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Atentado na igreja Igreja Ortodoxa Grega de Santo Elias, situada no bairro de Dweila, em Damasco, a capital da Síria. Foto Patriarcado Greco-Ortodoxo de Antioquia
Igreja de Santo Elias, em Damasco (Síria) após o atentado terrorista de junho passado. Foto © Patriarcado Greco-Ortodoxo de Antioquia

Relatório da Portas Abertas

Perseguição atingiu mais de 388 milhões de cristãos em todo o mundo, e aumentou drasticamente na Síria

| 14/01/2026

A pressão e violência atingiram mais de 388 milhões de cristãos em todo o mundo no último ano, e a perseguição extrema cresceu face ao ano anterior, atingindo agora 15 países, com a Síria a entrar diretamente para o sexto lugar do top. Os dados são avançados pela organização internacional Portas Abertas, que divulgou esta quarta-feira, 14 de janeiro, a sua Lista Mundial da Perseguição 2026.

De acordo com o estudo, realizado anualmente desde 2014, o número total de cristãos a viver em países com altos níveis de perseguição ou discriminação pela sua fé aumentou oito milhões desde 2024, representando atualmente um em cada sete cristãos no mundo.

A Síria é o único país estreante na lista dos 10 lugares mais perigosos para ser cristão, tendo subido da 18ª posição em que se encontrava no ano anterior. Tal evolução pode ser explicada pelo vazio de poder deixado pelo colapso da ditadura de al-Assad em dezembro de 2024, que encorajou vários grupos extremistas anticristãos a vandalizar igrejas, profanar túmulos e encerrar escolas.

O ataque terrorista à Igreja de Santo Elias, em Damasco, a 22 de junho do ano passado, que matou pelo menos 22 cristãos, também deu um forte contributo para esta classificação.

“Quando o regime de Assad caiu, havia um otimismo cauteloso de que os cristãos na Síria pudessem encontrar alívio sob uma nova liderança”, refere Matthew Barnes, do gabinete de comunicação da Portas Abertas no Médio Oriente. “Em vez disso, vimos uma reversão devastadora: um atentado suicida, igrejas profanadas e cristãos forçados ao deslocamento. Essa dura realidade exige atenção internacional urgente”, apela.

Nas grandes cidades de Damasco e Aleppo, grupos islâmicos têm apelado à conversão ao Islão, percorrendo os bairros cristãos com camiões com alto-falantes e afixando cartazes em igrejas a exigir o pagamento do imposto jizya àqueles que não se convertem.

A situação para os cristãos é mais tolerável nas regiões costeiras da Síria e no nordeste governado pelos curdos, detalha a organização Portas Abertas. Mas mesmo aí as autoridades sírias fecharam 14 escolas cristãs que se recusaram a adotar um novo currículo curdo, negando educação a milhares de alunos. 

 

Nigéria lidera no número de mortes

Enterro em massa de cristãos na Nigéria, na sequência de um ataque de elementos do Boko Haram. Foto Christian Social Movement of Nigeria

Enterro em massa de cristãos na Nigéria, na sequência de um ataque de elementos do Boko Haram. Foto © Christian Social Movement of Nigeria

No ranking de países onde a perseguição religiosa é maior, a Síria ultrapassou até a Nigéria, apesar de esta continuar a ser o epicentro global da violência mortal contra cristãos. Dos 4.849 cristãos mortos em todo o mundo por causa de sua fé durante o período analisado, 3.490 eram nigerianos – um aumento em relação aos 3.100 do ano anterior e que pode pecar por defeito. De acordo com a Sociedade Internacional para as Liberdades Civis e o Estado de Direito (Intersociety), com sede na Nigéria, citados pelo Catholic Register, 7.000 cristãos foram mortos no país durante os primeiros 220 dias de 2025, uma média de 32 mortes por dia.

Mas um dos motivos pelos quais a Nigéria ocupa a sétima posição é que a perseguição à vida privada, familiar, comunitária, nacional e religiosa não é tão severa quanto em outras nações. Além disso, entre 100 e 110 milhões de cristãos viviam na Nigéria no final de 2025, um número muito superior às centenas de milhares na Síria, Coreia do Norte e outros países que ocupam os primeiros lugares da lista.

O Sudão (que ocupa o 4º lugar) subiu uma posição na lista deste ano devido à violência contra os cristãos. A guerra civil, em curso desde 2023, deslocou quase dez milhões de pessoas. As Forças de Apoio Rápido, que controlaram grande parte da capital Cartum por quase dois anos, destruíram os edifícios de diversas escolas e igrejas cristãs, incluindo a Igreja Evangélica Presbiteriana do Sudão e a Igreja Evangélica no bairro de Omdurman. Após o exército nacional do país ter retomado o controlo em março passado, procedeu à demolição de uma igreja pentecostal. 

De notar que o relatório da Portas Abertas regista aumentos em quase todos os principais indicadores de violência contra cristãos. O número de mortos subiu de 4,4 mil para 4,8 mil, os casos de cristãos abusados física ou mentalmente passaram de 54,7 mil para 67,8 mil, os registos de violação ou assédio sexual aumentaram de 3,1 mil para 54 mil e os casamentos forçados de 821 para 1,1 mil. As condenações por causa da fé subiram de 1,1 mil para 1,2 mil e o número de cristãos forçados a fugir ou esconder-se dentro dos seus países ultrapassou os 200 mil.

 

Alguns indicadores positivos

Apesar de o cenário geral ser bastante negativo, o relatório aponta alguns indicadores positivos. No Bangladesh, a violência face aos cristãos diminuiu cerca  de 20% depois da destituição da primeira-ministra Sheik Hasina, em agosto de 2024.

Na Malásia , país que figura pouco abaixo dos 50 mais perigosos para os cristãos, o Supremo Tribunal emitiu uma decisão inovadora que reconheceu o papel das forças policiais no sequestro do pastor Raymond Koh em 2017. O tribunal ordenou ao governo que reabrisse a investigação e pagasse uma multa por cada dia do desaparecimento de Koh, que já ultrapassou os 7 milhões de dólares. 

Por fim, embora as condições de liberdade religiosa não estejam a melhorar substancialmente em Cuba (número 24 da lista), México ( 30), Nicarágua (32) ou Colômbia (47), a Portas Abertas reconhece que houve um aumento na defesa da liberdade religiosa ao nível local e global em nome dos fiéis nesses países. As igrejas nesses contextos “demonstram notável resiliência e criatividade” no atendimento às suas populações vulneráveis, observa o relatório.

 

 

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