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[Entre Margens]

Qual o papel da mediação?

| 06/05/2026

 

A porta está sempre entreaberta e, aos poucos, alunos como o Filipe começam a fazer questão de espreitar para dizer bom dia. As preocupações de adolescentes como o Filipe constroem a razão de ser desta sala, mas a sala pode acontecer também fora de portas. Com alguma angústia, o Filipe conta que gostaria de poder explicar a um amigo como determinada situação tinha sido, sobretudo, um mal-entendido, mas o amigo parece não estar disposto a ouvi-lo. O Filipe espera que, perante o nosso convite, ele aceda a conversar e, de facto, assim acontece. E, sentados à beira de um canteiro, o Filipe e o amigo conseguem ouvir-se, e contar um ao outro visões e motivos, e perceber se ficou a faltar algum ingrediente para que a sua amizade possa arrepiar caminho.

Qual o papel da mediação? Para o Filipe e para o seu amigo, serviu para garantir um espaço de segurança, em que é possível comunicar; um espaço que já era deles, mas ao qual estavam com dificuldades em conseguir chegar.

“O que é para ti a mediação?” “Ajudar a ser uma pessoa melhor”, disse-me o Filipe.

EB Manoel de Oliveira

Na “Sala Ser”, um espaço na EB Manoel de Oliveira focado no diálogo, na gestão emocional e de conflitos, A porta está sempre entreaberta. Foto © Sara Leão

A Tânia e a Francisca são primas, conhecem-se desde sempre. Partilham família, amigos e grupos de Instagram. São vizinhas. Há vários círculos concêntricos que as rodeiam, mas essas circunferências podem facilmente tornar-se muros. Muros construídos com pedras que não são só delas – são também da família e dos amigos. Ainda assim, as duas primas, as duas colegas, aceitam sentar-se frente a frente e ouvir-se. Nem sempre a escuta será o suficiente para conseguir espreitar o que está para lá dos muros que, entretanto, estão cada vez mais altos.

Qual é o papel da mediação? Para estas jovens, terá sido um espaço de reconhecimento do seu compromisso – aceitando escutar-se, frente a frente, quando muitos adultos não o fariam – e do seu sentido de responsabilidade, ao assumirem que, neste contexto, a relação não tem condições para regenerar – concordam respeitar o espaço uma da outra, cada uma no seu canto, cada uma na sua vida.

“Para mim a mediação é uma coisa de ajudar os alunos que precisam e também apoiar os colegas quando estão mal”. Palavras da Carolina. Para a Carolina, a mediação não é uma coisa que nós, adultos e técnicos, fazemos, é uma coisa que também é dela, também é deles, alunos, quando estão bem e quando estão mal. A Carolina fez formação como aluna ajudante e é-o com entusiasmo, várias vezes a vi a dar apoio a alunos mais novos, acabados de chegar à escola.

Um dia, a Carolina precisou de dizer a um colega que não gostava da forma como este a olhava, nem da forma como interagia com ela. Quando ocorreram estas situações, a Carolina optou por evitar o confronto e uma possível discussão. O mal-estar continuava a apertar e a Carolina teve de falar com o Miguel, o tal colega, que concordou participar e aproveitar a oportunidade para lhe dizer que não tinha a intenção de a intimidar. O que o Miguel disse, olhando para a colega, é que não conseguia deixar de produzir julgamentos. Sobre as roupas, sobre a aparência, sobre a atitude, sobre tudo aquilo em que consistia a diferença entre si e aquela colega.

Qual o papel da mediação? Ser um pouco máquina do tempo, mostrar que decisões tomadas no passado não têm de aí ficar cristalizadas, que o presente é o tempo da possibilidade e da reformulação. Ser lugar da novidade – mostrar que as diferenças podem encontrar-se ou, pelo menos, encarar-se, não isentas de atrito, mas ainda assim com respeito, com o reconhecimento da dignidade do outro. Na t-shirt do Miguel estava escrita a palavra “metanoia”, o termo grego para transformação, transformação radical, transformação de fundo. Transformação do mundo.

O que é para ti a mediação?  Segundo alguns alunos: compreensão, responsabilidade, cooperação, ajuda, paciência, conforto, diminuição da tensão, alívio…  Permito-me acrescentar: educação. Deles e nossa.

Paz. EB Manoel de Oliveira.

“Paz” é uma das palavras que preenchem as paredes da Sala Ser, um espaço na EB Manoel de Oliveira focado no diálogo, na gestão emocional e de conflitos. Foto © Sara Leão

 

Texto integrado na Jornada do Projeto VITEM, que visa a construção de uma Rede de “Cidades Mediadoras” na Europa.

 

Sara Leão é mediadora escolar.

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