
Ícone ortodoxo representando Santa Febe, uma das mulheres diáconos identificadas nos textos de São Paulo.
Winston Churchill disse a famosa frase: “Aqueles que esquecem a história estão condenados a repeti-la.” Se a Igreja Católica se esquece da história, está simplesmente condenada.
O Papa Francisco publicou recentemente uma carta “Sobre a renovação do estudo da história da Igreja”. Não importa: O próprio Francisco parece ter esquecido a história das mulheres ordenadas diáconos.
Quando ele falou com Norah O’Donnell, da CBS News, numa entrevista na primavera passada, ela perguntou-lhe se as jovens poderiam um dia tornar-se diáconos. “Não. Se se tratar de diáconos com ordens sagradas, não. Mas as mulheres sempre tiveram, diria eu, a função de diaconisas sem serem diáconos, certo?”
Errado.
Durante mais de 1.000 anos, as mulheres serviram como diáconos (ou diaconisas, dependendo da língua). A única pessoa na Escritura chamada diácono é Santa Febe, que viajou para Roma como emissária de São Paulo, levando a sua Carta aos Romanos.
Com o amadurecimento da Igreja, as mulheres diáconos eram ordenadas durante as missas, tal como os homens diáconos. As liturgias de ordenação que os bispos utilizaram ao longo dos séculos para ordenar as mulheres ao diaconado cumprem as normas para a ordenação sacramental decretadas pelo Concílio de Trento do século XVI. Estas mulheres são citadas em documentos literários e os seus nomes estão inscritos em lápides em todos os lugares do cristianismo primitivo.
O que aconteceu? A Igreja acabou por deixar de ordenar alguém para o diaconado como uma vocação permanente, porque o diaconado dos homens se tinha tornado uma pedra de tropeço para os padres ambiciosos. No início da Idade Média, os diáconos e os arquidiáconos geriam os fundos e a caridade da Igreja e, com os seus conhecimentos administrativos, sucediam frequentemente aos bispos. Mais de 30 papas da Igreja primitiva nunca foram ordenados padres!
A solução foi a exigência de que qualquer homem ordenado diácono tivesse de estar a caminho do sacerdócio. Como as mulheres nunca foram ordenadas padre, não eram elegíveis para o diaconado.
Muitos delegados do recém-encerrado Sínodo sobre a Sinodalidade, a cimeira do Vaticano sobre o futuro da Igreja, deixaram claro que acreditavam que o diaconado devia ser aberto às mulheres. O melhor que lhes foi oferecido foi a promessa de que o assunto estava aberto a um estudo mais aprofundado. No entanto, há uma parede de tijolo pontifícia pela frente. Como Francisco disse a O’Donnell, “as mulheres são de grande utilidade como mulheres, não como ministras. Como ministras neste campo. Dentro das ordens sagradas”.
O Papa parece ter fechado a porta à recuperação da tradição da Igreja sobre os diáconos, permitindo simultaneamente a saída de mulheres e homens do catolicismo, em todo o mundo.
Sim, a população católica está a crescer nos países em vias de desenvolvimento, mas o governo e a caridade da Igreja são apoiados por donativos de nações onde as pessoas de posses e até de meios moderados foram educadas para a igualdade batismal de todas as pessoas. Estão a abandonar a Igreja.
O que fazer?
As próprias palavras de Francisco devem ser aplicadas aqui: “Um sentido adequado da história pode ajudar cada um de nós a desenvolver um melhor sentido de proporção e perspetiva, chegando a compreender a realidade como ela é e não como a imaginamos ou como gostaríamos que a realidade fosse.”
Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado no Religion News Service e é publicado em Portugal por cedência da autora e daquela publicação ao 7MARGENS.










