Peregrinar é a condição de todo o povo de Deus: Moisés a caminho da Terra Prometida, os patriarcas e os profetas, Cristo nos caminhos poeirentos do mundo, e, depois d’Ele, os primeiros cristãos, que aprenderam a caminhar com o coração além da paisagem visível.
É bom termos a consciência clara de que não temos aqui morada permanente. Há momentos em que nos é pedido — convites ao modo divino — que deixemos os nossos confortos e as nossas rotinas para entrarmos nesse despojamento que acompanha todas as partidas.
E é só então, apenas então, que percebemos o que deixamos: ambientes, pessoas, ritmos, cheiros e paisagens, temperaturas amenas, sabores particulares. Hábitos que julgávamos seguros e certos. Tudo isso fica para trás quando nos pomos a caminho.

“Deus, que é o Deus da memória, concede-nos interiormente a vida numa diacronia sincrónica, onde todos os tempos se tocam. E nos nossos passos, reconhecemos a cadência dos nossos irmãos do Livro e da Palavra.” Foto © Neon /Unsplash
E, de repente, ficamos nós — nós e o nosso passado — e nada à nossa frente.
A folha em branco. Totalmente em branco. E nessa total possibilidade, o tempo, objetivamente tão escasso e tão incerto, emerge como suspenso ou habitando a eternidade.
Ergue-se então, com nitidez, a imagem de todos os peregrinos bíblicos. Deus, que é o Deus da memória, concede-nos interiormente a vida numa diacronia sincrónica, onde todos os tempos se tocam. E nos nossos passos, reconhecemos a cadência dos nossos irmãos do Livro e da Palavra.
A consciência de uma solidão desapegada e tão acompanhada transforma-nos: aquilo que parecia novo e algo errante torna-se vida radicada. Radicada para trás, no percurso terreno humano milenar e tão eloquente; e radicada para cima, onde a “grande nuvem de testemunhas” nos envolve e habita.
E então, a bendita solidão abre-se em Deus como uma porta estreita para uma nova dimensão do peregrino. Uma dimensão onde as palavras de Cristo brilham com uma verdade interior e luminosa: “O Reino de Deus já está no meio de vós.”
E o ruído do mundo revela-se como um desacerto, esse sim, errante e superficial. Porque, na paz que não é nossa, ouvimos melodias que vêm antes de nós e nos atravessam. Somos definitivamente parte de uma sinfonia que nos transcende.
Expormo-nos a peregrinar, em qualquer tempo e modo da nossa vida, quando essa condição é aceite e abraçada, é — como foi para Moisés e para todo o povo de Deus — a experiência mais essencial e poderosa.
Aquela em que percebemos, com uma clareza que só o deserto permite, as poucas variáveis de que a vida realmente se tece — e todas elas, uma a uma, carregadas da possibilidade de Deus.
Deo gratias.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.










