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autores - Luís Marinho (1)

Procura-se: gestos e palavras que celebrem a Páscoa de Jesus

| 11/12/2024

Homilias

“Não se espere da pregação e do pregador o que é responsabilidade de cada um.” Interior da Ermida de San Mamés, Cerbiago, Cantabria. Foto © Salvador Sáinz / Wikimedia Commons

 

É fácil de compreender que, perante a renovada insistência do Papa Francisco para que as homilias não durem mais de oito minutos (Audiência Geral de 4/12/2024), a multidão presente tenha irrompido em palmas. E também se compreende a pertinente reflexão da jornalista Clara Raimundo, aqui no 7MARGENS. E digo isto enquanto “pregador”, mas igualmente como “ouvinte”, ou melhor, como peregrino que participa em celebrações presididas por outros colegas, ou por bispos.

Aos padres – que somos o maior número de “pregadores” – também se podem aplicar as palavras que o Documento Final da última sessão do Sínodo, no número 71, refere sobre os bispos: “É importante ajudar os Fiéis a não cultivar expectativas excessivas e irrealistas em relação ao Bispo, recordando que também ele é um irmão frágil, exposto à tentação, necessitado de ajuda como todos os outros. Uma visão idealizada do Bispo não facilita o seu delicado ministério, que, pelo contrário, é sustentado pela participação de todo o Povo de Deus na missão, numa Igreja verdadeiramente sinodal.”

A “expectativa excessiva” pode vir não só da “visão idealizada” dos fiéis em relação ao “pregador” mas também de uma distorção do lugar que ocupa a homilia no contexto da celebração da Eucaristia, quando, por exemplo, se avalia a qualidade da celebração apenas pelo que foi dito depois da proclamação da Palavra de Deus. Como se a proclamação e celebração da fé em Jesus fosse sobretudo uma questão de “palavras”. Não será por demais insistir o quanto a liturgia, mais do que logia (palavra) é, acima de tudo urgia (ação). Não é, portanto, um dizer mas, acima de tudo, um fazer.

Sirvo-me de uma bela carta apostólica do Papa Francisco, Desiderio desideravi, de 29 de junho de 2022.

No número 11, ao falar da liturgia como lugar de encontro com o Senhor, o sucessor de Pedro sublinha: “Não nos basta ter uma vaga recordação da última Ceia: nós precisamos de estar presentes nessa Ceia, de poder ouvir a sua voz, de comer o seu Corpo e beber o seu Sangue: precisamos d’Ele. Na Eucaristia e em todos os sacramentos é-nos garantida a possibilidade de encontrar o Senhor Jesus e de ser alcançados pela potência da sua Páscoa.” É, portanto, o mistério de Cristo “hoje tornado presente e atuante mediante sinais sensíveis (água, azeite, pão, vinho, gestos, palavras) para que o Espírito, submergindo-nos no mistério pascal, transforme toda a nossa vida, conformando-nos cada vez mais a Cristo” (nº 21). O que torna imprescindível uma cuidada atenção a todos os aspetos destes sinais sensíveis: espaço, tempo, gestos, palavras, objetos, vestes, canto, música. A palavra da homilia ou se insere nesta dinâmica celebrativa ou se confunde – equivocadamente – com outros tempos e lugares da experiência cristã: a catequese, a reflexão teológica, a intervenção social e política.

Na verdade, a liturgia “são gestos e palavras que põem ordem dentro do nosso mundo interior fazendo-nos viver sentimentos, atitudes, comportamentos. Não são a enunciação de um ideal em que procuramos inspirar-nos, mas são uma ação que implica o corpo na sua totalidade, ou seja, no seu ser unidade de alma e corpo” (nº 51). Tirando-nos do isolamento individualista, a liturgia “toma-nos pela mão, juntos, como assembleia, para nos conduzir para dentro do mistério que a Palavra e os sinais sacramentais nos revelam. E fá-lo, em coerência com o agir de Deus, seguindo a via da encarnação, através da linguagem simbólica do corpo que se prolonga nas coisas, no espaço e no tempo” (nº 19).

Implica-nos, pois, a todos os participantes, para conduzir não a um triunfalista ou unânime agir, mas ao silêncio, definido como “o ápice da sequência ritual”, pois este “move ao arrependimento e ao desejo de conversão; suscita a escuta da Palavra e a oração; dispõe à adoração do Corpo e do Sangue de Cristo; sugere a cada um, na intimidade da comunhão, o que o Espírito quer realizar na vida para nos conformar ao Pão partido. Por isso, somos chamados a realizar com extremo cuidado o gesto simbólico do silêncio: é nele que o Espírito nos dá forma” (nº 52).

Estou profundamente convencido que uma certa agonia da relevância da Igreja na vida das pessoas e comunidades em contexto europeu e ocidental tem muito mais a ver com a pouca confiança dos cristãos na libérrima e generosa ação de Deus na história e na consciência de cada pessoa, no seguimento da lógica da Encarnação assumida por Jesus Cristo, do que no suposto relativismo moral ou na fraca qualidade retórica ou espiritual dos pregadores. Mas Deus não se deixa confinar!

Longe de desresponsabilizar os “pregadores” – ministros ordenados ou fiéis leigos –, esta experiência da liturgia promove a participação ativa de todos e de todas as dimensões de cada pessoa não tanto para uma formação técnica para a mesma liturgia, mas para sermos formados pela liturgia, onde gestos, palavras e silêncio encontram – deveriam encontrar – a sua cadência performativa, capaz de gerar pessoas inteiras, homens e mulheres livres. Cada pessoa – e a comunidade reunida – é Templo Santo onde Deus habita. Não se espere da pregação e do pregador o que é responsabilidade de cada um.

Gestis verbisque intrinsece inter se connexis (ações e palavras intimamente relacionadas entre si) é a famosa expressão que a Constituição Dogmática Dei Verbum [do II Concílio do Vaticano] usa, no número 2, para descrever o modo como Deus se dá a conhecer. A liturgia é um dos lugares – não o único – onde a revelação continua no hoje da história. Reduzir a liturgia à palavra, ainda que explorando toda a sua capacidade performativa, é amputá-la mortalmente da sua possibilidade de nos fazer participar na Páscoa de Jesus.

É muito louvável procurar padres (e não só) que saibam pregar. E formá-los (formar-nos) para essa arte! Mas reconheço que é ainda mais necessário procurar comunidades celebrantes onde todos participem ativamente: com palavras, gestos… e silêncio!

 

N.B. – Escrevo estas linhas depois de ter seguido atentamente as celebrações da reabertura da catedral Notre-Dame de Paris. Ficou bem patente, não tanto a força da palavra, mas a capacidade de um símbolo tocar tantas vidas.

Muitas vezes me coloquei em cima da placa que, no chão, do lado direito do altar, perto do pilar da imagem de Nossa Senhora, assinala o lugar em que Paul Claudel, a 25 de dezembro de 1886, se converteu (ou foi convertido), ouvindo o canto do Magnificat. Tenho de lá voltar… o caminho ainda é longo! Afinal, o padre também é um peregrino!

 

Luís Marinho é presbítero da Arquidiocese de Braga e assistente Mundial da Conferência Internacional Católica do Escutismo (CICE).

 

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