Itamar Greenberg, 19 anos, esteve seis meses numa prisão militar israelita e os amigos cortaram relações com ele e chamaram-no de traidor – não tem sido um ano fácil para este judeu israelita, e para outros “desobedientes” da sua idade.
O jovem tomou a “rara decisão” de recusar o alistamento nas Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla inglesa) em agosto passado, enquanto estas conduzem uma guerra devastadora na Faixa Gaza, como conta o jornal inglês The Independent. Em vez de se alistar, Itamar passou meio ano atrás das grades ao lado de criminosos militares.
“Infelizmente, perdi amigos”, descreve Itamar ao jornal. “Tenho muitos amigos que são soldados, alguns deles decidiram cortar a nossa relação. Eles realmente acham que sou um traidor. Entendo o que sentem, mas obviamente não concordo.”
Desde a sua libertação, há quatro meses, Itamar continua a apoiar outros jovens desobedientes, revela The Independent, que descreve estes rapazes e raparigas como estando dispostos a arriscar o ostracismo da sociedade israelita ao desafiar a ordem obrigatória para todos os cidadãos judeus, drusos ou circassianos de Israel de servir durante anos nas IDF.
O jornal lembra que os homens devem estar pelo menos 32 meses (quase três anos) no exército, e as mulheres têm de servir pelo menos 24 meses. O país isenta do serviço militar obrigatório os cidadãos árabes israelitas, as mulheres religiosas, os indivíduos casados e os que são considerados clinicamente ou mentalmente inaptos, afirmam as IDF no seu site.
No relato do jornalista Alex Croft, os adolescentes israelitas objetores estão a queimar as cartas de alistamento nas IDF em protesto contra as ações militares em Gaza, arriscando o ostracismo público e enfrentando a prisão militar. É uma vida à margem da sociedade israelita.
Foi o que se passou na semana passada, quando um grupo destes jovens desobedientes queimou as suas cartas de convocação para o exército durante uma manifestação em Telavive, e noutro protesto, em Jerusalém, judeus ultraortodoxos bloquearam uma rodovia para protestar contra o recrutamento militar – embora a objeção destes se concentre na proteção da sua “forte identidade religiosa”, em oposição às objeções de consciência às ações das IDF em Gaza.
O movimento de desobedientes, dizem os ativistas, está a crescer. Mas Itamar diz que eles continuam à margem, desprezados por alguns, rejeitados por muitos, descreve The Independent. O medo de ser preso e de ser marginalizado pela sociedade israelita após a sua libertação leva muitos jovens adultos que discordam das ações das IDF a alistarem-se no exército, mesmo assim. “Tenho amigos que têm medo de ir para a prisão e alguns deles estão no exército”, explica Greenberg ao jornal. “Alguns não querem estar no exército. Acham que é imoral. Estão a alistar-se porque têm medo da sociedade israelita e das consequências na sua vida social.”
Itamar lembra-se de um dos seus melhores amigos que esteve prestes a recusar o serviço militar e foi ameaçado pela família de que seria expulso de casa se não se alistasse. O amigo cedeu e cumpre agora os 32 meses nas IDF.
A vida familiar também é complicada para Itamar. Filho de um oficial do exército, o jovem evita participar em debates sobre política e ativismo em casa. O pai “tem orgulho” em ser militar, “toda a família tem orgulho disso”, diz Itamar.

Manifestação de apoio a objetores de consciência israelitas: o movimento está a crescer, dizem os ativistas, mas ainda é residual na sociedade. Foto @danido999, via X Mitnick.
A manifestação da semana passada, que levou dezenas de pessoas às ruas em apoio do punhado de jovens israelitas que queimaram os seus documentos de alistamento, ocorre num momento de forte pressão internacional sobre Israel, por causa da fome generalizada na Faixa de Gaza. De acordo com as autoridades de saúde do Hamas em Gaza, as Forças de Defesa de Israel mataram mais de 62.000 palestinianos desde o início dos bombardeamentos a 7 de outubro de 2023, depois dos ataques liderados pelo grupo terem matado cerca de 1.200 israelitas e feito 250 reféns.
Para os poucos na esquerda israelita que se recusaram a servir por motivos ideológicos, a destruição contínua em Gaza adicionou uma complexidade única às suas vidas diárias. “É muito complicado viver numa sociedade, andar na rua e saber que a maioria das pessoas ao seu redor são criminosos de guerra ou participam num genocídio”, diz Itamar. A maioria dos israelitas que querem o fim da guerra, acrescenta o jovem, não se importa com a vida dos palestinianos, mas apenas com os seus. “Querem os soldados de volta para casa, temem pelas suas vidas.”
Yona Roseman, 19 anos, foi uma das pessoas que queimou a sua carta de convocação na semana passada. Ela espera ser presa quando a sua data de alistamento chegar, daqui a menos de um mês. “É assustador”, confessa sobre a iminente pena de prisão. Os pais de Yona, embora tenham compreendido a sua escolha, inicialmente não a apoiaram. “Mas não tenho dúvidas sobre isto. É exatamente o que precisa ser feito.”
Como Itamar, Yona diz que a decisão a tornou uma “pária” em Israel, como explica a The Independent. “É uma decisão que te afasta da sociedade convencional. Tenho amigos da minha turma que cortaram relações comigo por causa da minha decisão. O meu círculo social atualmente é composto por pessoas que estão comigo neste tipo de ativismo, então tenho uma comunidade, mas ela está desconectada do resto da sociedade.”
Yona e Itamar têm poucas esperanças numa mudança pública significativa em Israel. O interesse pelo movimento de recusa do serviço militar está a crescer, mas Yona acredita que quase todos os que poderiam ter recusado já o teriam feito até agora. “Não sei o que poderia mudar para que eles parassem de aparecer e lutar”, desabafa.
Os jovens ativistas esperam que aqueles que já estão no exército virem as costas às forças armadas. Itamar fala de um amigo que serve nas Forças de Defesa de Israel e “não é de esquerda”. O jovem conta que o amigo recentemente enviou uma mensagem para um chat em grupo: “Não sei como dizer isto, mas está a começar a parecer que estamos a cometer genocídio.”
Itamar gostaria de poder fazer mais: “Sinto que não faço o suficiente, apesar de quase toda a minha vida ter sido dedicada a acabar com [a ocupação]. Só não sei como.”










