniana, de Kiev ou de Mariopol, não responderia por certo. A organização Save the Children conta-nos que as crianças da guerra na Ucrânia não falam; calam-se, emudecem e olham para o vazio. Não é difícil imaginar o sem sentido da violência no cérebro em formação de uma criança. A realidade interrompeu-se com o rebentar de uma bomba, o seu pai está na guerra, a sua família perdida, a sua casa destruída a 100 metros ou a mil quilómetros, assim como a sua escola e os amigos perdidos ou mortos.
Sinto-me assim, como essa criança, e parece-me impossível dizer seja o que for que valha a pena. Se os maiores não agem, qual o valor de uma palavra de criança?
Eduardo Soto é botânico, especialista em orquídeas, realizador de cinema e colaborador do Observatório Ibérico de Energia; objector de consciência, vive em Cuenca (Espanha), onde lutou contra o cemitério de resíduos nucleares.










