Os Patriarcas e Chefes das Igrejas de Jerusalém condenaram o ataque de colonos israelitas contra habitantes da aldeia cristã de Taybeh, na Cisjordânia, e alertam para uma vaga de violência que, dizem, está a atingir várias localidades palestinianas durante a época da apanha da azeitona. Os líderes cristãos atribuem a continuação destes ataques à “impunidade” dos seus autores e pedem às autoridades israelitas e à comunidade internacional medidas efetivas de proteção da população.
A declaração dos líderes cristãos, datada de 19 de outubro e divulgada esta terça-feira, 20, refere-se ao ataque ocorrido no sábado, dia 17, quando colonos mascarados investiram contra habitantes de Taybeh que participavam na apanha da azeitona e contra visitantes estrangeiros que se encontravam no local numa iniciativa de solidariedade.
Entre estes estavam diplomatas da Bélgica, França e Polónia, bem como representantes católicos. Segundo a Associated Press, os atacantes estavam armados com barras de metal.
“Este ataque selvagem contra a aldeia cristã de Taybeh e contra a sua população pacífica não é um incidente isolado”, afirmam os responsáveis das Igrejas de Jerusalém, que incluem líderes católicos, ortodoxos e protestantes.
Nas últimas semanas, acrescentam, as aldeias palestinianas da Cisjordânia têm sido alvo de um “terror em larga escala por parte de colonos”, que está a atingir um ponto particularmente grave durante a apanha da azeitona, período em que muitas famílias palestinianas se deslocam às suas terras para recolher um produto essencial à sua subsistência e manter a ligação a terrenos cultivados ao longo de gerações.
A violência durante a campanha da azeitona tem-se intensificado. Na véspera do ataque em Taybeh, colonos atacaram palestinianos em pelo menos oito aldeias da Cisjordânia, incendiando automóveis e árvores e agredindo habitantes e uma fotojornalista. De acordo com a Associated Press, mais de 1.600 incidentes envolvendo violência de colonos tinham sido registados desde o início deste ano.
Uma decisão religiosa “perigosa e absolutamente inaceitável”
Na declaração, os responsáveis cristãos manifestam ainda preocupação com uma recente decisão religiosa que, segundo afirmam, permite a judeus apropriarem-se das azeitonas de palestinianos.
Os Patriarcas e Chefes das Igrejas classificam essa decisão como “infundada, muito preocupante e perigosa, e absolutamente inaceitável”, ao mesmo tempo que valorizam a tomada de posição de vários rabinos e outras vozes judaicas que a rejeitaram publicamente.
Os líderes cristãos agradecem também ao Presidente israelita, Isaac Herzog, a condenação pública da violência, mas consideram que as palavras não são suficientes.
“Infelizmente, os factos no terreno mostram que estes ataques continuam devido à impunidade de que beneficiam aqueles que os cometem”, afirmam.
A polícia israelita anunciou entretanto a detenção de dez pessoas no âmbito da investigação à vaga de ataques ocorridos durante o fim de semana. Além da polícia, estão envolvidos nas investigações o Shin Bet, serviço de segurança interna israelita, a polícia de fronteiras e o exército.
Os líderes das Igrejas reconhecem estas ações e as detenções efetuadas, mas manifestam a expectativa de que a atuação das autoridades prossiga “de forma séria e consistente” e não fique reduzida a “uma medida isolada”.
O ataque a Taybeh provocou também condenações internacionais. O embaixador norte-americano em Israel, Mike Huckabee, classificou-o como um “ato desprezível de terror” e defendeu penas de prisão para os responsáveis. O ministro dos Negócios Estrangeiros belga, Maxime Prévot, denunciou igualmente o ataque aos diplomatas e defendeu o fim da impunidade da violência dos colonos.
Preservar a presença cristã
Situada a cerca de 30 quilómetros de Jerusalém, Taybeh tem aproximadamente 1.300 habitantes e é apresentada pelo Patriarcado Latino de Jerusalém como a única aldeia palestiniana cuja população é inteiramente cristã. A localidade, identificada com a Efraim bíblica, conserva ainda as ruínas da antiga igreja de São Jorge, cuja construção original remonta ao século V.
A aldeia tem sido sucessivamente alvo de ataques. Em julho de 2025, os responsáveis das Igrejas de Jerusalém deslocaram-se a Taybeh depois de um incêndio provocado junto ao cemitério e à histórica igreja de São Jorge, denunciando então uma intensificação dos ataques contra a comunidade e apelando à intervenção das autoridades israelitas.
Nos últimos meses, a situação voltou a agravar-se. Em agosto, como o 7MARGENS noticiou, as autoridades israelitas chegaram a estabelecer uma “zona militar fechada” em redor da localidade, alegadamente para proteger os habitantes dos sucessivos ataques, proibindo a entrada de israelitas não residentes, jornalistas e estrangeiros. A medida suscitou, porém, reservas entre responsáveis locais e eclesiais, que questionavam se seria efetivamente aplicada e se impediria novas incursões de colonos.
Na altura, o pároco de Taybeh, Bashar Fawaedlh, afirmava que a decisão só poderia ser avaliada pelos seus resultados: se os ataques cessassem, se os agricultores pudessem chegar às suas terras em segurança e se as famílias conseguissem permanecer nas suas casas sem medo. Dois meses depois, o novo ataque ocorreu precisamente durante a apanha da azeitona e atingiu não apenas habitantes da aldeia, mas também visitantes estrangeiros que ali se encontravam numa iniciativa de solidariedade.
Na nova declaração, os líderes cristãos pedem às autoridades competentes que levem à justiça os responsáveis pelo ataque de sábado e apelam à comunidade internacional para que intensifique os esforços destinados a proteger os habitantes de Taybeh e de outras localidades da Cisjordânia, assim como as pessoas que ali se deslocam em solidariedade.
“Renovamos o nosso total apoio à comunidade de Taybeh e às suas igrejas e continuaremos, como no passado, a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para preservar a presença cristã naquele lugar”, garantem.
A declaração termina com uma oração pelos habitantes de Taybeh e por todos os povos da Terra Santa, para que “possam viver em segurança, justiça e paz”.










