
O Papa Francisco durante a visita a uma escola de crianças com deficiência, na sua recente viagem a Timor-Leste, em setembro: uma encíclica que vai direta ao coração de cada pessoa. Foto Vatican Media.
É caso para dizer que o Papa Francisco foi direto ao coração de cada pessoa, quando esta quinta-feira, dia 24, fez divulgar universalmente a sua quarta encíclica, intitulada Dilexit nos – Sobre o amor humano e divino do coração de Jesus
(Dilexit Nos são as primeiras palavras do documento na sua versão latina, que retoma uma frase de São Paulo na Carta aos Romanos – capítulo 8,37 – cuja tradução é “Ele amou-nos”, referindo-se a Cristo).
A encíclica é talvez a mais pessoal e espiritual escrita por Francisco e, no dizer do arcebispo e teólogo italiano Bruno Forte, que fez a sua apresentação no Vaticano, também aquela que mais explicita os fundamentos teológicos e a motivação do Papa argentino. Ela pode mesmo ser considerada a “chave de leitura” do seu magistério, acrescentou o teólogo.
[vídeo da apresentação a seguir]
Para justificar esta proposta, Bruno Forte chama a atenção para o que vem na encíclica, já na parte das conclusões: “O que está expresso neste documento permite-nos descobrir que o que está escrito nas encíclicas sociais Laudato Si e Fratelli Tutti não é alheio ao nosso encontro com o amor de Jesus Cristo, pois bebendo desse amor tornamo-nos capazes de tecer laços fraternos, de reconhecer a dignidade de cada ser humano e de cuidar juntos da nossa casa comum.”
A encíclica, que é menos extensa do que as anteriores, ainda assim espraia-se por 220 pontos, organizados em cinco capítulos, que vão de uma meditação sobre o que significa o coração na vida de qualquer pessoa até à proposta de uma redescoberta e renovação da antiga devoção ao Coração de Jesus, centrada no amor.
Nesse percurso, de leitura nem sempre fácil, ainda que a linguagem seja clara, observa-se a preocupação de Francisco em propor itinerários que evitem escolhos e desvios que a história da Igreja bem pôs em evidência, como seja o rigorismo e espiritualidades desencarnadas, o dualismo (humano-divino) ou o falso misticismo.
O Papa destaca, em particular, as correntes de inspiração jansenista, que “desprezavam tudo o que era humano, afetivo, corpóreo”, colocavam Deus “tão alto, tão separado, tão distante, que consideravam as expressões sensíveis da piedade popular perigosas e necessitadas de controlo eclesiástico”.
Hoje, segundo a Dilexit Nos, as dificuldades para redescobrir a devoção ao Coração de Jesus passariam pela secularização e o “mundo livre de Deus” que subjaz a algumas das suas correntes ou, também, por “várias formas de religiosidade sem referência a uma relação pessoal com um Deus de amor, que são novas manifestações de uma ‘espiritualidade sem carne’”.
O empecilho do ativismo

O texto alerta para o empecilho que decorre de comunidades e pastores “concentrados apenas em atividades exteriores, em reformas estruturais desprovidas de Evangelho, em organizações obsessivas.” Foto: Direitos reservados.
O texto alerta ainda para o empecilho que decorre de comunidades e pastores “concentrados apenas em atividades exteriores, em reformas estruturais desprovidas de Evangelho, em organizações obsessivas, em projetos mundanos, em reflexões secularizadas, em várias propostas apresentadas como requisitos que, por vezes, se pretendem impor a todos”. “O resultado é, muitas vezes – observa a encíclica – um cristianismo que esqueceu a ternura da fé, a alegria do serviço, o fervor da missão pessoa-a-pessoa, a cativante beleza de Cristo, a gratidão emocionante pela amizade que Ele oferece e pelo sentido último que dá à vida”.
Se os capítulos mais centrados no amor humano e divino de Jesus, traduzido em gestos e palavras, e no testemunho daqueles e daquelas que o seguiram, ocupam a maior parte do texto, o primeiro capítulo, intitulado “A importância do coração” pode ser leitura desafiante e porventura inesperada para um leque mais alargado de pessoas.
Nessa parte do documento encontramos Jorge Bergoglio, contando histórias da sua infância e mesmo do seu período de formador na Companhia de Jesus. E é interessante o reconhecimento que exprime a um padre jesuíta, Diego Fares de seu nome, notando que parte das reflexões deste capítulo foram inspiradas em escritos inéditos dele. Através do arcebispo Bruno Forte, ficou-se a saber que esse jesuíta foi alguém que o Papa acompanhou espiritualmente, na Argentina.
Citando autores tão díspares como Homero, Platão, Heidegger ou Dante, sem falar nos místicos mais ligados ao Coração de Jesus e ao amor que ele simboliza, o Papa considera que com a antiguidade aprendemos que o ser humano não é “uma soma de diferentes capacidades”, mas “um complexo anímico-corpóreo com um centro unificador que dá a tudo o que a pessoa experimenta um substrato de sentido e orientação”. Esse centro ou núcleo é o coração, tantas vezes escondido atrás das aparências e superficialidades, “o que torna difícil o autoconhecimento e ainda mais difícil conhecer o outro”.
Voltar a falar ao coração

“Neste mundo líquido, é necessário voltar a falar do coração; onde cada pessoa faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas.” Foto: Direitos Reservados.
O documento defende que, “neste mundo líquido, é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas”. A tarefa não é fácil, desde logo por uma lógica de consumo em que o agora é que conta e em que os “ritmos e ruídos da tecnologia deixam as pessoas “sem muita paciência para os processos que a interioridade exige”. Resultado? O ser humano “corre o perigo de se desorientar do centro de si mesmo”, sentindo-se “dividido, quase privado de um princípio interior que crie unidade e harmonia no seu ser e no seu agir”.
Em contrapartida o coração tem um “poder único” que “ajuda a compreender porque é que se diz que quando apreendemos uma realidade com o coração podemos conhecê-la melhor e mais plenamente. “Ao mesmo tempo – afirma a Dilexit Nos – o coração torna possível qualquer vínculo autêntico, porque uma relação que não é construída com o coração não pode ultrapassar a fragmentação do individualismo.” Também por isso se diz no documento que “o mundo pode mudar a partir do coração”.
A citação de um dos pontos conclusivos resume o essencial:
“Hoje tudo se compra e se paga, e parece que o próprio sentido da dignidade depende das coisas que se podem obter com o poder do dinheiro. Somos instigados a acumular, a consumir e a distrairmo-nos, aprisionados por um sistema degradante que não nos permite olhar para além das nossas necessidades imediatas e mesquinhas. O amor de Cristo está fora desta engrenagem perversa e só Ele pode libertar-nos desta febre onde já não há lugar para o amor gratuito. Ele é capaz de dar coração a esta terra e reinventar o amor lá onde pensamos que a capacidade de amar está morta para sempre”.
O texto integral da encíclica está disponível na página do Vaticano:









