No espaço de cerca de 15 dias, entre 12 e 29 de outubro de outubro, foram apresentadas três Cartas das Religiões, correspondentes a outros tantos municípios: Odivelas, Braga e Porto, pondo ao alcance dos interessados aquela que é talvez a maior e mais atualizada base de dados sobre as comunidades ligadas ou não às grandes instituições religiosas. Praticamente prontas estão já as cartas de dois outros municípios: Amadora e Oeiras.
Para cada um destes casos, a Carta das Religiões apresenta fichas individualizadas de cada comunidade / local de culto que inclui uma breve apresentação, uma foto do espaço interior (e, em alguns casos, exterior), afiliação, contactos, e informações sobre a data da fundação, localização, dias e horários de culto/encontro, descrição das instalações; serviços religiosos e sociais prestados e dados sobre as caraterísticas dos membros da comunidade.
O trabalho de pesquisa, levantamento e tratamento de dados, bem como da sua sistematização e publicação está a ser desenvolvido pela área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, sob a direção científica do professor Paulo Mendes Pinto, em cooperação com responsáveis das autarquias.
O que distingue estes trabalhos, segundo disse ao 7MARGENS o diretor científico, é, além da informação reunida e do “retrato” traçado, “chegar às comunidades” e dá-las a ver, demarcando-se desse modo, de uma abordagem nacional e (mais hierárquica). Nessa linha, a pesquisa – que teve na Carta das Religiões em Odivelas o seu “laboratório” – inicia-se por uma recolha documental, mas inclui um trabalho de campo em que se procura estabelecer relação personalizada com cada comunidade e suas lideranças.
Para quem percorre cada um dos relatórios já publicados, torna-se notória a transformação que os municípios estudados tem conhecido nas décadas mais recentes, com a chegada de milhares de imigrantes do Brasil e de antigas colónias africanas, mas também asiáticos, portadores de culturas, crenças e expressões religiosas diversas.
Em muitos casos, esses imigrantes organizam-se também do ponto de vista religioso e espiritual, quer através da criação de espaços de encontro e de culto próprios, quer através da integração em comunidades já existentes. Esta realidade que mudou e continua a transformar-se pode agora começar a ser percebida na distribuição geográfica das novas comunidades, nas caraterísticas de cada uma delas e nas interações entre si. Em muitos casos, as igrejas não só iniciaram novos espaços de culto, a que Portugal não estava habituado, como funcionam como espaços de acolhimento, apoio e integração dos que vão chegando.
As Cartas das Religiões, que operam a partir de uma conceção alargada e inclusiva de “religião”, que transvasa a dimensão institucional e formal, transmitem bem o que são e representam as igrejas mais tradicionais, especialmente a Igreja Católica, através de cada uma das paróquias de cada município, mas também as comunidades novas que convivem nos mesmos territórios.
Como sublinha a Carta das Religiões do Porto, este papel de “família de acolhimento” das comunidades religiosas torna-se “ainda mais relevante no caso dos migrantes de culturas mais distantes da nossa, que enfrentam barreiras maiores de integração”, conseguindo, “muitas vezes de forma discreta”, ter “um impacto profundo na coesão social, segurança e sustentabilidade das dinâmicas migratórias”.
O mapa religioso portuense permite apurar não apenas “as novas configurações religiosas”, mas também “as recomposições identitárias resultantes da presença de comunidades de origem diversa”. “Esta pluralidade – salienta o Mapa, não apenas altera a paisagem confessional da cidade, como também redefine práticas, espaços e formas de pertença no campo religioso”.
Além disso, entrar na compreensão dessa diversidade também permite “entender melhor como essas diferentes crenças, valores e práticas se integram no tecido urbano e cultural da cidade” e “identificar as necessidades e expectativas das várias comunidades religiosas, promovendo o diálogo intercultural, inter-religioso”.
O caso da chamada “cidade dos arcebispos”, historicamente pautada pelo catolicismo, reveste-se também de especificidades que a Carta das Religiões de Braga põe em destaque, através da presença dos seus cerca de 140 locais/comunidades religiosas /espirituais (entre as quais 63 paróquias católicas, que realizam “um trabalho social de grande relevância e impacto local, e 59 comunidades protestantes ou evangélicas).
Os fluxos migratórios da última década, com destaque para a comunidade brasileira, acarretaram “um notável aumento de comunidades protestantes e evangélicas” de acolhimento e integração para recém-chegados, mas também para “muitos portugueses que, por laços afetivos, culturais ou de fé, têm começado a envolver-se nestes grupos”. Esses fluxos terão surgido, segundo os autores da Carta, “durante o período da pandemia ou no seu imediato rescaldo” e estarão na origem quer de novas comunidades evangélicas, quer na “revitalização de práticas já existentes”.
O crescimento das comunidades evangélicas não tem acontecido à custa dos católicos, até porque, segundo o trabalho publicado, “não se observa aqui um fenómeno de conversão em massa ou de mudança religiosa generalizada”, antes resultando sobretudo da migração, em particular da brasileira. De resto uma boa parte destes migrantes brasileiros são católicos e têm tido também “um impacto positivo” na “vida das comunidades católicas onde se inserem”.
A Carta das Religiões de Braga chama ainda a atenção para a presença dos ortodoxos, dos muçulmanos (que se têm vindo a afirmar na cidade “de forma progressiva, ainda que discreta”), budistas, hindus, da fé bahá’í, e comunidades que seguem as doutrinas espiritualistas.
Finalmente, o mesmo documento sublinha o lugar e relevância da iniciativa Aldeia das Religiões, organizada pela Paróquia de São Tiago de Priscos, nos arredores de Braga, cuja primeira edição ocorreu em 2012 e foi retomada em 2024. Esta iniciativa inter-religiosa, que a Carta considera evento único em Portugal, visa promover o diálogo, a compreensão mútua e a tolerância entre diversas tradições religiosas.










