Quando a fé deixa de libertar e começa a oprimir, algo se rompe na alma da Igreja Católica. Nos últimos tempos, temos assistido à emergência e, em certos casos, à conivência com estruturas religiosas que, sob o verniz da ortodoxia católica, replicam dinâmicas sectárias de obediência cega, controlo emocional e alienação familiar. O que escrevo agora nasce da minha participação no programa Contra-Corrente e no podcast do Observador Os Segredos da Seita do Yoga, e do contacto direto com famílias que vivem hoje o luto ambíguo de filhos vivos, mas prisioneiros daquilo que se apresenta como fé.
Após a emissão do programa Contra-Corrente, com o tema “Seitas. Quando a espiritualidade vira armadilha”, fui procurado por uma mãe em desespero. A sua filha de 22 anos, jovem brilhante e aluna distinguida num instituto superior em Lisboa, desapareceu da vida social, foi impedida de participar na cerimónia onde receberia um prémio de distinção académica e tornou-se praticamente incontactável. Segundo o relato da mãe, o pai da jovem, de quem está separada, integra há vários anos um grupo católico fundamentalista e marginal em Portugal e terá aliciado a filha a juntar-se à mesma estrutura.
Durante algum tempo, a jovem terá vivido em regime de clausura num antigo hotel convertido em convento improvisado, em Fátima, com outras 14 jovens portuguesas e estrangeiras. De acordo com a mãe, essa decisão não terá sido plenamente voluntária, mas motivada pela convicção de que a obediência cega à sua “madre superiora” e às regras impostas seria o único caminho possível para alcançar a santidade. Hoje, essa mãe acredita que a filha já nem se encontra no país, estando em paradeiro desconhecido.
A descrição que recebi é inquietante: vigilância constante, discursos automáticos, recusa de cuidados médicos, uma completa perda de identidade. “Ela tem um discurso que lhe foi incutido”, escreveu-me a mãe. O caso foi denunciado à Polícia Judiciária, à GNR e ao Ministério Público de Ourém. Em novembro de 2024, a TVI fez eco da história através de uma reportagem do programa Exclusivo. Em janeiro de 2025, o processo foi arquivado por “indícios insuficientes de crime”. Inconformada, a mãe recorreu à Procuradoria-Geral da República e à Ministra da Justiça. E veio agora ter comigo, pedindo ajuda.
Esta não é uma história isolada. É, a meu ver, o retrato de um fenómeno que ganha raízes em solo português – o de grupos de alto controlo de matriz católica.
A minha investigação leva-me a afirmar, com serenidade e gravidade, que algumas expressões do catolicismo contemporâneo reproduzem padrões típicos de seitas destrutivas ou grupos de alto controlo: obediência cega, manipulação emocional, violência espiritual e destruição da individualidade. E o mais alarmante é que muitas vezes o fazem com o silêncio, ou até a conivência, de estruturas eclesiais locais.
É hora de olharmos de frente para estes fenómenos, não como ataques à Igreja, mas como um serviço de verdade e justiça às vítimas e como uma chamada à responsabilidade pastoral. Nenhuma comunidade cristã deve tolerar abusos em nome da santidade ou da fidelidade à tradição. O que está em causa não é apenas a doutrina, mas a dignidade humana.
Do Sodalitium aos Miguelianos

Ordenação de padre do Sodalício em Buenos Aires, Argentina, novembro de 2023. Foto © SVC.
Em janeiro de 2025, o Papa Francisco dissolveu o Sodalitium Christianae Vitae, sociedade leiga peruana, após denúncias de abusos sexuais, espirituais e administrativos praticados pelo seu fundador, Luis Fernando Figari.
O cardeal de Lima descreveu o movimento como “uma tentativa fascista de instrumentalizar a Igreja”.
Também os Legionários de Cristo enfrentaram escândalos graves: o seu fundador, Marcial Maciel, foi responsabilizado por múltiplos abusos sexuais, financeiros e espirituais. Um relatório da própria congregação, publicado em 2019, reconheceu 175 vítimas menores de idade.
Na Galiza, o caso da Ordem e Mandato de San Miguel Arcángel, conhecida como Miguelianos, revelou outro rosto sombrio do catolicismo deformado: Miguel Rosendo da Silva liderava um grupo reconhecido pelo bispo local, mas que se converteu numa estrutura de dominação, com práticas místicas distorcidas, isolamento das vítimas e abusos sistemáticos. Em 2021, foi condenado a nove anos de prisão por abuso sexual continuado.
Embora não enquadrado como grupo de alto controlo, o Opus Dei tem sido alvo de denúncias, sobretudo de ex-numerárias, que relatam práticas de controlo total da vida pessoal, imposição de normas sem explicitação teológica adequada e formas de exploração do trabalho e do rendimento. A própria prelatura tem vindo a reconhecer parcialmente algumas destas críticas, o que demonstra que mesmo estruturas com aprovação pontifícia podem escorregar para formas de abuso se não forem escrutinadas.
Portugal: silêncio cúmplice

Stefano Manelli, fundador dos Franciscanos da Imaculada. Foto: Direitos reservados.
Em Fátima, o grupo “Família do Coração Imaculado e de São Francisco”, ligado ao fundador dos Franciscanos da Imaculada, padre Stefano Manelli, continua ativo apesar de não possuir reconhecimento canónico. Segundo a Diocese de Leiria-Fátima, trata-se de uma associação sem estatuto eclesial, embora mantenha um convento informal e promova eventos de forte impacto espiritual.
Manelli foi alvo de denúncias gravíssimas na Itália: imposição de mortificações físicas extremas, pactos de sangue, abusos espirituais e sexuais a religiosas. Embora o processo judicial tenha sido arquivado por prescrição, os factos relatados por ex-membros e documentos internos permanecem como um alerta para toda a Igreja.
Outro caso alarmante é o convento clandestino em Requião, Vila Nova de Famalicão, que operava sem aprovação canónica, albergando menores e impondo práticas severas de isolamento. O espaço foi encerrado após intervenção das autoridades, mas o silêncio que o envolveu durante anos demonstra a fragilidade dos mecanismos de vigilância eclesial.
Um apelo à Igreja Católica
Não basta denunciar. É preciso que a Igreja Católica – hierarquia, comunidades e fiéis – assuma a responsabilidade de escutar as vítimas, investigar com rigor e prevenir novas situações de abuso espiritual. Ser Igreja é proteger os mais frágeis, não proteger os abusadores.
Como cristão, digo-o com dor, mas também com esperança: purificar a Igreja é um ato de amor. Falar destes casos não é atacar a fé, é defendê-la do que a corrompe por dentro.
Que o 7MARGENS continue a ser espaço de luz para estas vozes silenciadas.
António Madaleno é investigador e especialista em seitas destrutivas e grupos de alto controlo.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.









