Na reta final pré-conclave, os mais de 200 cardeais da Igreja Católica procuram, em ‘congregações’ diárias no Vaticano, escutar as visões de cada um quanto ao presente e futuro da instituição e identificar os critérios que permitam encontrar o novo Papa, a partir dos desafios do mundo e tendo em conta o legado que Francisco deixou.
Enunciando uma das opções inevitáveis que os purpurados estarão a considerar, o jornalista e vaticanista Robert Mickens formulava-a deste modo, na sua Carta de Roma: deverão os eleitores ir em busca de um homem que “acredita que a Igreja deve continuar com ousadia e profeticamente no caminho da abertura e renovação que o primeiro papa jesuíta do mundo estabeleceu — geralmente de modos imprevisíveis, não convencionais e disruptivos — durante os seus 12 anos no cargo” ou, em alternativa, procurarão “alguém mais cauteloso e intimamente amarrado a protocolos institucionais, mesmo que ele compartilhe a visão geral que o falecido papa defendeu para o futuro da igreja?”.
A dificuldade do processo de escolha poderá ser ainda maior, se se incluir aqueles cardeais que desejam não uma linha de continuidade, mas de rutura, com a visão da Igreja do Papa Francisco. Na decisão final, que deve acontecer no final desta semana, vai-se ver qual destas três (ou mais) possibilidades consegue reunir pelo menos os 89 votos necessários à maioria de dois terços, requerida para uma eleição válida.
Nas congregações ou reuniões dos dias mais recentes, de que chegam ao exterior ecos de alguns dos temas e problemas, não tem faltado participação. Os relatos da Sala de Imprensa dão conta de uma número superior a 20 intervenções
Na última sexta-feira, dia 2, o leque dos assuntos foi bastante diversificado. Os 25 intervenientes abordaram a ênfase na relação entre evangelização, comunhão fraternal e capacidade de falar especialmente às gerações mais jovens., que teria caraterizado o pontificado de Francisco.
Uma atenção particular foi dedicada às Igrejas do Oriente, marcadas pelo sofrimento, mas também por um forte testemunho de fé, Segundo o comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé.
Outro problema, de que até agora não havia notícia de ter sido abordado, foi o dos abusos sexuais na Igreja, que foram considerados um contra-testemunho no anúncio do Evangelho.
Matteo Bruni, o italo-britânico que dirige a Sala de Imprensa e é o porta-voz do Vaticano, relatou que essas questões dos abusos foram encaradas pelos cardeais como uma “ferida” que deve ser mantida “aberta”, para que a consciência do problema não se apague.
Outros temas que surgiram incluíram: a centralidade da liturgia, a importância do direito canônico e o valor da sinodalidade, interpretada na sua relação com a missão, a colegialidade e a superação do secularismo.
Por fim, acrescenta a informação oficial divulgada, houve uma reflexão sobre “a hermenêutica da continuidade” entre os pontificados de São João Paulo II, Bento XVI e Papa Francisco, bem como sobre o papel da Eucaristia, também na missão evangelizadora da Igreja.










