Porque vou estar à conversa com um judeu e um muçulmano no dia 4 de fevereiro?

| 23 Jan 2024

 

1. Porque fui convidado por amigos a quem admiro, da MEERU. A amizade desencadeia imediatamente a vontade de participar com alegria. Além disso, saber que esta conversa em que vou participar é uma iniciativa de quem se dedica tão belamente à Esperança nos desafios quotidianos da inclusão e de relações improváveis, é privilégio acrescentado.

2. Porque gosto tanto de ver as coisas de outros lugares, pensar com as palavras de outros, ouvir histórias e receber visões. Estar à conversa com um irmão judeu e com um irmão muçulmano significa entregar uma mão a um e a outra mão a outro e ficar feliz por me levarem a passear a ver o que eles quiserem.

3. Porque me fascina esta maravilha de andarmos num Mistério e vivermos de sinais, aproximações, alegorias, metáforas, imagens, palavras. Não nos é possível “ver” o Mistério, apesar de nele vivermos, nos movermos e existirmos. Não faz parte do naipe de sentidos com que os seres humanos estão apetrechados um que sirva para captar “Deus”, nem temos nenhum órgão cuja função seja reagir ao “Mistério”. Há outra minúcia e inteireza necessárias… Os crentes são catadores de sinais e, nos melhores dias, cantadores de prodígios e narrativas. Estar à conversa com um irmão judeu e um irmão muçulmano permite a partilha generosa destes sinais colhidos e interpretados, destas alegorias e metáforas diferentes, destas imagens, palavras e parábolas. Em cada uma das nossas tradições espirituais há uma potência de revelação que merece ser oferecida.

4. Porque ver-me pelos olhos de outros é sempre um modo de bênção. No meu caminho cristão há muitas coisas que eu guardo como normais, inquestionáveis ou óbvias. Sempre que encontro quem não veja as coisas a partir da mundividência cristã, nem – ainda mais explícito – a partir do mínimo ângulo de visão da minha própria tradição carismática e experiência pessoal, sou bafejado pela surpresa. Poder receber pelos olhos de outros o que para mim é já matéria de carne e evidência, é uma porta aberta para perguntas certas.

5. Porque nós os três comungamos na fé em Deus Criador. Por isso, sabemos que na origem de tudo está um desígnio único, um amor único, um projecto único, uma Criação Una. Pormo-nos à conversa a partir deste lugar teológico de comunhão radical é, só por si, um sinal bonito, entre a poesia do uno e a profecia da unidade.

6. Porque nós os três nos conhecemos desde o tempo em que estávamos juntos nas entranhas de Abraão, princípio visceral das nossas tão ampliadas tradições. Por isso, trazemos nas memórias mais primevas este apelo entranhável à irmandade, à paternidade comum na bênção e na promessa. Gostava tanto que este “estar à conversa” se tornasse um “andar d’esperanças”, em paradigma abraâmico, caminhando juntos para levar a paz onde ela é tão urgente.

7. Porque nós os três somos gente d’A Palavra, acreditamos num Deus que se diz, um Deus que fala, um Deus que conversa connosco, em modos vários e mediações. Somos até gente que anda debaixo do braço de um Livro. Sim, não andamos com livros sagrados debaixo do braço, são os nossos Livros Santos que nos transportam a nós, que nos lêem continuamente. Quando abrimos os nossos Livros Santos, sabemos que estamos a expor-nos ao Livro, estamos a deixar-nos folhear por ele, posicionamo-nos para sermos lidos pelo texto sagrado. Somos esses que acreditam no vigor de palavras que nunca murcham nem se esgotam, e fazemos da Palavra um lugar de incessante interpretação e encontro. Por isso, estarmos à conversa há-de ser uma velada profissão de fé na vitalidade da Palavra de um Deus que se comunica.

8. Já agora, também vou estar à conversa com um judeu e um muçulmano no dia 4 de fevereiro porque já desconversámos demasiadas vezes! Precisamos de oportunidades para dicções autênticas e esperançosas entre nós, palavras bem ditas. Muitas palavras mal ditas já aconteceram. Ainda acontecem, infelizmente. Creio numa profecia transcrita no último livro do meu Novo Testamento, onde o sonho do projecto criador e salvador de Deus, finalmente culminado, é ilustrado maravilhosamente com imagens e palavras. Coisa de beleza estontante. A meio dessa exuberância, um milagre deste calibre: “E nunca mais haverá nada mal dito!” (Ap 22, 3) É por isso que estarmos assim à conversa, os três, é uma ocasião para ensaiarmos tal futuro grandioso. É um treino de bendição partilhada, de bênção recíproca, de palavras bem ditas, que nos bendigam uns aos outros. Oferecemos coisas bem ditas uns aos outros, até que não haja nada mal dito. Quem sabe…? Podemos, pelo menos, numa tarde de domingo, estar à conversa como quem crê e quer.

 

Rui Santiago é missionário redentorista e presbítero católico.

 

Rui Santiago estará à conversa com Khalid Jamal e com Joshua Ruah, no dia 4 de Fevereiro, às 15h, na Porta, no Porto.
Esta iniciativa acontece no Dia Internacional da Fraternidade Humana, no âmbito do projeto Bridges of Faith, promovido pela MEERU e pelo Blanquerna Observatory, com o apoio do KAICIID e parceria do 7 Margens.
As inscrições devem ser feitas clicando aqui.

 

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Reconhecendo que o contexto da Igreja universal “é caracterizado pela descredibilização do clero provocada por diversas crises, pela redução do número de vocações ao sacerdócio ministerial e pela situação sociológica de individualismo e de crescente indiferença perante a questão vocacional”, os representantes do Clero diocesano de Angra (Açores) defendem o incremento da “pastoral vocacional assente na comunidade, sobretudo na família e no testemunho do padre”.

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Este texto do Padre Joaquim Félix corresponde à homilia do Domingo IV da Páscoa na liturgia católica – último dia da semana de oração pelas vocações – proferida nas celebrações eucarísticas das paróquias de Tabuaças (igreja das Cerdeirinhas), Vilar Chão e Eira Vedra (arciprestado de Vieira do Minho).  

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