“Aqueces o azeite, pões o bife de fígado na frigideira e rezas uma avé-maria pelas almas do purgatório. Depois viras, e rezas outra vez.”
Foi assim que a minha mãe me ensinou a encontrar o ponto certo da fritura.
No Minho católico da minha infância, a responsabilidade dos vivos pela memória e pelo bem-estar dos mortos era omnipresente. Da frigideira ao lume até às alminhas nas fachadas das casas e nas encruzilhadas, passando pelos cemitérios de flores sempre frescas, os nossos mortos eram mais do que uma recordação querida e uma ausência triste: continuavam a precisar de nós, da nossa atenção e do nosso cuidado.
O purgatório – esse lugar de sofrimento após a morte, onde as almas expiam os seus erros antes de poderem, enfim, descansar em paz – desempenha um papel peculiar neste entendimento do mundo. Ao dar aos crentes a possibilidade de, com as suas orações, abreviarem a dor dos que estão no purgatório, a Igreja Católica oferece uma ponte que liga os vivos aos mortos num abraço de empatia actuante: o poder de cuidar dos outros para além da própria morte. Mais ainda: o purgatório é um espaço de depuração de questões existenciais dos vivos. Por um lado, repõe a justiça no mundo, porque castiga as pessoas pelo mal que cometeram em vida; por outro lado, abre a cada um dos crentes um caminho de libertação interior, transformando os sentimentos negativos em gestos de aceitação da fragilidade dos humanos e de perdão.
[E agora que o fígado está frito e as duas avé-marias rezadas, pergunto a quem me lê: por quem gostariam de rezar enquanto fazem a cebolada?]
Este texto, publicado originalmente no blogue Dois Dedos de Conversa, de que Helena Araújo é autora, insere-se num projecto de escrita de um grupo de antigas autoras de blogues, que todas as semanas escrevem sobre um tema. As diferentes perspectivas sobre o “Purgatório” podem ser encontradas aqui:

Acerca do tema, o historiador Jacques le Goff publicou O Nascimento do Purgatório






