«Se há lugar onde se pode dizer tudo é na literatura», afirmou Joshua Cohen (Público 04/07/2024).
Como se a literatura e os escritores fossem “a consciência moral” no mundo, o recente livro de Domingos Lopes pretende colocar a discussão democrática, o facto de o socialismo e o ideal comunista terem perdido relevância, capacidade, poder de atratividade e dinâmica mobilizadora da sociedade.
Num dito contexto histórico, político e cultural adverso, o autor, embora explicite a consciência do falhanço de experiências da materialização do ideal socialista em diferentes etapas na História, contudo, através da sua novela e nas suas personagens, remete para uma afirmação de um ideal que seria perdurável. Porém, esse ideal socialista, a democracia socialista, precisaria na atualidade de uma reconfiguração e reconsideração.
Desde logo, a novela centra-se nos pontos críticos relacionados com o PCP (Partido Comunista Português) como sujeito político transformador, para sugerir um novo equacionar e projetar a concretização do seu ideal, discutir o programa, as estratégias e a sua orientação tática.
A ficção literária de Domingos Lopes serve a ideia de que importa, hoje, reconfigurar o ideal comunista e a “indumentária ideológica”. A sua novela procura repetir a afirmação da tentativa de relançamento do projeto comunista. E até parece que o objetivo que percorre esta novela de Domingos Lopes é travar a erosão política acerca da sociedade socialista e inverter o declínio eleitoral “da esquerda consequente”, recolocar a corrente de esquerda no centro do processo histórico. Deste modo, o livro procura dar conta de um sentimento e de uma atitude de busca de energia para agir, para persistir, para recriar.
A prosa comporta neste livro uma função instrumental, declara a existência de um caminho para mudar o mundo, dá voz a um acreditar numa nova era, numa possibilidade de viragem da história.
O texto estrutura-se na base de um diálogo entre uma advogada estagiária e o seu patrono, seu antigo colega de curso. A dinâmica do diálogo avança em função de perguntas dedutíveis do início de cada uma das respostas.
Esta novela é protagonizada pela advogada estagiária, num diálogo com «o velho militante» (pág. 133), que, não só é o seu patrono no estágio, mas, sobretudo, é em quem deposita «plena confiança». A confiança daquela mulher enraíza-se no tempo em que «ia militando na revolução» (p. 70), e vivia «tão aconchegada ao Sérgio», outro dos personagens, em função do qual entrou «numa espécie de depressão». «Uma perda irreparável». O Sérgio deixou-a. Desencadeou uma tristeza sem fim, um estrangulamento interior: «Não quero mais amores, fiquei seca e já não regenero» (p. 13).
O sofrimento de amor e o que foi o casamento com o Sérgio servem para que Domingos Lopes estabeleça sucessivos paralelismos entre ela, que pôs a vida ao serviço dele, e a relação dela com o partido: «eu não me separei dele, foi ele que me deixou» (p. 40).
Ela, porém, “comunista sem partido”, de algum modo, ganha uma função metafórica: tal como «a velha árvore não tem de secar», o seu acreditar expressa «o universo de causa» (p. 48), em que, «suceda o que suceder», não se esgotará a fé na construção do socialismo. Sofrendo de amor, não deixa de ser «uma mulher de resistência» (p. 34).
Também o autor se tem proclamado «comunista sem partido». Domingos Lopes assumiu militância política desde a sua participação nas lutas académicas em Coimbra, onde entrou para a organização dos estudantes comunistas em 1969. Depois da revolução do 25 de abril de 1974, foi membro do Comité Central do PCP. Em 2009, apresentou à direção daquele Partido a sua carta de abandono com a exposição das suas divergências.
Advogado, Domingos Lopes tem vários livros publicados: Trajetos (Livros Horizonte, 1987); Com Alá ou com Satã, em coautoria com Luís Sá (Campo das Letras, 1987); Quando os Santos Deixaram de Ser Santos (Campo das Letras, 2000); O Homem que Falava (Campo das Letras, 2004); Direitos Humanos em Questão. Dever de Ingerência Humanitária? (Campo das Letras, 2008); A Paixão Destrambelhada do Velho Militante (Alêtheia Editores, 2011); Contos e Crónicas do Alandroal e do Resto do Mundo (Âncora Editora, 2017); Nas Margens do Medo (Âncora Editora, 2018); Do Tamanho Possível (Ulmeiro); Memórias Escolhidas (Guerra e Paz, Editores, 2020); 100 Anos do PCP. Do sol da terra ao congresso de Loures – Reconfigurar e resgatar o ideal comunista (Guerra e Paz, Editores, 2022).
Sequei e morri sem ter sentido que morri”, de Domingos Lopes
Ficção
Guerra & Paz, 2023, 140 páginas; 15,50 €










