Pregos no caixão

| 19 Out 21

Grafite numa parede de Lisboa fotografado em 2011, aludindo ao abuso sexual de clérigos sobre menores. Foto © Milliped / Wikimedia Commons

 

Como resultado de uma evolução e saturação pessoais, cheguei ao ponto de ter medo, no próprio e exacto sentido da palavra, cada vez que vejo um padre ou um bispo aparecer na TV ou ser transcrito num jornal, porque é imensa a possibilidade de das suas bocas sair forte asneira e de os seus gestos e trejeitos serem comprometedores. Neste momento da minha existência entendo-os (salvo excepções que muito prezo) como predominantemente insensíveis, ignorantes e falhos do essencial que é o Bem, a Justiça, o Amor e receio-os como uma ameaça permanente que eu, como católico e cidadão, tenho que suportar estoicamente de pé, morrendo aos poucos por dentro, enquanto choro.

São uma ameaça à Igreja a que pertencem, que é também a minha, que é tão minha quanto deles. E isso tornou-se ainda mais problemático que o habitual.

Há quatro razões que me levam a escrever estas linhas:

  1. A recente posição de um bispo auxiliar de Lisboa sobre as investigações aos crimes de abusos sexuais na Igreja;
  2. a quantidade de artigos sobre o tema no espaço de uma semana;
  3. a desconfiança sobre explicações redutoras sobre a causalidade dos abusos;
  4. a percepção de que a abordagem ao problema dos abusos tem irmãos gémeos, nomeadamente irresponsabilidade e sectarismo.

 

 1. A recente posição do bispo auxiliar de Lisboa e coordenador da Comissão de Protecção de Menores do Patriarcado, Américo Aguiar, sobre as investigações aos abusos sexuais são excessivamente absurdas para que possam ser ignoradas. Socorrendo-me de transcrições públicas, disse ele que: pode acontecer um levantamento retrospetivo de abusos sexuais de menores por parte de membros da igreja católica nacional” mas “só se fosse transversal e não apenas focado nos membros do clero.”

Ao ler estas palavras, fui imediatamente assaltado por duas ideias: a de que era mais um prego no caixão da Igreja e a de que estava perante um comportamento de um brigão de bairro numa disputa territorial com adversários adolescentes, e não perante a conduta moral, pedagógica e de defesa dos mais fracos que se espera – correcção: se exige! – de um católico, mais a mais não de um qualquer, mas um bispo da diocese de uma capital europeia, onde é expectável alguma elevação.

A sua horrível irresponsabilidade é reveladora de uma mentalidade de soberba, de insensibilidade e ignorância, parecendo ter sido propositadamente produzida para ilustrar o que Viriato Soromenho-Marques escreveu no DN: “Hoje o nosso problema é a existência de uma multidão arrogante, com instrução formal, e que se lança ao mistério da vida com o atrevimento dos idiotas funcionais. Esses “senhorzitos satisfeitos” (assim batizados pelo arguto Ortega y Gasset) estão por todo o lado, ocupando demasiadas vezes posições de comando. Falta-lhes a visão do todo. Pior, nem sequer lhe sentem a falta. Decidem a partir da pequena janela em que se julgam especialistas, e têm uma absoluta falta de senso comum. A sua assinatura encontra-se escondida debaixo dos escombros das muitas tragédias que semeiam” (crónica de 9 Outubro 2021).

Sofro ao pensar nisto, sofro ao ter a necessidade de o escrever, mas é como se precisasse de o fazer para exorcizar estes demónios. Encontro ténue conforto ao perceber que não estou só na minha repulsa. O eloquente Editorial do 7MARGENS “Abusos sexuais: a impenitência da Igreja em Portugal” (10 Outubro 2021), subscrito por António Marujo, Eduardo Jorge Madureira, Jorge Wemans e Manuel Pinto onde é tomada uma forte posição de responsabilização e chamada de atenção com uma elegância que já não me assiste. Convido todos a lê-lo. Precisamos de mais gente assim, desperta e com lucidez.

 

2. Numa única semana, surgem vários artigos sobre o tema dos abusos sexuais na Igreja. Entre outros:

  • Público de 10 Outubro “Mas, padre, o que está a dizer?“ de Frei Bento Domingues;
  • DN de 10 Outubro “O holocausto escondido” de José Mendes, deputado socialista;
  • DN de 12 Outubro “A Igreja Católica portuguesa e os crimes por omissão” de Fernanda Câncio, jornalista credenciada;
    (dois artigos do DN ferozes mas justos contendo verdades vulcânicas que o bom senso não deveria iludir);
  • Público em 12 Outubro “D. Américo Aguiar está definitivamente no cargo errado” do comentador de direita José Miguel Tavares;
  • Em 13 Outubro, a RTP e a RR noticiam a investigação de dois casos de abusos sexuais de menores em Viseu, aparentemente sem nenhuma especial razão de oportunidade;
  • 7MARGENS, dia 13, “Cardeal Marto admite investigação independente sobre abusos sexuais, mas bispos estão divididos”.

Terá eventualmente havido outros, mas só dei conta destes. E chegam!

Interpreto esta coincidência de artigos em poucos dias como um sinal da imensa (que superlativo haverá para imensa?) tempestade que se adivinha. Ou julgarão certas almas que a tempestade se desviará e não nos apanhará como por milagre? Não só não estamos no tempo dos milagres, como eles nunca tiveram a função de escamotear a realidade. Preparemo-nos, pois, para senti-la na pele e na alma, porque vai ser muito dura.

Fernanda Câncio já o anuncia no seu feroz artigo, o mais interessante e interpelador de todos eles. Ela trata a Igreja como essa “organização internacional” com voluntário desprezo despromocional, e discorre com ferocidade mas correcção sobre as tolices do bispo auxiliar de Lisboa. Lembra também uma declaração de 2018 de D. Manuel Linda, bispo do Porto: “Este foi um fenómeno fundamentalmente de países anglo-saxónicos. Na Europa aconteceu em alguns lados – aconteceu na Alemanha – mas não aconteceu com a mesma escala que consta que aconteceu nos Estados Unidos e na Austrália”, como se não soubéssemos ou suspeitássemos de iguais comportamentos noutras partes do mundo, que as crises chilena, alemã e agora a francesa vieram confirmar.

Relembro que este é o mesmo bispo que no ano seguinte se celebrizou por achar desnecessária uma comissão para estudar o problema na sua diocese porque seria o mesmo que criar uma “para estudar os efeitos do impacto de um meteorito na cidade do Porto.” É, portanto, um reincidente convicto em disparates públicos e manifestações de insensibilidade. E assim, com tudo isto, não me larga o péssimo pensamento do brigão de bairro e de mais pregos no caixão. Está-me difícil exercer a caridade cristã de perdoar, apetece-me muito mais interrogar a indecência destas personagens.

O artigo de Fernanda Câncio tem ainda uma característica importante, a de fazer afloramentos técnico-jurídicos de valor e mérito que relevam para a urgente reflexão sobre a denúncia e a produção de prova a desenvolver nos casos dos abusos sexuais dos pontos de vista da moral, da ética, do direito e da teologia, até porque se há elementos óbvios para corrigir o caos, há outros que não o são, como a quebra do sigilo da confissão. Temos que pensar. Será doloroso e difícil, mas tem a vantagem de ser grátis e o benefício de ser produtivo. Pode ser que, com isso, se consigam arrancar alguns pregos ao caixão.

Quero ainda fazer uma referência ao artigo do 7MARGENS com as declarações do cardeal Marto, uma presença prudente que aduz bom senso e que, por mais do que uma vez, parece destoar do padrão conhecido. Aparentemente fazendo pressão pública sobre o resto da Conferência Episcopal – a que pertence -, diz ele que “A Igreja está disposta a olhar a realidade, para pôr fim a este escândalo”. É um sinal positivo alimentado por outras afirmações, mas ainda debaixo de uma fórmula de semântica equívoca. “Está disposta” transporta uma concessão e não uma vontade. O que ele deveria ter dito  inequivocamente, se pudesse ou soubesse, era que a Igreja quer enfrentar a realidade, e não por causa do escândalo institucional, mas por causa do escândalo da proliferação de vítimas às mãos dos cuidadores e educadores e da possibilidade de tal não ter poupado a Igreja portuguesa.

 

3. Quem ainda não percebeu que o fenómeno dos abusos sexuais na Igreja é um problema sistémico intrínseco ao seu funcionamento? E, sendo sistémico, no quadro de uma organização tão complexa e peculiar, complexas serão as suas razões. Neste quadro, parece-me existir um risco de apressadamente reduzir ou simplificar a explicação ao celibato dos padres (até porque, se mais não existisse, as vítimas conhecidas são predominantemente do sexo masculino). Por outro lado, fundamentar a existência do problema com o crónico conflito entre a Igreja e a sexualidade também me parece insuficiente. Intuo que há mais, muito mais, a desaguar no desastre. Portanto, precisamos de ouvir as pessoas e, de novo, pensar, pensar, pensar, para agir com firmeza, com a ajuda de especialistas de todas as áreas, forçosamente numa aliança de crentes e não crentes.

 

4. Por último, estou em crer que a infâmia dos abusos sexuais não é o único problema actual da Igreja, há outros igualmente complicados, como a história do século XX (para não ir aos nossos antepassados, claro) nos demonstra. No caso português, é muito preocupante e decepcionante a persistência de atitudes e comportamentos de irresponsabilidade e sectarismo por parte do clero. São mais pregos no caixão.

São demasiados os exemplos que afastam e excluem (as questões de cidadania, de género e de orientação sexual, das opções políticas, de estilo de vida) em vez de agregar e unir crentes e não crentes. Pregos no caixão.

É esse clero que nas paróquias e nas dioceses faz uma modelação de comportamentos teologicamente errados. “Não há pior pecado que faltar à missa”, ouvi eu há uns tempos numa missa da periferia de Lisboa, como se a fuga aos impostos, endrominar clientes de um banco, a violência doméstica, roubar dinheiro, abandonar um velho, incendiar uma mata ou matar uma pessoa fossem menoridades circunstanciais, desde que se vá à missa. Pregos no caixão. Ou então, comportando-se como funcionários do culto, cujo salário está garantido. Pregos …

É também esse clero que, com terrível frequência, se associa a uma tendência política, sempre a mesma, a da direita, como se essa colagem fosse natural e legítima. Não é! – isto tem que ser dito com toda a veemência – como não seria a associação simétrica às esquerdas. A fé pode e deve traduzir-se em opções diversas e oscilantes. Talvez isso explique a sua frigidez (mais pregos) face ao Papa Francisco e o seu mundanismo, bem visível na frescura da encíclica Fratelli Tutti. Esta colagem política e moral envergonha, irrita e perturba muitos católicos, mesmo que a maioria não sinta vontade, ou à vontade, de o expressar publicamente. Não é o meu caso.

Há duas angústias muito fortes. Uma primeira, porque há vítimas concretas de crimes, possivelmente algumas desconhecidas. A segunda, o bem da Igreja, o bem que a Igreja faz, está a ser soterrado pela avalanche de erros morais, teológicos, tácticos e estratégicos.

O que fazer? Como reagir, como evangelizar a Igreja, como enfrentar esta cultura clerical, como a desmontar para ceder o passo a uma maior participação de leigos, de mulheres, de gente que pensa e se sente cada vez menos bem na sua Igreja, reduzidos a liturgias paupérrimas quando não medíocres e desajustadas da vida contemporânea (pregos …), como tão bem assinala Frei Bento Domingues, “Não à ideologia do retrocesso” no Público (26 Setembro 2021)?

Não tenho resposta.

joão figueiredo

“Leio sobre as gerações de católicos que na universidade, no mundo intelectual e no mundo operário, romperam com o unanimismo eclesial.”

 

Ultimamente, tenho revisitado papéis antigos e lido bibliografia que me coloca nos anos 1960 e 70. Leio sobre as gerações de católicos que na universidade, no mundo intelectual e no mundo operário, romperam com o unanimismo eclesial e divergiram da cumplicidade da hierarquia com a ditadura. Muitos deles, ignorados ou hostilizados pela Igreja (incluindo até figuras hoje incompreensivelmente incensadas e tidas como modernas), acabaram por sair da Igreja e perder a fé. Com isso, perdemos todos.

Não os seguirei. A caminho do ocaso, não sairei da Igreja e é improvável perder a fé, mesmo que esta seja incerta, vacilante e mesmo, por vezes, tumultuosa. Conto manter-me fiel à Igreja, casta e prostituta como tantas vezes dizia o padre Alberto Neto, Igreja que julgo ser a que vem de Jesus Cristo, que não é só a hierarquia e a sua cultura, “Igreja enquanto comunidade dos crentes que se reúnem em Jesus Cristo” (do referido editorial do 7MARGENS). E, nela permanecendo, não prescindirei de me revoltar contra os que nos poluem a existência e que insistem, como tolos e irresponsáveis, em pregar pregos.

 

Nuno Caiado.

 

Comissão quer “dar voz ao silêncio” das vítimas dos “crimes hediondos” dos abusos do clero

Pedro Strecht apresentou membros

Comissão quer “dar voz ao silêncio” das vítimas dos “crimes hediondos” dos abusos do clero novidade

Daqui a um ano haverá relatório, que pode ser o fim do trabalho ou o início de mais. A comissão para estudar os abusos sexuais do clero português está formada e quer que as vítimas percam o medo, a vergonha e a culpa. Ou seja, que dêem voz ao seu silêncio. Pedro Strecht apresentou razões, o presidente dos bispos disse que não quer mais preconceitos nem encobrimentos, mas “autêntica libertação, autenticidade e dignidade para todos”.

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Encontra um trabalho que não amas, não perderás um minuto da tua vida

Encontra um trabalho que não amas, não perderás um minuto da tua vida novidade

Ainda antes de acabar o curso fui à minha primeira entrevista de trabalho “a sério”, numa produtora de filmes num bairro trendy de Lisboa. Roubei um dia à escrita da tese de mestrado, apanhei o comboio e lá fui eu, tão nervosa quanto entusiasmada. O dono começou por me perguntar se fazer cinema era o meu sonho. Fiquei logo sem chão. Sofri, desde muito cedo, de um mal que me acompanha até hoje: sonhava demais e muitos sonhos diferentes.

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