
Homem não identificado, Raul Leal, António Botto, Augusto Ferreira Gomes e Fernando Pessoa no Café Martinho da Arcada, em Lisboa, 1928. Foto © Autor desconhecido, Domínio público, via Wikimedia Commons.
Quando a sociedade insiste em viver afundada em ecrãs, recordo-me dos cafés de bairro. Havia um café debaixo do meu prédio que, passando por várias gerências, era sempre o ponto de encontro de pessoas de várias idades. Procuravam apenas um local de repouso, onde pudessem trocar histórias ou feitos passados e, por vezes, fazer uma previsão da próxima jornada do campeonato de futebol.
Antes dos tempos da ASAE, um dos donos desse estabelecimento brincava com as baratas no balcão. “Também merecem carinho”, confidenciava o senhor Pedrosa, enquanto acariciava os bichos.
Como o compreendo. Afinal, todos somos bichos que precisam de um café para pousar.
Com o passar dos anos, começamos a precisar de espaços para descarregar hormonas. Aqui entram em cena os cafés da juventude – perdíamos horas à volta de setas, planos, piadas ou outras inconsequências próprias da idade. Mas aquele espaço era importante: um refúgio onde podíamos dar asas aos nossos sonhos, nem que fosse apenas em conversas regadas com algum álcool. Chegávamos a fazer amizade com os donos e, por vezes, quase por acidente, parecia até que trabalhávamos ali. “Posso tirar uma imperial?”, perguntávamos com o descaramento típico da idade. “Estejam como se estivessem em casa”, respondia o dono, num tom sereno de quem já não hesita nem desconfia.
Hoje, o protótipo de café já se industrializou. Agora procuramos sítios onde possamos levar o computador e beber uma bebida sofisticada (ou, pelo menos, que assim pareça). Há quem diga que se tornaram mais industriais ou mais frios.
Mas não se pense que os cafés são espaços insignificantes, destinados apenas a ocupar o tempo quando se esquece a chave de casa. Não devemos esquecer os cafés de Voltaire – locais que trouxeram as luzes do conhecimento a uma Europa envelhecida. Foram espaços de debate, troca de ideias e experiências. Foi nos cafés que nasceram os principais movimentos culturais, políticos e sociais que transformaram a história ocidental nos últimos séculos.
O tempo passa, e os cafés mudam com ele. Nada podemos fazer quanto a isso. Hoje, muitos parecem quase farmácias, onde retiramos uma senha e somos atendidos – muito eficazmente, é verdade, mas sempre com o som de fundo da notícia mais negra do dia, transmitida pelo televisor num dos cantos. Talvez nasçam novas formas de pensar ou de estar. Mas há algo que dificilmente voltará a acontecer: donos que gostam de insetos.
Pedro Castro Gomes, licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica Portuguesa, é natural de Lisboa e trabalha como Analista de Media.







