Licenciei-me em Línguas e Literaturas Modernas – Estudos Portugueses e Ingleses, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, entre 1984 e 1988. No ano seguinte, optei por realizar formação psicopedagógica e, dessa forma, candidatei-me ao estágio, via ensino, que realizei no ano letivo 1989/90, na Escola Secundária de Avelar Brotero, em Coimbra. (Um bem haja à minha orientadora de Inglês, Julieta David, pelo seu exemplo de paixão pelo ensino, mas também pela irreverência e espírito avant la lettre). Esta introdução tem o propósito de destacar o facto de a minha relação com o ensino ser já longa, o que implica experiência não só profissional como, claro está, também de vida. Estive sempre ligada à escola pública, embora em contextos e instituições diversas, com algumas incursões simultâneas pelo privado.
No presente ano letivo, pela primeira vez, foi-me atribuída uma turma de um CEF (Curso de Educação e Formação). Que desafio!
Ao contrário do que muitos poderiam esperar ouvir, agradeço a oportunidade que me foi dada de trabalhar com um grupo de jovens de várias nacionalidades e etnias. Não vou especificar quais são elas, pelo respeito que me merecem, mas certamente imaginarão. Está a ser uma experiência incrível para mim! Todos os dias, salvo à segunda-feira, me encontro com este grupo de jovens, de entre os 15 e os 17 anos, para lhes ensinar Língua Portuguesa. Não, não são aulas de Português Língua Não Materna. Contudo, o nível de proficiência linguística da maior parte destes rapazes e raparigas encontra-se muito aquém do que seria de esperar para a sua escolarização. Com percursos de vida duros e oriundos de culturas que determinam à nascença o seu futuro, estas raparigas e rapazes sabem já muito de muita “coisa” e não reconhecem na escola, neste modelo de Escola, garantia de ascensão social ou o valor que nós lhe damos; mas, porque ainda não têm 18 anos e no país onde vivem a escolaridade é obrigatória até essa idade, têm de cumprir o dever de assiduidade.
Como se motiva? Como se ensina alguém que não quer aprender?
Alguém que acabou de chegar e que não fala a tua língua?
Alguém que fala a tua língua, mas mal sabe escrever e comunica com os seus pares noutro idioma?
Alguém que fala a tua língua, mas escreve como se tivesse entrado há pouco na escola, e já chumbou de ano as vezes suficientes para provar que o seu mundo não é o teu, que a sua família se rege por valores muito próprios no que respeita ao ser-se menina, filho ilegítimo,…

Uma página do diário pedido aos alunos. Foto DR
E o meio onde nasces? O bairro onde vives? Como essa circunstância pode condicionar a tua vida e horizontes!
Como se motiva? Como se conseguem ultrapassar barreiras, mais do que linguísticas, culturais, de mentalidade, enraizadas no ADN destes miúdos?
Só através da linguagem dos afetos, só com muito amor por aquilo que fazemos e respeito pelo próximo, conseguimos chegar até eles.
Ali, na sala de aula, somos todos diferentes. Por isso, somos iguais nessa diferença. No meio destes jovens, eu sou a única na minha diferença!
Diferente na idade.
Diferente na forma de vestir.
Diferente nos gestos das minhas mãos.
Diferente na minha atitude.
Diferente na linguagem.
Diferente até no cheiro!
Eles reconhecem e apreciam-na. (“A professora parece uma boneca”, dizem elas). Tal como eu reconheço e aprecio a sua diferença. E valorizo-a ao ponto de lhes transmitir. Num destes dias, quando os ensinava a escrever uma página de diário, explicando que só registamos aquilo que de absolutamente extraordinário nos acontece e que deviam respeitar as regras da marcação dos parágrafos, da estrutura da tipologia textual, enfim, “coisas chatas”, um grupo argumentava: “Mas, por que é que não pode ser assim?… Ai, a professora é muito complicada…”. Diziam-no com uma espontaneidade genuína. Verdadeira. Mesmo assim, iam acatando as minhas orientações, apagavam o que tinham feito de errado, queriam fazer “bonito”. A certa altura, vendo como, apesar da contestação ruidosa, o esforço para agradar à professora ganhava terreno, eu não resisti a dizer-lhes que os adorava e que conhecê-los estava a ser uma aventura extraordinária!
No final da aula, recolhi as páginas de diário para corrigir em casa. Anexo a fotografia de uma delas, sem comentar, e onde se pode ler:
“Querido Diário:
Hoje a Professora disse uma coisa que eu nunca pensei.
Ela disse que nos amava.”

“Mas, há ali também a empatia, a humanidade, a fé no ser humano, a sensibilidade do Philippe, que vê para além do que os olhos captam.” Cartaz do filme Amigos Improváveis.
Nas últimas aulas, temos estado a ver o filme Amigos Improváveis, na versão original, em francês, legendado em português. Silêncio, atenção, identificação com a realidade do Driss, as “ganzas”, o bairro, os becos, a necessidade de assinar os papéis para garantir o subsídio de desemprego, os estereótipos, a mãe que expulsa o filho de casa, esgotada, desesperançada… Mas, há ali também a empatia, a humanidade, a fé no ser humano, a sensibilidade do Philippe, que vê para além do que os olhos captam. Não sei qual tem sido o espetáculo mais improvável, o filme com esse título, ou a imagem da turma vidrada no filme. Que emoção!
Partilho esta minha reflexão, quase espontânea, porque, ao contrário da profunda tristeza que me têm provocado os amargos discursos ouvidos diariamente nas redes sociais e nos meios de comunicação social, é na escola, no meio destes jovens e da sua diferença, nas relações improváveis que com eles estabeleço, que eu me sinto verdadeiramente feliz!
Berta Ferreira é professora do ensino básico e secundário.










