
“O debate que venha a existir em outubro próximo pode ser um contributo relevante para os “processos sinodais” que Francisco acaba de desencadear.” Foto: Assembleia Geral do Sínodo, Outubro 2023. © Vatican Media
Só agindo em modo sinodal e fazendo a experiência da sinodalidade é que compreenderemos o que significa a sinodalidade. Este foi um dos motes da conferência de Imprensa em que a Secretaria Geral do Sínodo apresentou, esta quinta-feira, 14 de março, no Vaticano, as diretrizes para o caminho até à segunda sessão do Sínodo universal, em outubro, e mesmo mais além, as quais trazem a marca da intervenção do Papa. Há quem veja nelas um “travão” e quem entenda que ele alargou os horizontes ao Sínodo.
Este encontro com os jornalistas (presencialmente e a distância) deixou claro como, escassos dias depois de completar 11 anos de pontificado, o Papa tem estado a trabalhar intensamente com a Secretaria Geral, no sentido de o processo sinodal e a sinodalidade continuarem a ser dinamismos desde já vivenciados, e não meros temas de documentos, colóquios e formações. Mas, através de uma carta dirigida em 22 de fevereiro último ao cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo, identifica 10 matérias e outros tantos grupos de especialistas, sobre as quais os resultados só serão conhecidos em junho de 2025.
Dando conta desse trabalho conjunto, o cardeal Jean-Claude Hollerich, arcebispo do Luxemburgo e relator Geral do Sínodo, apresentou as três diretrizes propostas, todas elas subordinadas a uma pergunta transversal: “Como ser Igreja sinodal em missão?”, na qual se exprime aquela que talvez seja a preocupação maior desta etapa: preocupação com o método de concretização e atenção ao contexto em que se atua (para uma perspetiva mais ampla e fundamentada destas preocupações, ver o texto lido na conferência de Imprensa).
A primeira diretriz consiste em “manter viva a dinâmica sinodal na Igreja local, de forma a que um número crescente de pessoas possa fazer a experiência dessa dinâmica”, enfatizou aquele responsável. Para tal, apelou a que, em cada diocese, se releia o documento-síntese que resultou da primeira sessão do sínodo em Roma, em outubro de 2023 e se deite mão de boas práticas já em curso.
A segunda diretriz orienta-se para o aprofundamento e ensaio de resposta à pergunta geral referida, num trabalho que decorrerá em três patamares: Igrejas locais, conferências episcopais e agrupamentos de igrejas (ex.: a nível continental); o encontro internacional “Párocos para o sínodo” que se realiza em Roma de 29 de abril a 2 de maio próximo); e grupos de trabalho criados e coordenados conjuntamente pela Secretaria Geral do Sínodo e por dicastérios específicos.
A terceira diretriz orienta-se para o estudo de dez temas “de grande relevância”, enunciados pelo Papa, a partir de preocupações e desafios enunciados na primeira sessão do sínodo romano e constantes do Documento-Síntese. Estes temas serão preparados por grupos de estudo que funcionarão como “laboratório prático de sinodalidade”. Devem apresentar até 5 de setembro próximo uma súmula provisória do seu trabalho, de modo a ser presente à segunda sessão, no mês seguinte; e até junho de 2025 deverão entregar o resultado final.
Quer os grupos de trabalho quer os grupos de estudo deverão, assim, desenvolver a sua atividade “em modalidade sinodal” e incluirão peritos e pastores de todos os continentes. Os resultados da primeira e da segunda diretrizes constituirão um contributo para a elaboração do Instrumentum Laboris (instrumento de trabalho) da segunda sessão do Sínodo.
Quantos e quais os temas que o Papa pediu que sejam examinados? Eis a lista, com um breve sumário para cada tema, elaborado a partir do resumo feito pelo Vatican News:
1. Relações entre as igrejas católicas orientais e Igreja Latina
Tem em vista um maior conhecimento e diálogo entre os respetivos membros num contexto também de crescente migração e diáspora das comunidades cristãs orientais. Será composto por teólogos e canonistas orientais e latinos.
2. O grito dos pobres e marginalizados
Visa fortalecer a capacidade da Igreja de ouvir, a diferentes níveis e especialmente no plano local, as diferentes formas de pobreza e marginalidade”, as pessoas vítimas de marginalização, exclusão, abuso ou opressão, “mesmo na comunidade cristã”.
3. Missão no ambiente digital
Uma “dimensão crucial” do testemunho da Igreja na cultura contemporânea. O objetivo é avaliar e detetar as “implicações ao nível teológico, espiritual e canónico e identificar os requisitos ao nível estrutural, organizacional e institucional para a realização da missão digital”.
4. Sacerdotes, formação e relações
A Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, de 2016, sobre a formação dos presbíteros, carece de revisão. Seminários e percursos formativos, a ligação com a vida cotidiana, a conexão entre os percursos formativos para o ministério ordenado com outras figuras ministeriais são alguns dos aspetos a examinar.
5. Ministérios e papel da mulher
Este grupo centrar-se-á em questões teológicas e canónicas em torno de formas ministeriais específicas, incluindo continuar a “pesquisa teológica e pastoral sobre o acesso das mulheres ao diaconato”. Ponto central: refletir sobre a participação real de leigos e leigas, as relações entre as diferentes formas de ministério eclesial, as funções e serviços eclesiais que não requerem o sacramento da Ordem, os problemas decorrentes de uma conceção errónea da autoridade eclesial.
6. Vida consagrada e movimentos eclesiais
Revisão, em perspetiva sinodal e missionária, dos documentos sobre as relações entre bispos, vida consagrada, movimentos e novas comunidades, em ordem a uma melhor articulação e serviço.
7. Bispos, figura e funções
Estudo de alguns aspetos da figura e do ministério do bispo. Incluirá questões como os critérios para a seleção dos candidatos ao episcopado; o envolvimento das igrejas locais e do Povo de Deus nos processos de seleção, a natureza e a condução das visitas ad limina, a função judicial do bispo.
8. O papel dos Núncios
O papel dos núncios numa perspetiva sinodal missionária, incluindo o trabalho dos representantes pontifícios junto das igrejas onde realizam sua missão, a fim de melhorar seu serviço, e também as maneiras de fortalecer os laços de comunhão entre as Igrejas locais e o Sucessor de Pedro.
9. Questões “controversas”
Este grupo trabalhará sobre “critérios teológicos e metodologias sinodais para um discernimento compartilhado de questões doutrinárias, pastorais e éticas controversas. Ou seja, tratar-se-á de reler “as categorias tradicionais da antropologia, da soteriologia e da ética teológica com o objetivo de esclarecer melhor as relações entre caridade e verdade, em fidelidade à vida e ao ensinamento de Jesus”. A direção cabe ao Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé e ao Secretário da Comissão Teológica Internacional.
10. Diálogo ecuménico
Estudará dimensões como a receção dos frutos do caminho ecuménico nas práticas eclesiais; a hospitalidade eucarística; a experiência de casais e famílias inter-eclesiásticos; o fenómeno das comunidades “não denominacionais” e os movimentos de “reavivamento” carismáticos/pentecostais.
Deduz-se da carta enviada pelo Papa ao secretário geral do Sínodo que os dez temas que vão ser foco de estudo não serão objeto de votação na segunda sessão. Mas, além de esse trabalho ser feito em “dinamismo sinodal” e com participação diversificada, os progressos feitos até setembro serão partilhados com os membros do Sínodo.
Isto significa que os mais significativos pontos quentes, que já emergiram na primeira sessão e que se esperava fossem objeto de decisão na segunda, continuarão a ser trabalhados, cabendo ao Papa fazer dos resultados finais o que julgar oportuno. O que aconteceria sempre, de qualquer modo.
A correspondente do Religion News Service no Vaticano, Claire Giangravé, considera, na peça que escreveu sobre a conferência de Imprensa, que “o Vaticano trava o Sínodo sobre Sinodalidade e empurra temas ‘polémicos’ para 2025” e assegura que “as diaconisas, a formação sacerdotal e outras questões controversas não farão parte [da segunda sessão] do próximo Sínodo em outubro”.
É, no entanto, improvável que os temas escolhidos pelo Papa possam estar ausentes dos trabalhos do Sínodo. Desde logo, porque tocam assuntos centrais que fazem parte, ainda que de forma desigual, das preocupações das igrejas locais e certamente voltarão no quadro da escuta que atualmente decorre, em torno do texto-síntese da primeira sessão.
Certo é que o Papa quis que as matérias que se destacaram na sessão de outubro passado fossem aprofundadas e não esquecidas. Certo é, ainda, que o tempo para este estudo – que não é um mero estudo académico – carece de tempo. O debate que venha a existir em outubro próximo pode ser um contributo relevante para os “processos sinodais” que Francisco acaba de desencadear.









