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autores - Jorge Teixeira da Cunha

[Entre Margens]

Sinodalidade: como se pode fazer caminho em comum?

 

No passado dia 22 de novembro, um grupo de amigos do padre António Samelo, da diocese de Coimbra, que morreu há um ano, promoveu um encontro sobre sinodalidade.
A intervenção de fundo foi feita pelo padre Jorge Teixeira da Cunha, professor de Teologia Moral. É esse texto que a seguir o 7MARGENS reproduz.

 

A reflexão sobre sinodalidade na Igreja tem oscilado entre propostas que se podem dividir entre a trivialidade e a seriedade. Parece justo dizer que a primeira forma é mais comum, com risco de fazer do caminho sinodal, ao menos nos nossos países do Sul, uma via débil e repetitiva de pensar a vida da Igreja e mesmo da comunidade política.

Na sua acepção débil, a sinodalidade pode ser demasiado pouco. Sem ofender ninguém, pode ser um esforço para pensar em mudar algumas coisas para que tudo fique igual. Pode até ser uma forma de reforçar o poder das autoridades da Igreja que se sentem justificadas para não darem contas a ninguém daquilo que fazem e decidem por todos. Pode ser apenas uma forma de camuflar as exigências de cumprimento do Direito Canónico que requer que se leve a sério a participação dos fiéis na condução da vida comum da Igreja. Pode ser uma forma de extremar as diferenças entre democracia na Igreja e sinodalidade, mas que redunda em prejuízo das primeiras.

papa francisco fala aos jornalistas no voo de regresso do cazaquistao 2022 foto vatican media

“Parece justo dizer que Francisco foi mais eficaz a pensar o porvir do que a ordenar o presente. Basta olharmos para os textos marcantes que escreveu, entre os quais se destacam a Fratelli tutti e a Laudato si’. Foto © Vatican Media

Mas parece justo dizer que na mente do Papa Francisco, a noção de sinodalidade era algo que vinha de mais fundo. O menos que podemos dizer das opções que tomou no tempo em que serviu a Igreja como sucessor de Pedro é que foram sempre caracterizadas pela sua ousadia em propor algo de grandes consequências para o futuro da vida eclesial e da teologia. Parece justo dizer que Francisco foi mais eficaz a pensar o porvir do que a ordenar o presente. Basta olharmos para os textos marcantes que escreveu, entre os quais se destacam a Fratelli tutti e a Laudato si’.

Mesmo que esses textos não sejam perfeitos do ponto de vista teológico e filosófico, eles inauguram um caminho para abrir o futuro. O mesmo se diga das suas intervenções em matéria de reflexão moral. É fácil dizer, como muitos dizem, que não modificou qualquer norma moral. Mas, em nossa opinião, ele colocou as bases para que, no futuro, se formulem as normas de acordo com as exigências evangélicas, em campos como a vida das pessoas divorciadas que iniciam nova vida conjugal ou sobre o sentido moral do afecto entre pessoas homossexuais.

Por isso, quando Francisco insiste na condição sinodal da Igreja, não quer deixar tudo como estava antes. Quer iniciar uma forma mais evangélica do viver em comum eclesial. O sentido das afirmações que fazemos seguidamente é fornecer uma melhor razão teológica e ética para dar corpo a uma forma de vida mais conforme com o Evangelho, tanto na Igreja como da comunidade política.

 

Da vida comum ao caminho em comum

A nossa vida em Igreja e em sociedade pode ser pensada na base de uma constituição metafísica da realidade, alheia e superior à vontade humana, instituída desde sempre e para sempre, à qual acede a razão do clérigo e do intelectual. Este é caminho em que a multidão obedece à elite iluminada.

Ora, a sinodalidade leva-nos no sentido de ver o real como imanência da vida que é originada em Deus e compartilhada por todos os viventes, especialmente pelos seres humanos. Viver é experimentar-se originariamente vivo e crescer nessa ipseidade profunda ao longo do tempo. Este viver comum, faz-se caminho comum. A experiência espiritual a que Jesus nos iniciou é fonte da sinodalidade.

 

Da ordem à contemporaneidade

“Este viver comum, faz-se caminho comum.” Foto: Direitos reservados (https://www.synodresources.org/2546/)

Uma consequência disto é a experiência da origem da vida e da Igreja na contemporaneidade com Deus e não na constituição hierárquica de uma instituição. O poder de agir vem desta contemporaneidade e não da ordenação. O caminhar em comum, a sinodalidade vem da experiência da contemporaneidade com Cristo, origem da vida de todos, num compartilhar ministerial de bens e de serviços.

 

Da práxis à teoria

Pela via da imanência, a acção divina está na origem da individualidade e do poder de agir. Este poder de agir recebe-se deste um lugar imemorial que é em si indisponível e não manipulável por ninguém. A subjectividade humana tem acesso ao agir individual e comunitário quando se expõe à fonte e não se impõe aos outros pela legitimidade da colocação numa hierarquia. A eclesiologia sinodal tem o seu fundamento nesta exposição à graça precedente, à paciência de esperar que todos entrem na corrente do caminhar em comum e não no avanço precipitado e impaciente de quem supõe estar na verdade, sejam pessoas ou sejam grupos.

 

Da práxis à poiesis

É a práxis, ou seja, a adjacência à vida de Cristo, que dá o poder de agir em comum. Por isso, a nível estético e económico, apenas pode haver eficiência para garantir e promover a vida da Igreja e da sociedade na base desta ordenação recebida e suplicada, num discernimento comum, e não no assédio ao lugar de ordem, mesmo que o titular da ordenação pareça ou seja mais eficiente do que os seus semelhantes.

 

Da heteronomia à empatia

A vida em Igreja e da comunidade política continua largamente a ser pensada como heteronomia. Ora a sinodalidade vai no sentido de começar pela empatia de uma vida sentida de forma incoativa por todos os membros da comunhão dos santos e não da submissão a uma lei comum racionalmente fundada. Apenas a empatia possibilita a sinodalidade. O paternalismo clerical, ou carismático, apenas adia o início do caminho comum, pois deixa para trás os mais débeis e ao mais pobres, escandalizando-os e levando à descrença e à ameaça da vida.

 

Sinodalidade e ética social

A sinodalidade está na origem da ética social, ou seja, do ordenamento da vida em comum segundo a justiça e a misericórdia. Para a vida da Igreja e da sociedade, a sinodalidade leva-nos a fazer um caminho por etapas. Primeiro, leva-nos à superação da dominação de uns pelos outros, como no despotismo. Leva-nos também a impugnar o que podemos chamar a teoria da contiguidade, com fronteiras seguras, mediante qual podemos ter uma paz social provisória. Uma ética social sinodal será feita da confabulação, ou seja, da palavra e da narrativa compartilhada entre pessoas e grupos, cada um com a riqueza da sua cultura posta à consideração dos outros, num processo de enriquecimento comum e de paz. A celebração da vida em comum, celebração festiva e litúrgica, é possível na base deste encontro de virtualidades e não na repressão delas.

 

Sinodalidade e actualidade

Lázaro

A sinodalidade, como paciência de caminhar em comum, livra-nos também da tentação de justificar a dominação económica, o abuso insustentável dos recursos naturais, a neurose da apropriação. Por esta via, caminhar em comum é a  forma de garantir a vida e o futuro.Foto © James Martin, reproduzida no livro.

A sinodalidade, como regresso ao caminho em comum e progresso nele, é muito necessária às sociedades de hoje. Basta olharmos para aquilo que nos preocupa mais nos dias que correm: a migração e todos os motivos que levam a ela, a Inteligência Artificial, o confronto mortal entre conservadorismo agressivo e insubmissão niilista, o diálogo inter-religioso.

A sinodalidade constitui-se com um princípio de lucidez contra a tentação da segurança doutrinal neurótica que é a tentação de tantas pessoas e de tantos grupos eclesiais e sociais.

A sinodalidade previne-nos igualmente contra a tentação da segurança nacional e internacional que legitima a guerra e a crença na possibilidade da paz pela via do rearmamento, às vezes com legitimação de uma pseudo-teologia.

A sinodalidade, como paciência de caminhar em comum, livra-nos também da tentação de justificar a dominação económica, o abuso insustentável dos recursos naturais, a neurose da apropriação. Por esta via, caminhar em comum é a  forma de garantir a vida e o futuro.

A sinodalidade dá à humanidade o sentido do caminhar em comum dos povos, da partilha das riquezas, livra o possuidor da sua neurose de avareza, pois ninguém garante o seu lugar na mesa da vida, enquanto as multidões de pobres estiverem no lugar inferior do pobre Lázaro.

A sinodalidade dá-nos mesmo a possibilidade de robustecer a nossa subjectividade paciente, para nos conservarmos simultaneamente servidores e senhores da acção e do poder, no contexto de manipulação generalizada que a chamada Inteligência Artificial está a ocasionar no nosso mundo.

Bem-haja, pois, o Papa Francisco quando nos pôs a caminhar e a pensar nesta direcção.

 

Jorge Teixeira da Cunha é presbítero da diocese do Porto e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

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