Durante os primeiros seis meses de mandato, o atual governo dos Estados Unidos da América (EUA) implementou “a política migratória mais restritiva e desumanizadora que as Américas já viram em anos”. E isso deixou “centenas de milhares de pessoas, muitas das quais esperavam buscar asilo nos EUA, abandonadas no México e em toda a América Central”, denuncia o mais recente relatório da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).
Intitulado “Indesejados: O impacto humano devastador das mudanças nas políticas migratórias nos Estados Unidos, México e América Central“, o relatório destaca como “as políticas e a retórica” do governo de Donald Trump “minaram o direito de buscar asilo e deixaram muitos migrantes e requerentes de asilo sem ter para onde ir, aprisionando-os num ciclo de violência física, emocional e institucional”. ´
“Essas políticas, combinadas com a redução drástica da ajuda e a pegada humanitária ao longo da rota migratória, tiveram um impacto devastador no bem-estar das pessoas que buscam segurança”, afirma Franking Frías, diretor-adjunto de operações da MSF no México e na América Central, citado no documento. “Esse sofrimento é deliberadamente invisibilizado, ocultado pela narrativa imprecisa de que a migração parou. Mas, todos os dias, vemos as consequências em pacientes que vivem com ferimentos não tratados, traumas de violência sexual e graves problemas de saúde mental que tornam sua vida diária impossível”, alerta o responsável da organização humanitária.
Divulgado na última semana, o relatório baseia-se na análise de dados médicos da MSF, entrevistas em profundidade com pacientes de diversas nacionalidades em diferentes estágios de migração e entrevistas com profissionais da organização que trabalham ao longo da rota migratória no Panamá, Honduras, Guatemala e México.
Desde o final de janeiro, o governo dos EUA fechou os principais meios de pedido de asilo e proteção (incluindo a aplicação CBP One e o fim da liberdade condicional humanitária), aumentou a segurança na fronteira com o México e “deportou pessoas em condições inaceitáveis, incluindo a deportação de pessoas algemadas, o envio de deportados para terceiros países e a separação de famílias”.
“Migrar foi uma decisão urgente para salvar as nossas vidas”
Carmen López, diretora de atividades de saúde móvel da MSF, conta a história de um paciente venezuelano que atendeu na Guatemala. O homem e o seu filho haviam sido deportados dos EUA no início deste ano, apesar de terem entrado através da aplicação CBP One. “Primeiro, foram mantidos num centro de detenção nos Estados Unidos, separadamente, por cerca de 20 dias”, relata López. “Depois, foram deportados para o México. Durante a transferência para as autoridades mexicanas, a sua mochila com itens pessoais e economias foi roubada. Eles foram deixados em Villahermosa [uma cidade no sudeste do México]. Tiveram que iniciar o regresso [à Venezuela] sem dinheiro. Ele estava muito frustrado porque havia passado pelo processo legal e, no final, tudo não passava de uma mentira”, conclui.
Para muitas pessoas, regressar ao seu país não é uma opção, seja por falta de recursos financeiros ou pelo medo do que as levou a fugir. Há pessoas que fugiram das crises política e económica na Venezuela e em Cuba, da violência generalizada no Haiti, do conflito na Colômbia e das ameaças de grupos criminosos no Equador.
“Recebemos um ultimato de 24 horas para pagar uma quantia que não tínhamos”, diz uma salvadorenha em Tapachula, no sul do México. “Migrar não foi uma escolha política nem uma busca por melhores oportunidades económicas. Foi uma decisão urgente para salvar as nossas vidas.”
Mas vários países do corredor migratório latino-americano também reforçaram medidas de dissuasão, acrescenta o relatório. “Agentes da lei e autoridades de imigração da região repatriaram migrantes à força, restringiram a circulação de pessoas e desmantelaram acampamentos urbanos onde pessoas sem para onde ir se abrigavam. Fecharam postos de recepção de migrantes, dissolveram aglomerações em espaços públicos, realizaram batidas policiais, detiveram pessoas arbitrariamente, intensificaram o patrulhamento e complicaram e reduziram o acesso a procedimentos burocráticos, incluindo processos de asilo”, pode ler-se.
Com a busca de asilo na fronteira sul dos Estados Unidos a tornar-se quase impossível, dezenas de milhares de pessoas veem o México como a única alternativa. Mas as equipas da MSF testemunharam como os procedimentos de asilo no México também se tornaram mais longos e complexos em diversas cidades. Paralelamente, “a violência perpetrada por grupos do crime organizado e outros continua alarmante, incluindo sequestros, extorsão, roubos, violência sexual e exploração no trabalho”.
“A violência é muito mais evidente agora”, diz Ricardo Santiago, que coordenou os programas da MSF no norte e no sul do México. “Antes – dado o grande número de pessoas em deslocamento – algumas eram poupadas, enquanto hoje a maioria das pessoas com quem conversei foram vítimas de violência. Não há escapatória”, lamenta.
“Todos os governos da região devem agir agora”

Devido aos traumas e stress a que são sujeitos, muitos migrantes precisam de tratamento farmacológico. Foto © MSF
A organização humanitária tem observado um aumento no número de pessoas que precisam de cuidados de saúde mental , especialmente no México. “Nos últimos anos, muitos pacientes têm tido uma necessidade evidente de apoio à saúde mental devido à violência recorrente que sofreram e às condições de vida precárias que enfrentaram ao longo da rota migratória. Além dessas experiências, as pessoas agora enfrentam a incerteza provocada pelas mudanças políticas drásticas e numerosas, que geram desespero ao perceberem que tudo foi em vão”, refere o relatório.
“Os sintomas estão cada vez mais intensos”, diz Lucía Samayoa, coordenadora do projeto da MSF em Tapachula, México. “Eles vivem sob muita pressão e stress. Muitas pessoas precisam de tratamento farmacológico, com um processo terapêutico mais estruturado e longo”, explica.
Além disso, os migrantes retidos e requerentes de asilo “dispersaram, tornando-se mais invisíveis, devido ao medo de processo, detenção e deportação num ambiente estigmatizante, no qual são repetidamente rotulados como criminosos”.
“Hoje, os migrantes são menos acessíveis e o sistema humanitário não está preparado para lidar efetivamente com as suas vulnerabilidades e necessidades complexas”, diz Frías. “Por trás de cada política, está o seu impacto sobre pessoas reais: sobreviventes de tortura, famílias que escapam do perigo e crianças que atravessam a fronteira sozinhas”, alerta.
E recordando que “a saúde, a segurança e a dignidade deles são obrigações legais e morais”, deixa um apelo: “Todos os governos da região devem agir agora para proteger, e não punir, as pessoas em busca de segurança, e criar vias de imigração seguras”.










