
O editorial deste suplemento de setembro do L’Osservatore Romano sublinha a complexidade da relação das mulheres com a Igreja entre “lealdade inabalável” e “rebelião”. Foto: Direitos reservados
Não fui eu que abandonei a Igreja. Foi ela que me deixou. De facto, ela nunca me aceitou verdadeiramente. Demorei algum tempo a aperceber-me disso. Depois, de repente, tornou-se claro para mim. Lembro-me do momento exato. Estava a ver o funeral de João Paulo II na televisão. Eram imagens em movimento. Mas havia qualquer coisa que me perturbava. Depois, de repente, a revelação: eram todos homens. Onde estão as mulheres?, perguntei-me. E continuo a interrogar-me. Não foi fácil deixar de me considerar católica. No início senti-me culpada, era como trair a minha família. Por vezes, ainda sinto falta da comunidade. Mas não posso voltar atrás. As minhas filhas, que têm uma visão mais distanciada, ajudaram-me a ver as coisas mais claramente. Porque é que hei de fazer parte de uma instituição que mantém as mulheres à margem e que, além disso, justifica essa exclusão com razões doutrinais e teológicas?”
O depoimento pertence a Marta, uma mulher citada no mais recente número do suplemento mensal Donne, Chiesa, Mondo [Mulheres, Igreja, Mundo] do L’Osservatore Romano, o jornal oficial da Santa Sé, com o tema de capa “Fiel e rebelde”.
O abandono de Marta configura apenas um dos tipos de relação das mulheres com a Igreja Católica, nomeadamente das raparigas. O editorial deste suplemento de setembro, intitulado Esperando a mudança, sublinha a complexidade da relação das mulheres com a Igreja entre “lealdade inabalável” e “rebelião”, entre “frustração e esperança” de que algo de substancial mude. E tipifica algumas dessas posições, visíveis particularmente nas décadas mais recentes.
Os abandonos ocorrem por motivos diferentes, mas têm, frequentemente, na sua génese, “uma desilusão” relativamente à Igreja – são, por exemplo, as tantas “Martas” que sentem não ter lugar, não serem reconhecidas na sua dignidade. O editorial refere que, há alguns anos, eram sobretudo as jovens na casa dos 40, ao passo que atualmente isso acontece em idades mais jovens: dando o exemplo do caso italiano, as raparigas com menos de 30 anos que se declaram católicas baixaram para 33 por cento, quando eram quase o dobro há dez anos; relativamente às que se declaram ateias, regista-se um movimento inverso: no mesmo período, saltaram de 12 para 29,8 por cento.
Estar num barco no meio da tempestade
Há, depois, as que permanecem e que ajudam a manter a instituição viva com a sua presença ativa, mas sem deixarem de denunciar o que entendem dever ser mudado. “Estou neste barco que reúne aqueles que acreditam e que traz um tesouro para todos, mas também não posso ficar de braços cruzados, porque há uma forte tempestade que ameaça a credibilidade e a vida eclesial”, testemunha, no mesmo suplemento, a teóloga Simona Segoloni.
Um número crescente de mulheres coloca-se naquilo que o editorial designa por “posição liminar”, isto é, praticam a fé mas exprimem críticas à hierarquia da Igreja, buscando, ao mesmo tempo, nessa zona indefinida, “entre o centro e a periferia”, um “deus diferente”, o ‘deus das mulheres’, como exemplifica a feminista cristã e advogada Grazia Villa.
Há, enfim, as mulheres (leigas, consagradas, catequistas, teólogas, casadas, solteiras …) que “permanecem e conseguem aguentar na Igreja”, como um verdadeiro pilar, dedicando “o seu tempo, energia e competência “a apoiar a comunidade eclesial. “Sem o seu empenhamento, muitas paróquias e serviços sociais não poderiam funcionar com a mesma eficácia”.
Contudo, conclui o editorial, qualquer que seja o posicionamento, “a questão da igual dignidade das mulheres é considerada crucial para o futuro da instituição”. “A liderança feminina – dizem todas – não é uma questão de justiça social, mas uma necessidade espiritual e pastoral”.
Sem grandes ousadias no domínio do que pode e deve ser feito, nomeadamente na próxima segunda assembleia do Sínodo sobre a Sinodalidade, este suplemento não deixa, no entanto, de, nas suas 42 páginas, nos transportar para o contexto africano e para o protagonismo crescente que as mulheres estão a assumir nas comunidades cristãs desse continente, através do testemunho da biblista Isabel Alfaro.









