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Abusos. Catarina Soares Barbosa
Abusos. Ilustração © Catarina Soares Barbosa

[Entre Margens]

Quando a fé se torna cativeiro: alto controlo dentro da Igreja Católica

| 08/03/2026

Quando a fé deixa de libertar e começa a oprimir, algo se rompe na alma da Igreja Católica. Nos últimos tempos, temos assistido à emergência e, em certos casos, à conivência com estruturas religiosas que, sob o verniz da ortodoxia católica, replicam dinâmicas sectárias de obediência cega, controlo emocional e alienação familiar. O que escrevo agora nasce da minha participação no programa Contra-Corrente e no podcast do Observador Os Segredos da Seita do Yoga, e do contacto direto com famílias que vivem hoje o luto ambíguo de filhos vivos, mas prisioneiros daquilo que se apresenta como fé.

Após a emissão do programa Contra-Corrente, com o tema “Seitas. Quando a espiritualidade vira armadilha”, fui procurado por uma mãe em desespero. A sua filha de 22 anos, jovem brilhante e aluna distinguida num instituto superior em Lisboa, desapareceu da vida social, foi impedida de participar na cerimónia onde receberia um prémio de distinção académica e tornou-se praticamente incontactável. Segundo o relato da mãe, o pai da jovem, de quem está separada, integra há vários anos um grupo católico fundamentalista e marginal em Portugal e terá aliciado a filha a juntar-se à mesma estrutura.

Durante algum tempo, a jovem terá vivido em regime de clausura num antigo hotel convertido em convento improvisado, em Fátima, com outras 14 jovens portuguesas e estrangeiras. De acordo com a mãe, essa decisão não terá sido plenamente voluntária, mas motivada pela convicção de que a obediência cega à sua “madre superiora” e às regras impostas seria o único caminho possível para alcançar a santidade. Hoje, essa mãe acredita que a filha já nem se encontra no país, estando em paradeiro desconhecido.

A descrição que recebi é inquietante: vigilância constante, discursos automáticos, recusa de cuidados médicos, uma completa perda de identidade. “Ela tem um discurso que lhe foi incutido”, escreveu-me a mãe. O caso foi denunciado à Polícia Judiciária, à GNR e ao Ministério Público de Ourém. Em novembro de 2024, a TVI fez eco da história através de uma reportagem do programa Exclusivo. Em janeiro de 2025, o processo foi arquivado por “indícios insuficientes de crime”. Inconformada, a mãe recorreu à Procuradoria-Geral da República e à Ministra da Justiça. E veio agora ter comigo, pedindo ajuda.

Esta não é uma história isolada. É, a meu ver, o retrato de um fenómeno que ganha raízes em solo português – o de grupos de alto controlo de matriz católica.

A minha investigação leva-me a afirmar, com serenidade e gravidade, que algumas expressões do catolicismo contemporâneo reproduzem padrões típicos de seitas destrutivas ou grupos de alto controlo: obediência cega, manipulação emocional, violência espiritual e destruição da individualidade. E o mais alarmante é que muitas vezes o fazem com o silêncio, ou até a conivência, de estruturas eclesiais locais.

É hora de olharmos de frente para estes fenómenos, não como ataques à Igreja, mas como um serviço de verdade e justiça às vítimas e como uma chamada à responsabilidade pastoral. Nenhuma comunidade cristã deve tolerar abusos em nome da santidade ou da fidelidade à tradição. O que está em causa não é apenas a doutrina, mas a dignidade humana.

Do Sodalitium aos Miguelianos

Ordenação de padre do Sodalício em Buenos Aires, Argentina, nov 2023. Foto SVC

Ordenação de padre do Sodalício em Buenos Aires, Argentina, novembro de 2023. Foto © SVC.

Em janeiro de 2025, o Papa Francisco dissolveu o Sodalitium Christianae Vitae, sociedade leiga peruana, após denúncias de abusos sexuais, espirituais e administrativos praticados pelo seu fundador, Luis Fernando Figari.

O cardeal de Lima descreveu o movimento como “uma tentativa fascista de instrumentalizar a Igreja”.

Também os Legionários de Cristo enfrentaram escândalos graves: o seu fundador, Marcial Maciel, foi responsabilizado por múltiplos abusos sexuais, financeiros e espirituais. Um relatório da própria congregação, publicado em 2019, reconheceu 175 vítimas menores de idade.

Na Galiza, o caso da Ordem e Mandato de San Miguel Arcángel, conhecida como Miguelianos, revelou outro rosto sombrio do catolicismo deformado: Miguel Rosendo da Silva liderava um grupo reconhecido pelo bispo local, mas que se converteu numa estrutura de dominação, com práticas místicas distorcidas, isolamento das vítimas e abusos sistemáticos. Em 2021, foi condenado a nove anos de prisão por abuso sexual continuado.

Embora não enquadrado como grupo de alto controlo, o Opus Dei tem sido alvo de denúncias, sobretudo de ex-numerárias, que relatam práticas de controlo total da vida pessoal, imposição de normas sem explicitação teológica adequada e formas de exploração do trabalho e do rendimento. A própria prelatura tem vindo a reconhecer parcialmente algumas destas críticas, o que demonstra que mesmo estruturas com aprovação pontifícia podem escorregar para formas de abuso se não forem escrutinadas.

Portugal: silêncio cúmplice

Stefano Manelli. Foto: Direitos reservados.

Stefano Manelli, fundador dos Franciscanos da Imaculada. Foto: Direitos reservados.

Em Fátima, o grupo “Família do Coração Imaculado e de São Francisco”, ligado ao fundador dos Franciscanos da Imaculada, padre Stefano Manelli, continua ativo apesar de não possuir reconhecimento canónico. Segundo a Diocese de Leiria-Fátima, trata-se de uma associação sem estatuto eclesial, embora mantenha um convento informal e promova eventos de forte impacto espiritual.

Manelli foi alvo de denúncias gravíssimas na Itália: imposição de mortificações físicas extremas, pactos de sangue, abusos espirituais e sexuais a religiosas. Embora o processo judicial tenha sido arquivado por prescrição, os factos relatados por ex-membros e documentos internos permanecem como um alerta para toda a Igreja.

Outro caso alarmante é o convento clandestino em Requião, Vila Nova de Famalicão, que operava sem aprovação canónica, albergando menores e impondo práticas severas de isolamento. O espaço foi encerrado após intervenção das autoridades, mas o silêncio que o envolveu durante anos demonstra a fragilidade dos mecanismos de vigilância eclesial.

Um apelo à Igreja Católica

Não basta denunciar. É preciso que a Igreja Católica – hierarquia, comunidades e fiéis – assuma a responsabilidade de escutar as vítimas, investigar com rigor e prevenir novas situações de abuso espiritual. Ser Igreja é proteger os mais frágeis, não proteger os abusadores.

Como cristão, digo-o com dor, mas também com esperança: purificar a Igreja é um ato de amor. Falar destes casos não é atacar a fé, é defendê-la do que a corrompe por dentro.

Que o 7MARGENS continue a ser espaço de luz para estas vozes silenciadas.

António Madaleno é investigador e especialista em seitas destrutivas e grupos de alto controlo.

 

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